RASAL.ASAD
Asuna (2003)
______________________________________________________________

A electrónica contemporânea, a partir do momento em que se tornou quase mais exercício paradigmático de um mundo novo sonoro, tende a fazer decair no olvido a sua submissão às velhas leis geométricas dentro das quais os possíveis e impossíveis sonoros se têm vindo a reconfigurar por séculos de imaginação das esferas. Ou seja, as possibilidades que essa electrónica define, constituem primeiramente um modo de produção novo, a estimular a auto-suficiência da produção musical na sua amplitude de acessibilidades sónica no alcance dos famigerados cliques do rato. Contudo, esse modo de produção instaurar por si só um novo mundo de expressividade… não nos exaltemos demais na profecia.
Esta gravação de Rasal Asad (uma das encarnações de Fernando Cerqueira, criador português no universo da electrónica) é um bom exemplo das encruzilhadas onde em torno da ideia de electrónica se instalou alguma afoita e entusiasmada produção musical pelas possibilidades tecnológicas que vê ao seu dispôr. Aparentemente, este “Asuna” instala-se numa vaga declaração de fazer subcultura de certo modo de engendrar música electrónica. Abundam as referências mais ou menos esotéricas, acoplam-se às despojadas texturas sonoras declarações de intenções mais ou menos vagas e bem intencionadas, presumivelmente a dar-lhes o conteúdo que a audição não dá por si, e no próprio desenho das peças se usa a velhinha (salvé, ironia) inserção de fragmentos discursivos a construir ou mais fragmentar o sentido. E desenha-se um espaço de intencionalidades abstractizantes onde a música aparenta pretender libertar-se da tirania dos referentes tradicionais da apreensão. Ou seja, o admirável mundo novo situar-se-ia entre um novo mundo de possibilidades, e o paradoxal uso esparso dessa panóplia sonora do possível. Tudo isto a potenciar as já insuportáveis metáforas do cosmos e das paisagens geladas para pretender efeitos descritivos emaranhados quase exclusivamente no voluntarismo pseudo-poético dos auditores, que não no exercício concreto de fazer música.
Exercício essencialmente de electrónica ambiental, a fazer lembrar a espaços coisas como as digressões paisagísticas de Biosphere, este esforço de um novo sonoro não escapa contudo aos ditames da apreensão auditiva que fazem o ómega inevitável de sentido do que queiramos chamar música, a menos que queiramos despojar qualquer estímulo sonoro da “tirania” da recepção e da crítica (o que seria uma interessante machadada na teleologia electrónica vinda do seu próprio seio). E a despeito das intenções, limitações impõem-se neste construto. A estratégia central desta digressão relativamente uniforme é de manifesto despojamento das formas. Se encontramos, aqui e além, exíguos mantras a ancorar a rítmica (que a há, disfarçada mas cerrada: “ladies and gentlemen, we are not floating in space”) de assomos vagos e depauperados de emanações, o que os recobre, raramente arriscando um trejeito melódico, também raramente acrescenta espacialidade e aspiração à respiração (assistida) daquele padrão. É certo que por vezes quase se arrisca a dissipação da polifonia, mas neste descampado de sons o cerco da mecânica produtiva não arrasta um espaço de liberdade nessa ameaçada pretensão.
Não quer dizer que seja exercício inconsequente. Há certo propósito assumido no gesto depauparado, a propor uma inquietação mansa da contemplação gelada (voilá o cliché – mas porque emocionalmente ambígua à quase inexpressividade, o rosto congelado, pois), como a electrónica ambiental convém(?).
Mas mesmo nessa proposição ressente-se a ausência de profundidade de campo no arrasto da inevitável artesania dos sons, mesmo quando os sons se tornam puro destilado de circuitos. Na extrema exiguidade tímbrica (considerando que o termo ainda se aplica) dos materiais sonoros (outra ironia para a electrónica), e na rarefacção das texturas, carecia-se de um sentido de escala e proporção para não tornar a emanação plana, colada ao chão. A elevação contemplativa descobre-se afinal cativa da sua rasteira condição produtiva.
No seu aparente, relativo insulamento, não haverá talvez grandes pretensões teleológicas aqui. Mas mesmo no seu fechamento de sentido e lógica produtiva, o mero gesto artesanal pede outra dedicação à efectividade dos estímulos que pretende transmitir. Os bons experimentalistas da dissipação de referentes, que longa história têm antes dos novos avatares que a electrónica foi engendrando com variações nominalistas, souberam bem que entre o caos e a estruturação, importa tanto a ordem como o ressentir do seu falar. E para ressentir (e o outro tocar), a gestão do tempo e do espaço, como sempre, pede mais alquimia na gestão dos materiais que a mecânica ou o gesto vago podem configurar.

© 2007 TCC