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Zao Z = 7L
Deveria
este texto vir em defesa do jazz-rock, enaltecendo
a importância deste movimento musical face ao detrimento dos seus
adversários, que o maltratam pelo simples facto do seu contorno intimidante de híbrido traiçoeiro. Pioneiros como Miles
Davis, Frank Zappa ou Soft Machine, nos criativos
finais de sessenta, prepararam a cama para esta criança mal amada. Não seria
justo a música
popular acompanhar todo o sincretismo social e o agudo grito libertário,
entretanto impulsionado? No seu
primeiro álbum, os Zao com Mauricia
Platon nas suas litanias sem palavras apareceram
com uma estética espontaneamente nascida da mistura de brinquedos opostos
(rock e jazz), insuflada com a escrita clássica (Bartok,
Strawinsky, Xenakis, Wagner, ups...vasto
mundo), a etnicidade centro-europeia
e um protótipo original, herdado dos Magma, tremendo grupo esotérico do qual Zao foi um dos rebentos, excêntrico no seu berço
argiloso. Bastaria
para a apologia da criança feia, a necessidade da contínua revitalização da
arte musical, numa perspectiva altruísta de fruição e não a invocação
patética da mistura laboratorial de água e azeite e do que vem à superfície.
Questões de gostos? Experimentem ouvir com os sentidos intactos e apurados
esta convulsão de voz e instrumentos, abdicando dos preconceitos, esses sim
totalitários no seu desrespeito. Acima
de tudo, há uma sintonia imaculada entre o destempero rítmico da voz de Mauricia Platon e o resto da
horda interplanetária. François Cahen
e Yochk’o Seffer
refugiando-se dos Magma, armaram cadências e compassos trepidantes ao lado de
um violino eléctrico no paladar da Mahavishnu
Orchestra. “Marochsek”, no tapete da entrada é
apenas o vislumbre ameaçador para um conjunto de seis portentosos cânticos
que não dão hipótese ao nosso fluxo sanguíneo, o grito “ZAO” conjurado para a
celebração de inflexões desbragadas de feições felinas, eram os anos setenta,
meus amigos, um dos períodos mais férteis de libertação! “Ataturc” é uma corrida festiva entre montes e vales, há
galgos e gazelas, e o ápice (apontem os 4 min) é um dueto entre o aparatoso
saxofone de Seffer e a bateria-polvo
do mágico Truong, represados pelo delicioso piano
eléctrico, condensando o cúmulo estratosférico
(escutem este piano, meu deus...) “Ronach” avança pela paisagem de um ignoto mundo, uma voz
exultante que progressivamente se torna gutural e demente, prodigiosamente a
disparar para a esfera de circum-navegação do céu insondado. Ópera anciã
redigindo cartas celestes galácticas, voz telescópica enviando mensagens...
Por outro lado, “Atart” é animalesco,
rastejante e corpulento, angustiantes entoações conspiram mistérios e cultos
fossilizados, olhos glaucos seguem a nossa expedição nestas terras
arriscadas. Em “La
Soupe”, onde espreita por momentos uma modinha
brasileira distorcida, há uma alegria de comunhão lírica na amplitude
improvisada do violino e dos sopros, magníficos quando atravessam uma
superfície quente assistindo a voz. Mauricia Platon não é uma decoradora duplicando a prática
instrumental, o seu travo térreo e caloroso é apelo sentimental de longo
alcance, os Zao são uma corporação orgânica e Mauricia o coração bombeando alento aos tentáculos. Em
“La Soupe”, todos os atributos do mais valente jazz-rock lá estão, sobretudo a improvisação desmedida e
exultante do género “união-faz-a-força”
intercalando com intervalos de tranquila contemplação da própria obra. Quando
se passa para “Satanyia”, já os folclores centro-europeus (Seffer é de
origem húngara e Truong vietnamita, se não estamos
em erro) se apoderaram do ritmo, há uns resquícios de dança trazida dos
fiordes, o tema desenrola-se definitivamente em redor de algum ritual
dionisíaco, adquire apelo tântrico, enfim tudo
aquilo que o bolor de algumas cabeças cristãs nunca será capaz de
compreender. Zao parecerá uma sociedade secreta, com a sua branca
marca em fundo vermelho, gravura perdida num pergaminho estelar. Raras
vezes a música de fusão terá criado híbridos tão entusiasmantes como este,
com os seus detractores, é certo, mas tudo tem o seu tempo de habituação,
abram os ouvidos aos Zao e adeus sistema solar! |
Referências: LP – Vertigo, 6499 738
(França, 1973) LP – Cryonic, MAD 3024
(França, 1986) CD – Musea, FGBG 4092.AR
(França, 1993) Faixas: 1. Marochsek
[7:13] 2. Ataturc [5:49] 3. Ronach [4:39] 4. Atart [3:31] 5. La Soupe [7:20] 6. Satanyia [6:46] Músicos: François Cahen –
piano acústico, piano eléctrico Yochk'o Seffer – saxofone, clarinete Joël Dugreno – guitarra-baixo Jean-Yves Rigaud
– violino eléctrico Jean-My Truong - bateria Mauricia Platon - voz Outros créditos: © 1973 Vertigo |