TUXEDOMOON
Holy Wars (1985)
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“Holy Wars” é um trabalho sofisticado, trágico e sensual, competindo com a pose de estátua grega de David Sylvian e os seus Japan. Porém, entre o cuidado artificialismo destes e a escrita apaixonada dos Tuxedomoon, há uma distância considerável, ainda não tendo nesta altura (1985) chegado Sylvian à transparência de “Secrets of Beehive” (1988), o seu magnum-opus. Se alguma pose há nos Tuxedomoon, ela é orgulhosamente sincera, partindo de um ecléctico distanciamento dos elementos do grupo face à falsidade daqueles que cantam o amor, sem o terem vivido intensamente.
Partindo da concepção da capa, uma fotografia de Bernard Faucon (um enfant-terrible da cultura francesa), o ambiente desenha-se nos jogos de luz e sombra, há amores proibidos, solidão, luxúria e misticismo. É um dos grandes álbuns fugitivos dos anos 80 (a pior década da música?), tendo-se esgueirado até hoje por entre as ruínas, apresentando-se limpo e asseado, com o fato de fino corte ainda impecável, para a ceia final da grande música popular.
Há nos textos e nas vozes um sentimento condoído, por vezes confundindo dor e prazer, qual deles nascendo primeiro? A guerra santa é para os Tuxedomoon a do corpo tentando desligar-se do pecado. Não o pecado entendido como perdição moral, mas como um jogo de sedução e busca desenfreada que deixa o corpo exausto nos seus sentidos.
É absorvente a forma como todos os músicos do grupo libertam as melodias, lúgubres, nocturnas, densas, e precipitam os nossos sentidos, que não só o auditivo... Esta obra é um prato de especiarias para um jantar numa piazza italiana, é visualmente encantatório (ou seja, poderá ser, depende do que se sonhar...), tem o sabor de uma qualquer bebida ancestral (um dos temas, “Soma”, dará a razão?) que anestesia a morte...
Na introdução, ainda as vozes teatrais de Steven Brown e Winston Tong (superlativos vocalistas) ensaiam. Há “The Waltz”, esplêndido tema convocando algo que nos ameaça, há olhares que escapam furtivos e provavelmente um par dispondo os corpos numa dança provocadora, proibida. O trompete é vento de leste e do piano eléctrico de Steven Brown podiam vir gotinhas de suor. Quando se passa para “St-John”, os Tuxedomoon estão a adaptar para a idade moderna um belíssimo texto de São João Da Cruz, místico espanhol do século 16. O refrão é um labiríntico jogo iniciático de palavras: “I live yet do not live at all, I die yet do not die at all”, na mesma mão a morte e o desejo, como irmãos de corpo e alma... Como se esta vida fosse a morte que não queremos.
Vive-se entre esta exacerbação de sentimentos, a angústia como soberba, ao que a paixão se torna um encantador jogo de espelhos, encenado em espaços fechados, tórridos, vespertinamente abertos ao vento, os cortinados esvoaçando...
“In a Manner of Speaking” (aproveitado recentemente para uma versão bossa-nova), “Some Guys” e “Watching the Blood Flow” são três dos mais altos momentos que o álbum impõe, as palavras proferidas em delírio acentuando a carga instrumental, de passos ébrios, gentilmente trôpega e dissonante.
Se era esta a música de vanguarda em 1985, era então necessária para a futilidade que se vinha aproveitando da arte, entretanto vendida à indústria capitalista. A música dos Tuxedomoon é assim assumidamente dissidente, conjugando diferentes culturas e línguas, um punhado de referências literárias, sentimentos antagónicos, provocação e prazer...
E depois o despojamento em “Soma”. Por uma acção qualquer, o corpo viu-se desmaterializado; as roupas são a prova, espalhadas que estão pela erva estigmatizada (luta ou delírio?). A bola de fogo, o espírito consumido pelo amor; uma voz discorre desapontada, lendo um texto hipnótico, um órgão sombrio que acompanha a litania.
Um tratado sobre o amor, este magnífico trabalho dos Tuxedomoon.

© 2006 AJQ