VAN DER GRAAF GENERATOR
Pawn Hearts (1971)
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Obra absoluta da história da música, não pode ser incluída só no lote dourado do rock progressivo e de fusão... Se nunca a ouviram, tenham paciência; se não a suportam como podem enfrentar as contrariedades da vossa própria vida? Apesar da estética “science-fiction” da capa e contracapa, este disco assombroso é na verdade um exercício de reflexão sobre os grandes capítulos da existência humana, uma ascese depois de dolorosa queda...
Não esqueçam a majestosa parte final do disco onde Peter Hammill canta “I think the end is the start (...) All things are a part (três vezes)”, terão melhor prova do ciclo desta portentosa/assustadora pauta alquímica?
Apenas três canções, como em “Close to the Edge” dos “life-is-pink” Yes (embora o tenha precedido) – e como sou espertalhão ao fazer este ponto de contacto já que nunca dois grupos puderam ser tão antagónicos dentro de uma mesma escola (rock de fusão) e quase ao mesmo tempo criarem duas obras tão complementares! Se “Close to the Edge” é a visão apaixonada da beleza, já “Pawn Hearts” arranca com garras a beleza da dor, e já quando o disco está no fim (quando queremos mais!)... Toda esta matéria é perpassada por um existencialismo cósmico (ou seja, não-egoísta) de perda, pelo êxtase orgulhoso da solidão, agregando os monstros-dos-medos e o anjo-da-guarda que fomos convocando durante as fases da nossa vida... Parece irritante de tão pretensioso isto, mas esta é uma obra filosófica e não um filme de terror série-B, mesmo quando Peter vê “the skeletons of sailing-ship spars sinking low”! Os primeiros compassos de “Lemmings (including Cog)”, não adivinham porém o que está para vir... Imaginem que de um momento para o outro damos por nós num periclitante descampado vulcânico ou num mar de jangadas, onde uma vasta multidão nos observa com olhos de pânico e nós compreendemos que é o mesmo pânico, o nosso... Mar revolto e amarrados às jangadas não podemos escapar, condenados a flutuar eternamente até ao conforto de uma ilha próxima.
Se em “Man-Erg”, Peter testemunha na primeira pessoa o que cada um de nós já foi, pelo menos uma vez na vida, poderemos emocionar-nos com semelhante terapia-de-grupo, ou é demasiado profundo o que aqui estou a estabelecer?
E depois de toda a parafernália temático-musical de “A Plague of Lighthouse Keepers”, absorver aquele piano que nos salva aos 19min e 14seg, libertarmos a nossa pele maculada de lágrimas e raiva... Estamos prontos para a cadeira da nave que nos vai levar para as estrelas? Não é vulgar apropriação dos temas queridos da mais bela ficção-científica, é do renascimento da raça humana que se fala e... o outro Peter (o Gabriel) no ano seguinte vai completar isso em “Watcher of the Skies”.
O saxofone de “Lemmings” chora quando se canta “What course is there left but to die?” ou este statement de tão insuportável para uma canção rock é que nos dá a incompreendida e certa compaixão? Todo o tema (poderia ser um cânone do rock progressivo!) é uma conjunção magnífica de um quarteto genial (e mais o Fripp, outro genial), aproveitando mil anos da história musical, Bach e Messiaen lado a lado com o próprio efeito Hugh Banton: órgãos ligados a centenas de fios, distorcendo e respirando ofegantes; uma humilde guitarra acústica por cima de vozes fantasmagóricas, ai este saxofone que nos sobressalta, a bateria-coração, taquicárdica... Que Lemmings somos nós? Os avoengos, testemunhas das rochas magmáticas e de uma terra no centro do tumultuoso oceano?
E quando aos 6min e 30seg, os músicos se concentram numa furiosa fusão/proporção unicelular de ruído estático, é tudo muito belo, deixa de ser música, é o ACTO CRIADOR EM ESPÍRITO... E logo depois, o acto corajoso, a esperança: “What choice is there left but to live”
A coda final é puro Messiaen enlevado, apropriado para o efeito cósmico de libertação, sem a beatice!
Segue-se “Man-Erg”: só com o estuporzinho deste tema, poderíamos escrever uma pesada dissertação, uma obra baseada no contraste inferno/paraíso, mal/bem, ódio/amor, fealdade/beleza e todas as dicotomias descritas pela associação de filósofos do mundo inteiro e reparem que só falamos das que servem como lugar-comum... Se nunca sentimos no âmago do nosso ser o assassino ou o anjo, então nunca despertámos para a nossa existência, perdidos no meio da diversão, da bebida, do sexo, da arrogância - o “Man-Erg” é esse ser, o homem libertado que se “ergue”, passe a estúpida - digo eu - redundância da similaridade da palavra em línguas diferentes.
Quando Peter atinge os paroxismos na voz, passa a não ser mais do que a testemunha dos seus próprios actos, numa catarse avassaladora de intenção e momentum. Quando David Jackson faz do saxofone uma segunda voz, expressa sobretudo a emoção pura (ele é choro melódico, riso sarcástico, explosão de raiva e furor, histerismo puro da alegria incontrolada...), génio puro da música! Quando Hugh Banton no meio do caos nos oferece a beleza imaculada de um solo de órgão Bachiano (conferir do 4min e 10seg ao 5min e 32seg) é pura maestria musical em estado alterado de consciência, provavelmente e como todos o confirmaram, sem químicos... E lá está o incredible Guy Evans, a outra parte deste corpo endeusado a aproveitar os mil ritmos e compassos (confiram a ajuda que ele dá na loucura de Banton: uns quatro órgãos e um piano esparso dos 12min aos 13min e 10seg), com ele as caixas-de-ritmo poderiam desaparecer que não sentiríamos saudades!
O terror total de “The Clot Thickens” vai precipitar a mais neurótica voz de Peter e o mellotron é um feixe de energia às turras dentro de uma sala pequenina. Quando se acerca de nós “Land’s End (Sineline)/ We Go Now” é a partida materializada (La Nave Va), e os Van Der Graaf Generator parecem não sentir saudade do que deixam para trás.

© 2006 AJQ