

TENOR, JIMI
Higher Planes (2003)
______________________________________________________________
Jimi Tenor não gera consenso no meio musical e a sua figura excêntrica de dandy não deixa adivinhar a imaginação que possui - dos manipuladores de uma certa electrónica sofisticada, foi um dos que se atreveu a evoluir para uma música de fusão, com um pé na década de 70 e o outro num futuro ainda não totalmente identificado. O universo deste finlandês – vive na cosmopolita Barcelona - convive não só com a electrónica, mas também (e essencialmente) com o jazz (por vezes na sua nada acessível vertente free), o rock psicadélico, a pop, a soul, o funk, a tradição do afro-beat e a escola erudita a partir de Stravinsky. Sabe-se, no entanto, que toda esta amálgama de etiquetas nunca o entusiasmou. O músico chegou mesmo a afirmar que “os nazis inventaram as raças e as lojas de discos os géneros...”
Apesar de tudo, toda esta comunhão de esforços é uma benção para o bem-estar dos nossos sentidos e a desmedida alegria de viver que exala da sua música é coisa que há muito que não se via por aí na galáxia da vanguarda pop. Desde “Out of Nowhere” (2000) que o finlandês Lassi Letho (aka Jimi Tenor) tem editado um conjunto de discos solarengos e elitistas que teimam em fugir ao facilitismo comercial, entre excursões de jazz orquestral, viagens cósmicas de banda desenhada aventureira e as delícias groove aprendidas na cartilha de Brian Auger e Julie Driscoll.
Em 2003 presenteou-nos com o notável “Higher Planes”, uma exótica e devota aliança de Sun Ra, Lalo Schifrin e Funkadelic, mas também de Emerson Lake & Palmer e Hawkwind. A estranha foto da capa consegue uma curiosa afinidade com o título: algures, numa floresta da Finlândia, dezenas de esculturas em cimento encenam poses de yoga, iluminadas pelo sol que nasce repleto de boas vibrações.
O início é desde logo auspicioso: envolto num estupendo groove, o álbum abala-nos de uma forma totalmente insuspeita, abalando todos os nossos sentidos. Poderíamos jurar a pés juntos que estamos perante um “elepê” de 1970, com paredes de teclados analógicos e ritmos roubados às naves espaciais. “Cosmic Dive” é a fusão trazida, com bastante expectativa, para o século XXI. Flashes de bits electrónicos, ondas de moog e fender-rhodes descolam num tapete voador arrebatando uma imponente secção de metais, enquanto Tenor articula frases de astronautas perdidos num trambolhão espacial. Segue-se o tema-título, “Higher Planes” a suavizar a avalanche com sintetizadores algo planantes – e nunca as caixas de ritmo soaram tão deliciosamente afrodisíacas, ornamentando uma canção onde se nota alguma sensibilidade pop. É a tradução sonora do ambiente da capa, num equilíbrio de prazer e elevação espiritual.
Já em “Trumpcard”, gravado ao vivo num clube de Helsínquia com a UMO Jazz Orchestra, Tenor mostra com convicção a necessidade de trazer alguma espontaneidade para o seio da sua criação musical (com palmas e arrebatadas interjeições do público), estampando na cara dos detractores todo o seu virtuosismo e negando, de vez, o epíteto excêntrico do tecno. Sem qualquer desprimor pelo género, tal rotulagem é, de facto, algo absurda: colocamos a mão no fogo enquanto, de peito feito, louvamos a intrínseca qualidade groovy-pop de “Good Day”, abençoada na altura pelo nascimento da sua primeira filha. Não fossem as saltitantes (longe de serem decorativas) caixas de ritmos, poderia ser a lost-gem de “A Better Land “ da Brian Auger Oblivion Express ou da estreia dos Emerson Lake & Palmer – ambos do início de 70 – mas agora com toneladas de optimismo (“cause I know the mistery of life can never be solved, where we came from and where we go, I couldn’t care less any more”). O refrão serve-se de reminiscências dos Hollies e dos Turtles para depois lhes misturar, com perícia, alguma electrónica contemporânea.
