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White Noise

An Electric Storm

 

  

 

Este disco precioso surgiu de um fortuito acaso, no princípio era um single (“Love Without Sound” / “Firebird”), que David Vorhaus deu a ouvir ao entusiasmado Chris Blackwell da editora Island (os outros magnatas olharam de soslaio), dando logo crédito de 3,000 libras para que a dupla de canções se alargasse a um álbum completo. Revelando uma apetência vanguardista pela experimentação electrónica e fugindo aos cânones da “grande horda do amor”, os White Noise amotinaram a música popular ao lado do álbum homónimo dos United States of America (mais tarde Joe Byrd and The Field Hippies) e os Silver Apples, no ano de 1969.

David Vorhaus, também ele americano (filho de um realizador marcado na lista negra da caça às bruxas), estudava música em Inglaterra quando conheceu Brian Hodgson e Celia Derbyshire, membros do colectivo Unit Delta Plus que compunham temas para “jingles” e séries da BBC (entre os quais o genérico de “Dr. Who”). Unindo conhecimentos científicos e um abrangente amor pela música, nasceu um projecto que deu à luz uma ingénua e cativante obra-prima.

Chris Blackwell deu a David Vorhaus mais 7 minutos para completar o tempo necessário do álbum e assim sendo, o último tema “The Black Mass: An Electric Storm In Hell”, foi gravado em serão nocturno no estúdio; é um monstruoso “psych-electronic-freak-out”, assumidamente influenciado por “Saucerful of Secrets” dos Pink Floyd. A seguir a um intróito que se assemelha a uma cantata de Benjamin Britten, os White Noise usaram percussão dramática ecoando e dando a impressão de uma cerimónia ancestral; sobre a concentração dos tímbales, atiraram sons ao acaso, esticados e modificados, gritando lancinantemente para os microfones, consagrando o pesadelo à “jam session live in studio”.

Na outra extensa faixa, “The Visitations”, estes propósitos de indução sonora são mais evidentes e eficazes, hoje a 37 anos de distância a burguesia bem pensante ainda torce narizes e ouvidos com esta “música-do-demo”. Canta-se a história de um acidente de motorizada (está lá o som do despiste), um par adolescente sofre a separação eterna do amor, ele morre e ela percorre as ruas da amargura presa à memória do amado; lamúrias salpicam toda a cacofonia do tema, transtornando por certo o mais duro dos calmeirões. O rapaz então visita-a em espírito, informando-a que estará sempre na sua companhia; ela não se resigna e farta-se de berrar “please don’t go, don’t go”. É uma eloquente conciliação de sons, a banda sonora para uma sessão de hipnose ou cinema da “Hammer House”, o órgão malevolente embalando as vozes que cantam e declamam; os teclados planantes (é difícil saber qual deles predomina), o contrabaixo percutido que finalmente leva o par para os confins do limbo em modorra amorosa.   

Mas falemos assim (pois o vinil vende cada vez mais), se o lado 2 era dedicado ao distúrbio sobrenatural, o lado 1 continha uma mão-cheia de apetitosas e emocionantes miniaturas, picantes, afrodisíacas, etéreas, ébrias, tão subversivas quanto a estética dos revolucionários “sixties”; ora ponham a tocar o disco num jantar de amigos e haverá risos, esgares e testas enrugadas.

“Love Without Sound” introduz a voz hermafrodita de John Whitman, retinindo indolente num quarto de incenso, cercada por violinos, violetas e violoncelos que afinal nada mais são que contrabaixos tratados electronicamente em diversas velocidades; é preciso despender (pelo menos) uma boa dezena de audições para nos apercebermos de tudo o que ali vai debaixo da fita. Há uma senhora que tem sete orgasmos num minuto e coros que se desfazem em gelatina, osciladores no seu papel oscilante (pois) e batuques artificiais (sim!), murmúrios e risos de harém, chuva de meteoros e outros sons indistintos vertidos das máquinas.

