WYATT, ROBERT
Rock Bottom (1974)
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“Rock Bottom” é uma emocionante declaração de amor rodeada pela raiva, desilusão e desencanto. Ao que parece, tudo começou em Veneza, quando Wyatt, acompanhando a sua futura esposa, Alfreda Benge, se deixou encantar pelo firmamento aquático da cidade e pelo vinho bebido com os gondoleiros num bar mal afamado das redondezas. Alfreda, ocupando todo o seu tempo na rodagem de um filme, decidiu oferecer a Robert um sintetizador, cujo som, pouco mais do que roufenho, emulava na perfeição a inconstância da superfície aquática que os rodeava.
Os dias prazenteiros assistiam à formação de “Rock Bottom”. A luminosidade do tempo e a vagarosidade da paisagem, conferiam aos esboços, uma espécie de incorporalidade e intemporalidade, que apenas tinham par na paisagem que rodeava a própria música. Nada faria supor que o desastre estava iminente (o dito senhor não gosta de se fazer anunciar): já em Londres, numa festa, Wyatt cai de um quarto andar e fractura a espinha dorsal, ficando paraplégico. “Rock Bottom” assume cada vez mais importância na vida do músico – rompe num ápice, a barreira que separa o sonho do pesadelo, oferecendo a Wyatt, a oportunidade de se resignar e seguir em frente.
E assim “Sea Song” é uma dessas canções que nos deixa entre o arrepio do êxtase e a elevada emoção, como se compreendêssemos a terna medicina da dor transcendente. É o início do testamento do homem que outrora fora baterista de um grupo de rockers abstractos e psicadélicos, mais tarde transportados para o jazz-rock lunático, os Soft Machine, agora circunscrito ao seu destino de paraplégico.
Contudo, a sua rara voz de dormente bondade etérea, o tal sintetizador roufenho acompanhando o moog e um conjunto de amigos fiéis (entre eles o jovem Mike Oldfield, acabado de editar “Tubular Bells”), nos metais, percussões e guitarras, fariam de “Rock Bottom”, uma obra-prima absoluta – todavia ainda não totalmente aceite pelas massas, injustamente depreciada pela sua atmosfera dissonante e ebriamente nonsense.
É a comovente partilha da dor que abrilhanta “Sea Song”. Regressamos-lhe sempre com as lágrimas a escorrer pelas bochechas, limpos e submersos num humanismo redentor, conscientes da superação dos defeitos, esperançados até. E é só o primeiro capítulo de “Rock Bottom”. Uma canção de amor convivendo com a desilusão: “(...) when you’re drunk you’re terrific, when you’re drunk I like you mostly late at night, you’re quite alright. But I can’t understand the different you in the morning when it’s time to play at being human for a while. Please smile.”
Contudo, com tal portento a inaugurar a contenda, o resto do álbum não pode ser menosprezado. Até no delírio extrasensorial de “Alifib / Alife” há excelente música – um sofisticado e delicioso jazz-rock que Wyatt e companheiros (Hugh Hopper, Richard Sinclair e Mongezi Feza) descobriram nos laboratórios dos Soft Machine e dos Caravan, abrilhantando um dos períodos mais radiosos da “british counter-culture”.
Por exemplo, acerquem-se do estado de suspensão estratosférica de “A Last Straw”, com Wyatt a escrever um outro tratado ao piano (para quem era essencialmente baterista, atentem na coda final!), por entre fatias de um balbuciante scat-jazz e frases desconexas de iluminação uterina, como se procurasse uma fuga para o seguro ventre materno, em esconjurado desalento pelo estado do mundo.
Descubram ainda Robert Wyatt do outro lado do espelho em “Little Red Riding Hood Hit the Road”, onde camadas de textos e sons tocados em “reversed tapes”, acompanhados pelo categórico e multifacetado trompete de Mongezi Feza e a inesperada aparição de Ivor Cutler, criam um formidável campo de improvisação em voo panorâmico, áspero e vertiginoso.
E aí, sim, aparece “Alifib / Alife”. Como um anátema de agonia, um ataque de pânico incontrolado durante a noite em que o nome da pessoa amada se repete em tartamudas aproximações; respiração de um corpo metade; dias e dias no hospital caçando palavras no tecto; carícias nefelibatas e lágrimas de almofada; crianças graúdas que redescobrem o amor (“trip trip pip pippy pippy pip pip landerim.”). Treze angustiantes minutos que escapam a redundantes e racionais definições – a emoção de quando em quando vem desorientada, em espúrio salto de trampolim. Entra catártica, teimosamente desobedecendo ao comando cerebral. Hugh Hopper enternece com notas límpidas no baixo eléctrico, afagando a voz de Wyatt num berço que gentilmente voga; Gary Windo ataca e semeia desesperos tonais nos saxofones, justificando o pavor, enquanto o piano se defende – e bruscamente Alfreda Benge (Alifib, Alife) toma a mão salvadora, acordando-o do pesadelo (“I’m your dear little dolly (...) I’ll fill up your belly (…) I’m Alife your guarder.”).
Olhamos de novo para o espelho em “Little Red Robin Hood Hit the Road”. Wyatt inicia-se nos comentários sócio-políticos sobre o estado da sua Inglaterra – as toupeiras funcionam aqui como símbolos da hipocrisia humana: “Dead moles lie inside their holes. (...) Innit a shame? (…) Roots can’t hold them. Bugs console them.”
Depois da exuberante guitarra de Oldfield, o violino de Fred Frith remete-nos para a parte visivelmente mais negra, mas nem por isso mais desconcertante, de todo o álbum: Ivor Cutler encena um pequeno teatro de rua, no qual encontra várias formas semânticas de esmagar telefones e televisões. Apercebemo-nos lentamente da raiva condensada, e silenciosamente subjacente, de Wyatt, na qual, o riso é o derradeiro som que espreita em irónica demência.

© 2007 AJQ