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Pink Floyd The
Piper At the Gates of Dawn
Não adianta esquadrinhar na
história do rock psicadélico (1966 – ainda vivo), enaltecendo a pioneira
dádiva dos 13th Floor Elevators
na América texana desoladoramente atrasada; nem sequer opinar que “Revolver”
dos Beatles é o embrião do rock psicadélico (de facto, nesse ano o rock
largaria a adolescência); temo a discórdia ao dizer que a mais alta montanha,
o “shangri-la” da revolução é o (ainda) inesgotável
álbum de estreia dos Pink Floyd. Pontuando-o como uma coroa, uma mão cheia de
singles precedentes, o impacto dos iniciais e fantasmagóricos acordes de “See Emily play”,
estão irremediavelmente presos ao nosso subconsciente. “Astronomy
Domine” tanto comove como arrepia, as guitarras tangidas em fios de prata,
melopeias cavernosas do órgão infiltrando-se nas artérias da canção (ouçam no
espantoso final!!!), címbalos (valente Mason!) que nos guiam em espiral
descendente até ao lago mais próximo de um oásis interplanetário, tons
delirantes amparam a queda. Saímos pela escotilha com pele-de-galinha,
pisamos um ou dois troncos secos de árvores, sóis de cores desconhecidas
inundam a nossa íris assim que distinguimos o horizonte com a mão em concha.
É a fuga do rock outrora perdido nas historietas de amor, em 1967 era mais
importante Aldous Huxley, Isaac Azimov, J.R.R.Tolkien e Robert Heinlein,
“Dan Dare, who’s there?”.
Onomatopeias
(blam pow pow) alternando com radiografias de vozes, SSSSS sssssoando tão sssssibilinamente
invocadoresssss, gessssstação
da ssssserpente-homem, SSSSSyd
sssssoando como nunca o rock esperaria, contos de
fuga com o universo no olhar (já repararam na quilometragem sonhadora do de
Syd?), “stars can frighten...” “Lucifer Sam” espreita na
soleira da porta, perambulando e partindo cadinhos,
guitarras-de-garras-afiadas, subindo e descendo
escadas, o órgão gatesco, pois então, silencioso Lucifer Sam, controlador dos
nossos gestos, como o gato de Liszt, “that cat’s
something I can’t explain”...
Nunca
no rock uma guitarra se atrevera a soar como felino doméstico neste tema
ícone do psicadelismo, com o baixo e os teclados em levitações, aos 2min e
20seg uma admirável massa compacta cria uma excitante miniatura rock-jazz ainda incompatível com os desejos das plateias,
os Pink Floyd com uma tal urgência estimulante que nunca mais atingiriam!! (o haxixe catatónico
substituiria o ácido lisérgico). “Mathilda Mother” amedronta tanto a nossa pele que as
personagens saem em carne e osso do livro de contos, uma lúgubre e imaterial
conjugação de instrumentos (que solo de órgão!!) e
vozes, escrupulosamente escolhidos para o efeito ingénuo da narração que
cresce com a garganta mágica-carinhosa de Syd, mais
uma vez com acréscimos sibilantes de fazer parar toda a racionalidade. A
mesma que foge a sete pés de “Flaming”, novamente o
quarteto divertindo-se (mas assustando irra!) com efeitos silábicos de voz
emulando ventos dos planaltos, Syd pairando nos postes de telefone,
cavalgando unicórnios, uma enternecedora e cósmica solidão, “eu vejo-te, tu
não me vês...”, Syd abandonou o corpo e não mais quis voltar, deslumbrado com
o que havia nas redondezas...Há o gerador tonitruante do início decididamente
sobrenatural, um cravo em passos de lã, o “yippee”
mais catita e lindo do rock, adiante um órgão em sublime desmaio e muito,
muito ao longe um cão que uiva (conseguem ouvi-lo? Sintonizem a vossa
audição). Yippee!! Preparados
para o terror de “Pow R. Toc
H.”? Grotesco ritual fora dos anais da história conhecida, uma raça lidando
com as primeiras e guturais palavras, “ptoi-doi”
vagamente antropomórficos, gritos e urros no pânico de uma batalha, alguém dá
uma ordem (terrífica!) para a carnificina, mas o feitiço vira-se contra o