Do humor erótico à luxúria circunspecta, “My Game Of Loving” é incomparável na história da música popular; um “soft-jazz” já de si tão lúbrico (David Lynch tentou isso em “Blue Velvet” e os Portishead roubaram o riff inicial) alternando com a maior orgia “sado-maso” do rock (Serge Gainsbourg e meninas, estais “aperdoados”). A cantora Annie Bird estimula um guloso baixo eléctrico com frases em inglês, alemão e um “Je m’ amuse” terrífico, aprontando-se para as sevícias sexuais do chicote e das máscaras. Esperem pelos dois minutos, em que tudo vai parar a olhar para a cena, sexo puro e duro desenrolando-se à frente dos nossos ouvidos; David Vorhaus pegou na gravação de uma orgia verdadeira em que participou (“na altura era um devasso, era a toda a altura e em qualquer lugar”, diz galhofeiro) e revezou-a com “outra” construída electronicamente a partir de gemidos & suspiros. Ainda há uma ou duas vergastadas bem dadas durante um solo de bateria, algumas vozes em clímax e uma que refeita da diversão, ressona sonoramente acalentada pelas cordas distorcidas do contrabaixo.

Here Come The Fleas” é um hilariante assalto de pulgas, genuíno “Marx Bros” transposto para canção, o que é difícil, convenhamos, dado que nem toda a gente pode ser Peter Sellers ou Frank Zappa. Como se Billie Holiday decidisse cantar em desmazelo, acabada de sair da cama e interpolasse irritada o marido por não se lavar, nem querer arranjar trabalho e vai daí a discussão; mas as pulgas nem uma, nem duas, saltam como nos “cartoons” em grande algazarra; há um músico caribenho que estrondosamente bate à porta do quarto, incomodado pois já não consegue ouvir a sua própria “steel band”, as pulgas prosseguem nos seus afazeres, arrancando uma série de onomatopeias aos “Looney Tunes” e “Hanna-Barbera”. E nenhum instrumento a funcionar decentemente, sons desbocados acompanham um órgão que se despista, mas tudo acaba em concórdia, se o marido se decidir pelo banho de imersão terá à sua espera um sonoro beijo “Marylin-Monroeniano”.

Nos temas seguintes, os “White Noise” criam uma atmosfera lírica; “Firebird” baseia-se no “Pássaro de Fogo”, poema orquestral de Strawinsky (anda sempre por aqui); a voz de “crooner” distraído de John Whitman retorna com rastos de “doo-wop” sonolento pejado de osciladores e moogs, um contrabaixo “swingante” e coros femininos de misteriosa categoria etérea. “Your Hidden Dreams”, a peça de maior quilate introduz uma voz (Val Sharpe, de quem nunca se ouviu falar) de fazer trespassar o coração, novamente num jazz murmurado com bateria de vassoura e as quatro linhas do contrabaixo; contudo não se deixem defraudar, a sensação é  bela e ameaçadora, como se dentro daquela pele uma sereia (os coros confirmam) se preparasse para nos arrastar para as águas. O piano, a ornamentação electroacústica e até a acidentada percussão são artimanhas aquáticas, em arroubo erótico dos sentidos.

A capa, a branco e preto, apresentava na edição original a imagem dos raios da tempestade eléctrica em três dimensões (como bem atesta a colecção da Island 3D), a edição em CD infelizmente não respeitou essa ideia.

Na forja do que ainda estava para vir, “An Electric Storm” influenciou nomes como Annette Peacock, Young Marble Giants e os pupilos dos anos 90, Stereolab, Broadcast, Pram, Fort Lauderdale, entre muitos outros.

 

© 2006 António Jorge Quadros

 

 

 

 

 

 

Referências:

 

LP - Island, 9303 (1969)

CD – Island (1995)

CD – Polygram International, 510948 (1999)

 

 

Faixas:

 

1. Love Without Sound [3:07]

    (Derbyshire, Vorhaus)

2. My Game of Loving [4:10]

    (Derbyshire, Vorhaus)

3. Here Come the Fleas [2:15]

    (Derbyshire, Vorhaus)

4. Firebird [3:05]

    (Derbyshire, Vorhaus)

5. Your Hidden Dreams [4:58]

     (McDonald, Vorhaus)

6. The Visitations [11:14]

     (McDonald, Vorhaus)

7. The Black Mass: An Electric Storm in Hell [7:22]

     (White Noise)

 

 

Músicos:

 

Val Shaw – voz

David Vorhaus – efeitos sonoros, coordenação de produção

John Whitmanvoz

Trevor Wyatt – Transfers

Paul Lytton – percussão

Annie Bird - voz

 

 

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