WEIDORJE
Weidorje (1978)
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Grupo satélite dos Magma, os Weidorje (ler V-dorje) gravaram um único e extraordinário álbum de rock progressivo (facção “zeuhl” – depressa veremos o que é) no final da década de 70, já a pátria francófona assistia em vão às desesperadas experiências de uma legião iluminada da fusão, antes do mundo se entregar ao hedonismo estéril da “New-Wave” (mas há os Young Marble Giants, felizmente). O álbum homónimo dos Weidorje apresentava três longos e empolgantes temas e na capa uma nave espacial cruzava os céus, silenciosamente alumiada por luz espectral; “weidorje” em linguagem “kobaiana” significa “roda celeste”, sendo o título de uma das canções de “Üdü Wüdü” (1976) dos Magma, grupo-mãe onde Bernard Paganotti leccionou, saindo para fundar esta nova “colónia”, com idêntica senda estética.
Ao longo dos seus 16 minutos de procissão épica, “Elohims Voyage” enceta viagem no impulso espaço-temporal de um “stargate” até ao planeta Terra, anunciando uma esfíngica raça alienígena que traz diferentes valores e ensinamentos à espécie humana. Onde já ouvimos isto, será uma gravação do nosso subconsciente colectivo ou é passado e também futuro? Terão as utopias (entretanto desacreditadas) sido lentamente substituídas pela ficção-científica, marcadamente mais humanista e com inquietação ecológica? Com uma expressividade fantasmagórica a guitarra e os teclados eléctricos parecem espreguiçar-se na imensidão cósmica, a jornada altiva desencadeia o canto meditativo-gutural de Bernard Paganotti e o seu baixo extravagante (por vezes uma outra voz) molda o ritmo frenético do grupo, deixa-nos presos à cadeira tal é o seu papel preponderante no disco. Quando os músicos dão as mãos o tema ergue-se à velocidade da luz, a cadência converte-se numa inquietante e avassaladora marcha, de ascendência “zeuhl” (a receita é, independentemente da percentagem: uma amálgama de jazz e rock, música erudita contemporânea e música étnica, intensidade e hipnotismo, fogo e ar, harmonias vocais complexas em “kobaïano”, idioma do planeta “kobaïa” – “zeuhl” designa algo de celestial). No núcleo do tema, os metais e um conjunto de altercações e gritos enchem de pânico o horizonte, o temor apodera-se dos povos terrestres, ecoam sinos metálicos e a apreensão transforma-se em fascínio; o grupo retorna à bonança, o baixo repetindo com solenidade as notas bruxuleantes do prelúdio.
Esta exaltação arrisca-se a converter o álbum num códice de relações extraterrestres, provando que misteriosas raças nos visitam periodicamente, apadrinhando desde eras imemoriais a nossa “evolução”. Estamos em pleno realismo fantástico defendido por Charles Fort e pela dupla Jacques Bergier & Louis Pauwels, mas também (e provavelmente) é um dos pilares da estética “zeuhliana”, testemunhando as preocupações espirituais e filosóficas de Christian Vander, o mentor dos Magma.
“Vilna” é uma magnífica tapeçaria de teclados luminosos (um “moog” que é um primor!) levando a composição para a região de Canterbury (aquele rock oblíquo e nada mercantil), a música abre-se graciosa e o aspecto esotérico de ritual grotesco desvanece-se temporariamente; dotados de uma destreza e técnica geniais, os músicos entregam-se atónitos à visão em voo de paisagens grandiosas, como os primeiros astronautas contemplando a Terra do espaço. Paganotti repete o nome “Vilna” como de um “mantra” se tratasse e Michel Ettori sobriamente marca com a guitarra algumas das estruturas mais interessantes; mas é o piano eléctrico, entre folclores imaginários do norte e centro da Europa, que comanda a atmosfera de celebração que se apodera do tema, um canto de expectativa e jovialidade. A intensificação progressiva e mecânica da melodia vai assanhar uma dança de roda em êxtase, condensando o epílogo para as gotas de chuva do piano eléctrico, num efeito básico, mas muito belo.
“Booldemug” é fogo crepitante, de novo o chamamento de ritual num dos mais delirantes exercícios de rock progressivo que nos foi dado escutar, às tantas a fúria impregnada pela turba é de uma agitação tal que a canção aparenta desintegrar-se em chamas não corpóreas; nenhum grupo do género (talvez nem mesmo os Magma) terá tocado tão perto da substância ígnea; a guitarra urrando dando lenha à fogueira, o baixo grunhindo em pulsações (diríamos) pagãs, a bateria de Kirt Rust enredando a massa num turbilhão concêntrico; e, entretanto, bem o dizíamos, a música é atraída sem clemência para um buraco negro e o que era bom cessa abruptamente, bradando à nossa gula melómana nova audição; aqui há toneladas de pautas exóticas, camadas de fósseis sonoros vêm à tona confundir a nossa História Musical.
Os dois temas bónus acrescidos à edição da Musea juntam originais apenas gravados ao vivo, infelizmente o pobre som das fitas adulterou a exímia prestação do grupo. “Weidorje” foi uma vítima dos tempos em que o rock progressivo era fogo-fátuo (continuando subliminarmente na legião do Rock-in-Opposition e na editora RéR) e por claro desinteresse comercial das editoras com a desmotivação dos músicos (tinham tudo para serem grandes) apagou-se com tão crescente chama. É também um aditamento essencial à colossal discografia dos Magma.

© 2007 AJQ