feiticeiro. “Pow R. Toc H.” (Power Touch?) aproxima-se da fusão sustida pela divagação
do órgão hammond, é um tema seminal na história do
rock pois servirá de ponto de partida para as experiências (por vezes
estéreis) “jam-session” dos grupos psicadélicos (é
ver o “Satanic...” dos Stones, abraçando com
sucesso a Psychedelia). Com o génio sincretista de
Syd Barrett, toda esta narrativa sonora é
implacavelmente sedutora, convidando a repetidas audições, qual parede do
tempo preservando mistérios insondáveis. “Take
Up Thy Stethoscope and Walk” mantém a electricidade acesa, a bateria em golpes
secos (1, 2, 3, 4) arrastando as vozes estridentes num bárbaro e espasmódico
psicadelismo, baixo e guitarra desastrados arriscando ruído (hello Sonic Youth!!), estourando
em uníssono com as vozes já em “post-mortem” que
arrastam a bateria (4, 3, 2, 1), na fuga repentina para a luz. O
único tema composto por Roger Waters veste a mesma iminência brilhante do
resto do álbum, excepcionalmente subversivo na linguagem musical, os Floyd
eram a grande sensação da “swinging” Londres, e a
capa não disfarça os “altered states
of conscience”, os fatos barrocos da máquina do
tempo. E então,
“Interstellar Overdrive”, o tema totem do grupo na fase Barrettiana,
um poema sinfónico construído com “riffs” e ruídos,
os instrumentos de bordo em auto destruição e a viagem interplanetária mal
sucedida, os módulos programados para os músicos improvisarem na feição de um
enorme ser tentacular, como se pode asseverar pela silhueta da contracapa.
Aqui muitos pontos a favor para os que defendem que o fusion-rock
foi inventado pelos Floyd. Um bongó avariado desvenda a última parte de “Piper At the
Gates of Dawn”, três admiráveis baladas acústicas e um testamento de reclusão
(Bike), a timidez endeusada da voz de Barrett, espalhando a beleza ingénua como ninguém na
história da música popular. “The Gnome” é a
tradução mais convincente da visão caseira de um gnomo de Tolkien,
mais perto do lirismo das ilustrações que o escritor fez para as suas obras
do que do “heroic-fantasy” estandardizado. Grimble Gromble é um lógico
alter-ego de Barrett, o xilofone abre os cortinados
da terra mágica; as preguiçosas inflexões “british”
e o ruralismo acústico vão ser um pote de influências para a folk psicadélica
que despontará ainda em 1967, entre o sucesso de Dylan e Tolkien. Com “Chapter 24” (sombrio, filosófico) e “Scarecrow”
(galhofeira dança de roda entre os canaviais), Barrett
atreve-se a criar, de facto, uma folk idiossincrática, discursando sobre a
metafísica dos números ou o espantalho dos campos, ajudado por meia dúzia de
efeitos, uma economia de meios com resultados espantosos. Ali um órgão
lamentoso, aqui mais carrossel mágico, percussão esparsa, é Barrett (quase) sozinho no estúdio, valendo mais que mil
músicos. Agora
que, com surpresa comovente e tristemente para nós, deixou o mundo dos vivos,
algures nas vastas paisagens de terras eternas, após anos a fio de silêncio
dourado, sobressairá o seu génio de criança tolhida pela maldade do mundo,
aquele olhar emoldurado pelos caracóis trespassando toda a vulgaridade,
perspicaz, fantasista, frágil e tão fundamental, volta, Syd, por favor... “Bike” é, pois, a comprovação da clausura, o rato Gerald e o quarto encantado, mas...Que melhor símbolo
para a grande fuga, a bicicleta...? |
Referências: LP - Columbia Records SX 6157
(GB, 1967, mono) Faixas: 1. Astronomy Domine
[4:12] (Barrett) (Barrett) (Barrett) (Barrett) (Barrett/Mason/Waters/Wright) (Waters) (Barrett/Mason/Waters/Wright) (Barrett) (Barrett) (Barrett) (Barrett) Músicos: Syd Barrett - guitarra, voz Outros créditos: Produzido por Norman Smith Áudio: Astronomy Domine ::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: |