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Slapp Happy
Esta edição acompanhou-me durante
largos anos, sendo a única a juntar estes dois trabalhos dos fascinantes Slapp Happy, subversivo bando de “gangsters
musicais”, como eles próprios se caracterizavam. Confesso que o último tema,
“Caucasian Lullaby”,
nunca me despertou até agora muita atenção, talvez por sentir uma espécie de
terror visionário em relação à (futura) Guerra dos Balcãs, a última e
vergonhosa guerra no coração da Europa. Há uma prostração no modo como os
clarinetes e o piano deambulam pelo meio das ruínas...Passo sempre esse tema,
ou seja como é o último, termino o disco... Mas
“Casablanca Moon” (1973) está próximo de um prodígio, espantoso álbum pop que
nunca o foi, talvez por culpa de um certo low-profile
dos elementos do grupo, ou então por culpa da raça humana (isto é um
exagero!)... Objecto
deveras acessível nos meados da era do rock progressivo e das lantejoulas do glam, digamos que este trabalho brilha muito mais que a “lady” provocativa do primeiro álbum dos Roxy Music...O
ouro da voz de Dagmar Krause
e os arranjos sublime-trapalhões de Moore e Blegvad são mais
resistentes ao passar dos anos do que toda a parafernália
existencial do Bowie mais imaginativo. Se há
uma diferença assinalável entre “Casablanca Moon” e o seu irmão simétrico “Acnalbasac Noom” (1972), é a
atitude face aos arranjos, transformando as canções em moldes clássicos,
porém maneiristas e provocadoras, escondendo-se da estação FM mais próxima!! Melhor é guardarmos estes tesouros com carinho
antes que os gastem de tanto ouvir, se calhar é esse o apanágio da grande
música, está escondidinha dos magnatas da indústria musical... Por
exemplo, coloquem atentamente o ouvido no violoncelo de “Me and Parvati” e sintam o frémito espinhal-medula
(existirá?) a percorrer-vos o organismo. A trepidante frescura sonora de “Half Way There” é assinalável, nada há aqui que esteja
datado...A música de carrossel de “Michaelangelo”,
assuntos sérios como os frescos da Capela Sistina e coisas que tal, aqui os Slapp Happy homenageando o grande artista italiano,
salientando no arranjo musical a sua faceta subversiva através de sons (que
eu desconfio!) escatológicos. Da mesma forma o tema “Mr.Rainbow”
traduz o fascínio pelo poeta francês Rimbaud (o jogo de palavras
Rimbaud/Rainbow!) e a sua corrosiva sobranceria antiburguesa
num amontoado de imagens malcomportadas, em que Peter Blegvad
justifica a sua tremenda voz expressiva! O seu parentesco gutural com o
mestre Zappa também é visível em “Haiku”,
lindíssima canção sobre...poesia japonesa??? Este tipos são tão
culturais...pois não faltam referências literárias (e não só!) ao longo do
disco, como se dissessem “Deixem-nos estar sossegados na nossa “chair-long” a ler Yourcenar e
mais logo tenho de acabar este da Duras, se faz favor...”. Steve Morse foi o responsável por alguns arranjos como o de “A
Little Something” e “Slow Moon’s
Rose”, dois momentos de puro êxtase musical. No primeiro dos temas, um
quarteto de cordas intromete-se já a canção estava no fim, prolongando a sua
duração galopando com os músicos...Em “Slow Moon’s
Rose” há um solo de saxofone que deve ser um dos mais perfeitos da história
da música (pelo menos no rock, pois o jazz mais sublime está cheio deles!),
terno e cambaleante, mágico, límpido, enfim, de levar às lágrimas, têm de ouvir!! A maior
qualidade de “Casablanca Moon” é a sua diversidade, cada canção tem o seu
temperamento...Óptimo bálsamo para o traumatismo dos dias tecnocratas de
hoje, também se pode servir fresco de manhã, de tão positivo que é... “Desperate Straights” (1974)
seduz pelo lado do crepúsculo, é a face complementar do trabalho anterior,
quer ser diferente e demarca-se efectivamente do panorama musical que se vive
na Europa. “Apes In Capes” traduz num germe de dois
minutos, um arranjo espantoso, talvez um dos mais criativos pela mão de um
grupo britânico...Ouçam o trabalho magnânimo de um trio: piano melodicamente
perfeito, um baixo terno que não dá nas vistas e uma bateria tão criativa que
dá impressão de ser ela o piano e o baixo ao mesmo tempo; do 1min e 33seg ao
1min e 46seg a bateria e o piano são irmãos, dois dançarinos dervixes criando
uma melodia rítmica avassaladora e bela... “Desperate Straights” é assim
uma colecção de vinhetas, uma espécie de “Pictures
Of An Exhibition” avant-garde, imagino algo entre Magritte (as questões sobre chapéus!!)
