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Ramases Space Hymns
Um inexplicável fascínio percorre o primeiro álbum
(1971) dos Ramases (“Glass Top Coffin”
de 1975, o segundo será o canto do cisne), estranhíssimo duo perfeitamente
enquadrado na década mística dos anos 70. O seu líder afiançava ser a actual
encarnação do Deus-faraó egípcio Ramsés e
juntamente com Sel, a sua companheira (também
vocalista) e alguns músicos (quatro elementos que no ano seguinte fundariam
os 10CC) gravaram esta desordenada amálgama de space-folk-rock,
cheia de pontos fracos que se tornam virtudes, perdoem-nos, o disco é
provocante, como adiante se verá. Tão inocentemente esquizofrénico, delirante
e pitoresco que vale a pena investigá-lo na disciplina de Arqueologia
Musical. Ramases, conhecido pelo nome de baptismo
como Martin Raphael, nascido na cidade industrial
de Sheffield, era um bem sucedido empresário antes
de se ter defrontado com uma visão do referido Deus-faraó
enquanto conduzia o seu automóvel, que o informou da sua missão: comunicar
aos habitantes do planeta Terra as verdades do universo; entretanto há a
lenda de Ramases e Sel
terem sido contactados por extraterrestres, tendo reservado lugar numa das
naves espaciais que nos visitam desde a antiguidade, deixando para sempre o
nosso planeta. A esse
episódio parece fazer referência a magnífica ilustração da capa de “Space Hymns”, da autoria de Roger Dean
(na edição original em vinil abria como um poster), anunciando uma nave
espacial com a forma de uma torre de catedral partindo para os confins do
espaço, desprendendo-se de uma insuspeita igreja gótica de província. Comecem
pois a prestar mais atenção aos pináculos das catedrais! A
abertura com “Life Child” mostra um portentoso “space-krautrock” de tez britânica, amanhecendo com flauta
remota e guitarra indolente; vagarosamente passa-se para a fusão e uma
guitarra deliciosamente electrificada sacode as partículas de pó, a voz
arrojada de piloto credenciado, logo o moog entra no balanço e conclui-se com
uma batalha instrumental. “Hello Mister” muda para
outro registo como da água para o vinho, Ramases
repete incessantemente as palavras do título com tambores orientais
altercando o ritmo e nós estupefactos...Começamos a suspeitar de mensagens em
código camufladas nas canções, nada é claro, e depois da percussão cessar,
não há resposta em “And The Whole World”, balada clonada da fraternidade mais fraternal do fraterno Donovan; não é das peças mais recompensadoras do álbum,
ouve-se bem no contexto do conjunto, melhora quando um vibrafone dá um sinal
e fica tudo mais jazzy. Ramases inicia o seu discurso à humanidade através da
cançoneta mais “hippie”, mas com “Quasar One”
arrebata brilhantemente o disco, como se uns Incredible
String Band preguiçosos, depois de uma sessão
hilariante de ópio, viessem bailar na varanda dos jardins suspensos da
Babilónia. A junção da sua voz e a de Sel criam um
híbrido bizarro, a canção é dedicada a um Quasar (corpo desconhecido
extremamente luminoso a bilhões de anos-luz da
Terra), com brandos ritmos hipnóticos a fazerem de “world-music”
(antes de ter sido inventada pelos críticos), até o “moog” se fantasia nesta
bem-aventurança. Curiosamente, a cabeça escanhoada de Ramases
convoca parecenças com o Deus-faraó egípcio (as
esculturas são testemunhas) e a intrigante fotografia incluída no interior da
capa, mostra-o juntamente com a companheira acenando ramos de trigo aos
visitantes do Quasar distante, provavelmente. “You’re The Only One” é de novo uma mensagem em código
