WHITE MAGIC
Dat Rosa Mel Apibus (2006)
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Soubemos da existência dos White Magic em 2004 pelo belíssimo mini-CD de 6 temas, “Through the Sun Door”, entre a folk avançada e os Art Bears; cedo se assistiu à dispersão da maior parte do grupo, felizmente novos elementos deram as mãos brindando-nos com o primeiro álbum de longa duração, utilizando pois a linguagem do vinil. Com uma capa que é uma maravilha de minúcia, “Dat Rosa Mel Apibus” é a mais sólida revelação do ano que findou. Comandando a nova formação, Mira Billote, pianista e senhora de malabarismos vocais de alto nível encantatório.
Não se confundam adeptos do “gothic-dark-wave” com tal título em latim, pois não se está em presença de outra cópia descorada dos Dead Can Dance (que nunca quiseram ser góticos, valha a verdade); os White Magic apesar de um parto atribulado, são de outras coordenadas, improvisam inesperadamente sentados em redemoinhos de sitars e guitarras cristalinas, um pouco como os Durutti Column dos primórdios. Aguardar algo de etéreo e levar com o galope feliz de “The Light”, com ritmos aparentemente simples do quarteto piano/guitarra/baixo/bateria, deixa-nos estapafúrdios com o excêntrico efeito obtido com tão pequeninos meios; Mira Billote aparece então galvanizada pelos jogos lúdicos da guitarra e da bateria, enfeitiçando ao som de cânticos cerimoniais de fogueira. E dá vontade de repetir estas espiras digitais até fartar. Em “Hear My Call” o seu vozeirão atinge já a verticalidade de um tecto de salão, com candelabros e candeeiros venezianos, ouçam as notas do piano mas o facto é que uma voz tão potentemente colocada já não se ouvia desde, desde...não nos lembramos, tem-se que ir às vanguardas ou a Diamanda Gàlas (sem a pretensão) ou Elisabeth Fraser (dos fonemas e das onomatopeias). E todos os músicos a acompanham com habilidade e imaginação (o baterista é soberbo, Douglas Shaw é seguro), em “Childhood Song” há um “blues feeling” requintado, tão tropegamente controlado, e Mira Billote tem cataratas de júbilo ao unir voz e piano “ragtime”, um canto límpido que alcança como um raio decidido de luz.
Em “What I See”, duas guitarras acústicas ampliadas (a produção esmerada da Drag City nota-se no som puríssimo) amparam agora um texto meditativo, o diabo da garota tem ainda mais cintilante desempenho, atirando fonemas às paredes do estúdio, trespassando-as, convidando paisagens marítimas, há cheiro a algas e o eco é suspeito, poderá haver grutas – quem a fez tão sereia? Depois no “maelstrom” oriental de “All The World Wept” tornam-se sábias as lições dos Incredible String Band e dos Magic Carpet; Samara Lubelski (tem por aí um disco crepuscular) traz o seu violino-caleidoscópio e Douglas Shaw experimenta no “erhu”, um outro violino chinês, entram também a usual sitar e um tambor-vaso. A atmosfera de exotismo funciona dado que a laringe de Mira consegue arrancar tonalidades do vale de Ganges misturadas com o sol setentrional, como o fizeram dezenas de grupos no psicadelismo inglês dos finais de 60, unindo o tweed e a sandália.
“Dat Rosa Mel Apibus” dá um cadinho de dissonância, aquele piano por ali espargindo beleza, um botão (de rosa) transporta-nos para uma “pavana” secular alterada e a voz traz o seu quê de escuridão, aclarando tudo com uma ou duas passagens magistrais, são rosas senhor! E escutem em “Sun Song” um delicioso “roxichord” (espécie de cravo eléctrico) que se enreda nos bombos possantes da bateria e na voz aos quatro ventos enfeitiçada; novamente os arabescos instrumentais provam a interacção perfeita do grupo. O piano matraqueado de “Hold Your Hand In The Dark” é um pretexto para a agitação cíclica da percussão, uma pandeireta casa com linhas de guitarra, convida-se um “Fender-Rhodes” para uma suspensão delicada, mais uma vez as lembranças dos enigmáticos Art Bears. Num exercício de folk tradicional, os White Magic recuperam com excelência “Katie Cruel” (suplantando a versão de Karen Dalton no segundo álbum, “In My Own Time“) com todo o esmero acústico “au point”, todos os ingredientes da folk meditativa para nos tornarmos uma raça melhor.
Que dizer de “Sea Chanty” pois que é simplesmente inebriante? Vagas salpicantes fustigam e o sal chega-nos aos lábios, olhamos no encalço das costas com os sentidos alerta; navios bafientos de piratas dão à costa ao sabor da rebentação, espectros de ondinas outrora capturadas espraiam cânticos narcóticos; o piano em fuga macambúzia deixa pegadas na areia, perdendo-se no fim, trapalhão, esgotado. “Palm and Wine” troca o Edgar Allen Poe de “Sea Chanty” pelo pitoresco de Lewis Carroll, a viagem decorre sob céu estrelado na companhia de afáveis criaturinhas ao sabor de um “soft-jazz” arrastado pelo “swing” refrescando o enevoado trágico-marítimo, e se para o fim os delírios vocais de Mira Billote vêm de bosques armadilhados, somos arrebatados com sabedoria por frase conclusiva: “we are saved”.
Nos seis minutos derradeiros, “Song of Solomon” subverte toda a concepção acústica e é o desatino até aí refreado por erudição interior, os White Magic puxam um bocado pela electricidade e Mira Billote pela garganta ao ponto de encavalitar gritos selvagens, preces animalescas e silabas orgíacas qual sibila moderna, com os músicos aos encontrões num ritual dionisíaco. Apesar da referência não envergonhar, “Dat Rosa Mel Apibus” dos White Magic relembra saudosamente os Cocteau Twins de boa memória; contudo um piano tão magnificamente versátil e uma sóbria contenção de grupo são qualidades inestimáveis nos dias de hoje, e em expectativa vamos acompanhar este projecto raro. A par do esforço astronómico e (agora deliciosamente) convincente de “Ys” de Joanna Newsom, dos translúcidos Espers e ainda Sufjan Stevens, a América bate aos pontos o Reino Unido no regresso da folk.

© 2007 AJQ