e Kurt Weill, um salto à
“Wonderland” de Alice com um livro sobre Alquimia
debaixo do braço, assobiando um extracto do Messias de Haendel
em contexto rock Velvetiano... “The Owl” e “A Worm Is At Work” são os tais exemplos de como os Slapp
Happy não ganharam musgo com o passar das décadas revolucionárias (?) da
música, no último dos dois o ritmo excitante da percussão foi adquirida no
mercado dos “krautrockers” contemporâneos de Dagmar. O tema que dá nome ao álbum é o tal jazz-instrumental-mais-sublime-que-existe do qual já
fizemos menção atrás, não descurando o balanço do swing-mais-sublime-que-existe
(que querem, não consigo encontrar outra palavra que não sublime...o.k., já chega!). “Europa”
e “Riding Tigers” são os
comentários sócio-geo-políticos que uma banda deste
calibre poderia tecer naqueles anos conturbados, decerto que o nosso camarada
Nuno Rogeiro já teve oportunidade de os analisar...A voz de Dagmar Krause aqui e ali quasi-grotesca e “childish”,
completamente segura das suas extraordinárias possibilidades expressivas (“Giants” e “Some Questions About Hats” são neste aspecto
memoráveis), o que é uma pena para o mercado mainstream, desculpem lá! “Strayed” é o momento em que Peter Blegvad
tem a voz principal e desde o primeiro segundo musical, em que o tamborilar
de dedos num tambor desperta o grupo, perguntamos com acentuada fúria:
“Porque é que o tal de Lou Reed
é mais importante que este homem???”. Enfim, coisas que a indústria musical
tece... Resumindo,
já que juntaram os dois trabalhos dos Slapp Happy,
esta edição torna-se imprescindível para levar para a ilha deserta, mas
também não vos proíbo de comprarem as edições em separado, já que saíram
recentemente com som remasterizado. Ah, e não esqueçam também “Acnalbasac Noom”, muito mais
experimental, gravado com os elementos dos Faust. |
Referências: CD – Virgin, 839174 (1999) Faixas: Casablanca Moon (1974): 1. (Blegvad, Moore) 2. Me and Paravati
[ (Blegvad, Moore) (Blegvad) 4. Michaelangelo [ (Blegvad, Moore) 5. Dawn [ (Blegvad, Moore) 6. Mr. Rainbow [ (Blegvad) 7. The Secret [ (Blegvad, Moore 8. A Little Something [ (Blegvad) 9. The Drum [ (Blegvad, Moore) 10. Haiku [ (Blegvad, Moore) 11. Slow Moon's Rose [ ( Desperate
Straights (1975): 12. Some Questions About Hats [ (Blegvad, Moore) 13. The Owl [ ( 14. A Worm Is at Work [ (Blegvad, Moore) 15. Bad Alchemy [ (Blegvad, Greaves) 16. Europa [ (Blegvad, Moore) 17. Desperate Straights [ ( 18. Riding Tigers [ (Blegvad) 19. Apes in ( 20. Strayed [ (Blegvad) 21. Giants [ (Blegvad, Moore) 22. Extract from the Messiah [ (Blegvad, Handel) 23. In the Sickbay [ (Blegvad, Dagmar) 24. Caucasian Lullaby [8:20] (Cutler, Moore) Outros créditos: © 1999 Virgin Records |