THAEMLITZ, TERRE
Trans-Sister Radio (2005)
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UMA QUESTÃO DE IDENTIDADE(S)

Claude Dubar (1991) chamou à atenção no seu livro “La socialisation. Construction des identités sociales et professionnelles” (1991), que a identidade é social e culturalmente construída através de socializações sucessivas. Assim sendo, ela não é um ready-made que se recebe à nascença, mas sim o resultado de processos de interacção em que o eu e os outros que o rodeiam intervêm dialecticamente. Se tal ideia é perfeitamente aceite no âmbito das ciências sociais quando nos referimos às identidades sociais e colectivas globais, o mesmo se não pode dizer quando lidamos com a questão da adequação científica do conceito de “identidade sexual”, entendida no sentido de uma predisposição em termos de preferência exclusiva por determinado objecto sexual que se constituiria como elemento fundamental da construção da identidade para o próprio sujeito.
Encontram-se frequentemente neste contexto, fenómenos de constituição de movimentos colectivos e sociais que intervêm, também, como elementos em torno dos quais se definem e articulam identidades colectivas, com a sua consequente interferência aos níveis social e individual, sendo indispensável compreender estes movimentos sociais e o modo como eles actuam no sentido de reforçar e as categorizações da sexualidade que conhecemos, para melhor as percebermos.
O transformismo é uma outra forma de “identidade sexual”, que embora sendo mais profunda costuma estar associada à anterior, assistindo-se também aqui à formação de movimentos colectivos e sociais que intervêm como elementos em torno dos quais se definem e articulam identidades colectivas. As áreas onde o fazem são multidisciplinares, passando também pela música.
Partindo do livro de Chris Bohjalian, “Trans-Sister Radio" (2000), no qual um professor de uma pequena cidade do Vermont começa a usar roupas de senhora, de forma a fazer corresponder o seu aspecto exterior com o género que sente como sendo verdadeiramente seu, Terre Thaemlitz cria nesta sua obra, encomendada pela Hessischer Rundfunk, um documentário áudio, tendo o travestismo como tema.
Thaemlitz abandona os limites físicos do Vermont e adopta como universo, as viagens internacionais e os problemas de identificação civil dos travestis ou transsexuais. Diz-nos Thaemlitz: “Quando se viaja, vestir-se para a ocasião significa minimizar o género sexual entretanto adoptado de modo a que a indumentária reflicta o género sexual indicado no bilhete de identidade. Muitos trans-sexuais cujos países proíbem a mudança de sexo recorrem a roupas unisexo ou outras formas de vestir "neutras" que disfarcem a sua trans-sexualidade na esperança de se fazerem passar pelo homem ou a mulher que um dia foram. Ou, em alguns casos, eles recorrem a usar passaportes falsos mostrando géneros sexuais que combinam com a sua aparência. Tudo isto dá um significado completamente novo ao termo ‘controle de passagem’.”
Thaemlitz estrutura todo o registo em forma de programa de rádio (formato para o qual foi inicialmente concebido) e vai fazendo correr várias composições electro-acústicas que recorrem a gravações feitas pelo próprio, onde somos apresentados a Saki, o alter-ego transformista de Thaemlitz, e onde podemos também ouvir entrevistas feitas em aeroportos, nas quais se explora a problemática decorrente da justaposição dos conceitos ‘identidade’ e ‘identificação’.
Não tendo quaisquer pretensões lúdicas, “Trans-Sister Radio" faz uso do pouco – quase escasso – material musical para criar um cenário onde é possível fazer desfilar o conceito da construção de uma identidade individual e colectiva.
A música cumpre assim, mais uma vez, um dos seus mais importantes e provectos desígnios: criar uma via para o entendimento dos povos.

© 2006 SP