para os alienígenas ou então enorme patetice, não se compreende que durante
2m e 20s duas vozes repitam “ad-nauseam” a frase
que dá nome à canção; ao que parece arrancada do contexto de um diálogo do
filme “O Cowboy da Meia-Noite” (lembram-se?),
valentes mistérios se sobreporão a tanta insanidade ou temos um “mantra-ao-acaso”? O nome de um tal “Joe”
é lembrado com uma reverência tal que apetece indagar se não será o
“Presidente Inter-Galáctico e dos Quasars”... Adiante
porque a delicadeza nefelibata de “Earth-People”
vale a pena. Alonguem os membros nas camas de rede e olhem o céu estrelado, Ramases quer falar aos povos da Terra mas compreende a
sua insegurança, prostrando-se em meditativa melancolia. Algo de primordial
na flauta disfuncional evoca uma ave canora passeando ao amanhecer, o efeito
das “backward-tapes” é um achado neste tema
magnífico, até o canto celebra genuína paz, lembra o “Across
The Universe” na despedida dos Beatles. Imprevisível
este disco com a sua desarrumação de estilos e não só, em “Molecular Delusions” a sitar tocada pelo
próprio Ramases abre um consciencioso e altivo
cântico pseudo-hindú, e de repente entre divagações
filosóficas sobre estados de existência (“we are most probably existing on a molecule inside the material of, perhaps,
a living thing in the next size
up”) um (desconcertante) “fuck” acidental passou
para a gravação na fita... “Balloon” aproxima-se do melhor “sunshine-psych-pop”
dos anos 60, um gordo baixo eléctrico conduz as guitarras e um gracioso piano
para o espanto do balão na superfície da Lua, as vozes em coro desprendem-se
da materialidade em êxtase prolongado; mistérios lunáticos ainda não
desvendados, presume-se que o nosso satélite possa
ser a garagem dos amigos alienígenas. Arrepiante? De “Dying Swan Year 2000” pouco
haverá a dizer, de “Jesus Come Back” também. Os 47 segundos do primeiro
resumem-se a um texto “à capela” ditado ao microfone, vagamente inspirado em Hoelderlin ou Novalïs, bem, o
ano 2000 já lá vai e estamos todos inteiros e desconfiados. “Jesus Come
Back”, assemelha-se a uma aula de catequese, é musicalmente inócuo (lembra um
grupo evangélico ou os Resistência) e não é seguramente a justa homenagem ao
Filho do Homem, esmiuçando o seu lado piedoso; apesar de podermos ansiar por
um salvador, o álbum preferencialmente estaria melhor sem tal homenagem. Mas, e
sempre dando pontapés à coerência, o final do disco é o mais fortuitamente
experimental. “Backward-tapes” incessantes varrem a
límpida certeza de Ramases na sua missão falhada:
“oh, what are going to do with me?”; e depois é só
ouvir o “moog” a descambar, os circuitos a expandirem ruído, desvanece tudo e
como em “2001, Odisseia No Espaço” permanece um quarto e um piano. Ramases dá uma conferência, dialogando com os convivas
sobre protões e neutrões; ajustamos o ouvido e zás, a gravação subitamente
morre... Delicioso compêndio pretensioso. |
Referências: LP – Vertigo, 6360 046 (GB, 1971) CD – Progressive Line, PL 522 (Austrália, 2001) CD – Repertoire, REPUK 1030
(Alemanha, 2004) Faixas: 1. Life Child [6:39/6:25] Faixas bónus da edição PL
522 12. Long long time [5:16]
Músicos: Ramases
- voz + Sel
– voz Eric
Stewart – guitarra, moog Jo Romero – (fs. 12-15) guitarra acústica, guitarra eléctrica, tabla Pete Kingsman – (fs. 12-15) guitarra-baixo Roger Harisson
(fs. 12-15) bateria, percussão Bon Bertels (fs. 12-15) saxophone Key – coros (fs. 12-15) Sue – coros (fs. 12-15) Sonny – coros (fs. 12-15) The Eddy Lester Chorale – coros
(fs. 12-15) |