

SAINTE-MARIE, BUFFY
Illuminations (1969)
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No fecundo oásis da música popular da segunda metade dos anos 60 (uma idade de ouro), o nome de Buffy Sainte-Marie ainda não está suficientemente valorizado; para além de uma escritora de canções acima da média, foi no panorama da folk a precursora no uso de arranjos electrónicos, ao lado das experiências de Nico (ajudada por John Cale), dos White Noise de “An Electric Storm” ou do álbum homónimo dos “United States of America”, tudo colheita do ano de 1969.
Este extraordinário álbum, intitulado “Illuminations”, é o ponto de viragem da cantora de ascendência índia (pele-vermelha para os criminosos), iniciada nos caminhos da folk trilhada por Joan Baez e Judy Collins, e paradoxalmente com mais toneladas de voz do que as suas companheiras. Após alguns trabalhos de uma intrigante folk acústica, “Illuminations” trouxe o fogo à pradaria americana, as três primeiras canções expressam as premissas do álbum: suficiente ousadia formal, a intimidade acústica e a indispensável agitação social, para quem como ela sentia a indiscriminação da América.
“God Is Alive, Magic Is Afoot” introduz as estrelas cadentes electrónicas que vão interpelar as guitarras acústicas durante grande parte do álbum, o texto é exuberante, filosófico, certeiro, vestindo na perfeição a voz tremenda de expressão: “(…) magic is no instrument, magic is the end; many men drove magic, but magic stayed behind…”; para além de frases sábias deste tipo, há um caleidoscópio de palavras interpeladas, repetidas, sublinhadas, a criar uma aparência de Mantra-para-pensar.
“Mary” é a balada integralmente acústica, impressionante pelos efeitos que produz, sobretudo na voz que ecoa dolorosamente na planície, ajudada pelo órgão invernal e umas pitadas líricas de “glockenspiel”. E vem a sacudidela social de “Better To Find Out For Yourself”, de feições agrestes, com os instrumentos electrificados semeando chispas de revolta dando mão à voz, agora decididamente amotinada, urrando a indiscriminação na senda dos palcos dos Jefferson Airplane. E de vez em quando, um ou outro austero efeito electrónico (estalidos, arranhões, geradores esquecidos, um moog?) projectando microscópicos chamamentos no nosso subconsciente.
O ambiente crepuscular e falsamente agradável de “Vampire” traduz um exacto encontro com um desses “homens-sem-sombra”, uma candura erótica percorre aterrorizando ao mesmo tempo as escalas do vozeirão de Buffy.
“Adam”, com a “fuzz-guitar” escrevendo relâmpagos sincopados e uma mini-orquestra nas traseiras pode ser outra metáfora social, tal como o vampiro anterior; a forma como Buffy Sainte-Marie descreve as personagens é inesquecível: há uma rara carga psicológica, só comparável à de Nico nesse pedaço de gelo que é “Marble Index” e depois em “Desert Shore”, 28 minutos dos mais encantadores da música popular.
Em “The Dream Tree” e “Suffer The Little Children”, Buffy solitária com a guitarra acústica, encanta e agride; no primeiro é a rainha da folk de primeira apanha, o fruto doce e apetitoso; no segundo, azedando a paleta de cores, na descrição socialmente empenhada sentenciando os vermes da injustiça, Buffy consegue ser uma magnífica Mater Dolorosa.
Depois abrindo a sua mais pura voz soprano na balada lacrimosa “The Angel”, com a orquestra e o xilofone levitando numa espécie pouco ortodoxa de hino gnóstico, que Judee Sill viria a revisitar nos seus dois fabulosos álbuns da década seguinte.
“With You, Honey” volta a um registo oposto, escorregadio, uma canção a arrebentar as cordas da voz em ácido ressentimento, Buffy chicoteia a canção como se fosse um alvo a abater. E ainda antes de Joni Mitchell iniciar os seus sete anos de ininterrupta e sofisticada qualidade, Buffy Sainte-Marie já lá estava com “Guess Who I Saw In Paris”, um soft-jazz límpido, deambulante e ebriamente apaixonado. Reconhecer nesta abandonada obra-prima uma escola de influências para as suas contemporâneas e futuras ”songwriters” femininas é talvez pouco, a questão é que por infelicidade ou injustiça, Buffy Sainte-Marie não se aproximou do sucesso comercial das suas companheiras, nem sequer das mais vanguardistas.
“He’s A Keeper Of The Fire” é outro acrescento “acid-rock”, uma resposta ao psicadelismo “West-Coast”, decalque que lhe assentava como uma luva, tal era intrépida a sua voz. Todo o disco é destemido ou então um inocente artifício de sons, em “Poppies” por exemplo, Buffy Sainte-Marie faz uso de passagens sintetizadas da sua voz e guitarra em combinações de ecos, como se a sessão estivesse a ser gravada em pleno Grand Canyon; com métodos que hoje parecerão elementares conjugou-se num rudimentar “do it yourself” uma atmosfera feérica e transcendente, esplêndida em si mesmo. Um disco importante de uma década inesgotável.
© 2006 AJQ