YES
Close to the Edge (1972)
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Em 1972, uma das metades do mundo ainda era verde e acolhedora - a comprovar pela capa dos Yes -, enquanto a outra era ameaçada pelo negrume. Tentava-se a todo o custo tirar do chapéu colorido, as últimas sementes do sonho que havia ficado dos anos 60, entretanto destroçado e tornado inviável enquanto utopia social.
Ouçamos “Close To the Edge” como metáfora dos tempos conturbados da altura, na perspectiva de entendermos os labirínticos textos de Jon Anderson, muito próximos de um sincretismo panteísta emoldurado pela fantasia, aos quais o designer Roger Dean deu significativa ajuda na concepção estética, para o mal ou para o bem.
Definido como um dos expoentes máximos do rock de fusão, estatuto que mantém há mais de três décadas, o som de “Close To the Edge” é esmeralda pura, sólida, estimulante, erguida em estratos musicais revelando enigmas fossilizados, denso magma adormecido, arrebatamento em êxtase transformado em energia pura.
Assim que os pássaros começam a chilrear na monção de um rio transbordante, estamos a ditar os nomes de todas as tradições para paraíso, estado primordial, etc... Todos eles se transformam numa miragem depois de um primeiro e impetuoso riff de guitarra eléctrica, secundado por um baixo alpinista e por uma bateria metódica - os teclados ainda navegam rio abaixo...
Dividido como uma sinfonia, o tema-título vive exclusivamente na escala do grandioso, os instrumentos em espiral dilatando e diluindo nos dois primeiros movimentos (“The Solid Time Of Change/Total Mass Retain”) e reunindo-se na celestial temperança de “I Get Up I Get Down”, onde Wakeman, com um emocionante solo de órgão, cria a agulha do álbum...
Esta longa suite é ao mesmo tempo, gruta e catedral, jardim e montanha, levitação e natação, reflexão, emoção, voo e pés descalços na relva.
Não há uma história aceitável de como todo o tema foi construído; imagina-se que tenha sido através de exaustiva colagem de sons, riffs e solos, mas apesar de poder parecer uma construção cerebral, não há aqui a preponderância deste ou daquele instrumento, nem ocasiões individuais para brilhar como acontecera em metade do álbum anterior, “Fragile”. Injustamente os Yes foram sempre contestados por esticarem os seus temas (por vezes até ao delírio), mas temos de compreender que estamos no domínio da improvisação apoiada na composição, entre a erudição clássica e o atrevimento do jazz.
Passemos ao amor, que é a condição do segundo tema, “And You And I”, e também a antítese da vastidão precedente. Nada melhor que a preparação dos músicos no estúdio: o relaxamento, meia dúzia de bebidas energéticas, músculos descontraídos, o prelúdio com “ok” do produtor Eddie Offord (o sexto Yes, sem dúvida), variações de guitarra acústica saboreando a canção, respiração e soberba união de todos os atributos dos músicos.
A guitarra trovadoresca de Steve Howe introduz a androginia de Jon Anderson - inesquecíveis as primeiras palavras proclamadas em alto grau filosófico, qual capítulo desaparecido do “Banquete” de Platão.
A terceira e última faixa, “Siberian Khatru”, anuncia-se num prodigioso groove, enlevado pelos músicos que disparam incessantemente melodias que parecem invocar uma desconformidade temporal apenas igualada pelas ilustrações de Roger Dean. Ao terceiro minuto, o grupo precipita-se numa cascata de melodias milimétricas, seguindo-se depois um excitante dueto entre cravo e baixo.
Estes são os Yes espontâneos antes da exaustão que os marcará no final da década de 70. Aqui, a guitarra eléctrica de Howe, não atinge ainda a ferocidade cortante de “The Gates Of Delirium”; Wakeman está controlado e a dupla Bruford/Squire pertence à grande estirpe do ritmo. Quanto a Anderson, compreenda-se na essencialidade do seu canto, a androginia do seu canto, inconfundível e, para o bem ou para o mal, inimitável.

© 2006 AJQ