PIPETTES (THE)
We Are the Pipettes (2006)
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Uma das agradáveis surpresas de 2006, "We Are the Pipettes" assegura a estreia em disco das Pipettes, trio feminino de Brighton que apresenta aqui uma curiosa proposta de travo retro, sem no entanto deixar de praticar uma sonoridade actual.
Gwenno, Rose e Becki resgatam alguns dos traços das girl bands dos anos 60 e aliam essa pop kitsch, lúdica e swingante, a temperos indie, conseguindo um misto quase sempre cativante e recheado de canções trauteáveis. O tema homónimo, que abre o álbum, é uma irresistível porta de entrada para uma sucessão de composições despretensiosas, vincadas por uma leveza que não deve ser confundida com mediocridade, uma vez que a maioria são exemplo de uma bem oleada confecção pop.
Se inicialmente há ecos de umas Luscious Jackson ou Bis, o resto do disco não exibe tanto essas semelhanças, aproximando-se mais de tempos com vestidos às bolinhas e de bailes de liceu com palminhas recorrentes, por vezes pisando a fronteira dos Camera Obscura, The Go!Team ou mesmo dos Cardigans de outros tempos.
"Pull Shapes" é um dos mais eficazes convites à dança, realçando o valor da melodia pela melodia e assumindo uma postura descomplexada, de resto palpável ao longo de todo o álbum. "Why Did You Stay?" assinala a primeira de muitas incursões por relatos boy meets girl, num dos momentos em que a justaposição das vozes das três meninas atinge resultados mais saborosos e convida a audições consecutivas.
E até ao último tema, singelamente intitulado "I Love You", as Pipettes disparam aprazíveis rebuçados de, no máximo, três minutos, com raras pausas para um dinamismo que acaba por contagiar. Contudo, é sabido que altas doses de açúcar podem revelar-se enjoativas, e embora aqui não se chegue a tanto há que reconhecer que a recta final do disco já não emana a mesma frescura, pelo que "We Are the Pipettes" só ganharia em retirar duas ou três canções de um alinhamento que acaba por se tornar repetitivo.
Alguma redundância não estraga, contudo, o que ficou para trás, e apesar do embrulho ligeiro este é um projecto musicalmente coeso, não só pelas apropriadas contribuições vocais do trio mas também pelo trabalho dos Cassettes, os músicos de serviço cuja consistência é evidente (com destaque para os belíssimos arranjos de cordas).
As letras também ajudam a consolidar uma boa impressão, sendo dominadas por um sentido de humor que as afasta de banais reflexões amorososas e apoia-se antes num girl power moderado e auto-consciente (não há por aqui meninas ingénuas), cuja ironia é desde logo sugerida em títulos como "Your Kisses Are Wasted on Me" ou "It Hurts to See You Dance So Well".
"We Are the Pipettes" talvez fosse mais estimulante se apostasse numa maior versatilidade, oferecendo outras canções mais tranquilas e sóbrias como a frágil "A Winter's Sky", mas pode ser que as Pipettes explorem essa via num próximo disco. Assim como está, este não deixa de ser uma estreia capaz de acompanhar - e encorajar - vários serões dançantes.

© 2007 GS