Do sunshine-pop para uma sessão de “Parliafunkadelicment” em “Black Hole”, com um George Clinton de madeixas loiras e branco como a neve da Lapónia, mas com a mesma loucura e o saudável bom humor. Funk sofisticado que apesar de mais “limpo” quando comparado aos grandes de Detroit, não deixa de ser do camandro!
“Dirty Jimi” homenageia Lalo Schifrin (o título é um gozo à série policial “Dirty Harry”), com o seu acid-psychedelic-jazz, guitarras wah-wah e o fumo lounge de um qualquer clube nocturno, só que desta vez somos atirados para a trama de um conto de ficção científica, onde pululam andróides e mutantes entre o alucinogénio de Philip K. Dick e a cidade dos Funkadelic. Mas é em “Tapiola” que Tenor parte a loiça toda com um espaventoso exercício de psychedelic-heavy-rock, insuflado por Hendrix, Black Sabbath e Hawkwind. Tapiola era o reino dos deuses na Finlândia, repleta de densas florestas e onde se sacrificavam virgens nuas em altares (Tenor deve ter pensado logo em Cicciolina). Sob o marchar de guitarras saturadas de agressividade, está a voz distorcida de Tenor que empurra as vítimas montanha abaixo (“roll in the grass, roll in the grass, roll in the grass”), atiçando com devota sexualidade a escala da electricidade, esmagando as teclas de um órgão-fuzz (compincha da barulheira feroz) e soprando a mais tresloucada flauta emprestada de Roland Kirk e dos desvarios dos Jethro Tull.
O caloroso “Spending Time” é o género de pop erótica com que nos brindou no álbum “Out of Nowhere”, inundado de libidinosos suspiros e sugestivos murmúrios, um qualquer lençol de seda, mais ou menos dentro dos domínios de uma cama com vista para um outro qualquer mar paradisíaco. Há um toque de raposa de Prince, Barry White (com quem frequentemente Tenor é comparado na sua coolness) e outra vez George Clinton. Aqui e ali, uma flauta doce intromete-se no colo dos ritmos electrónicos. Diz Tenor: “usei-a porque hoje em dia é um instrumento considerado pouco cool”.
Bate-se o pé. “Let the Music” muda o ritmo e convida à dança: bongós, flautas, o sol e a lua, um ou outro paraíso artificial - ouça-se um moog a dar um sinal sublime de êxtase. Já “Expatriot” é, num genial contraste, o exercício de jazz cósmico devoto a Sun Ra e aos discos que este gravou em estúdio com o espírito num plano astral – puro ambiente celestial.
Mais jazz orquestral em “Nuclear Fusion” (também gravado ao vivo), soando admiravelmente a uma transposição para um combo de jazz, da música feérica e naturalista do compatriota Sibelius – aquele tipo de jazz que só os nórdicos conseguem confeccionar –, unindo a versatilidade rítmica de África com a minuciosidade quente do sol da meia-noite. Órgãos que vibram como cristais de gelo, trompetes com a velocidade felina da savana – pois bem, permitam-nos, só os génios conseguem este equilíbrio de balança, afastando o kitsch e o politicamente correcto de alguma fusão. De repente, vêm à nossa memória os Mombasa, Oneness of Juju e Eero Koivistoinen’s Music Society (descubram o incrível “Wahoo!”, de 1972).
E para encerrar com magia esta obra-prima (pena que Tenor seja tão menosprezado), “Stargazer” é aquela terna e estupenda peça de classe (perfeito swing, flauta exemplar!) a que nos habituaram alguns mestres como Marcos Valle, Brian Auger, Ed Motta ou Burt Bacharach. Levemos um óptimo livro para o balcão da varanda, enquanto o sol vermelho inunda o redor de bem-estar; uma cadência dolente afasta-nos da vida brutal e cega a que somos obrigados e o firmamento traz uma espécie de cura.
© 2007 AJQ