PREMIATA FORNERIA MARCONI
L’Isola di Niente (1974)
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Há fenómenos culturais que nos escapam pela sua inaudita aparição no quadro mental do que tínhamos por certo como a conformação de certas realidades a certos contextos. O progressivo italiano é um desses fenómenos. A cada disco que vai sendo desvelado dessa fonte aparentemente inesgotável de produção nos anos 70, vão saltando obras e mais obras de beleza e competência técnica surpreendentes para quem vê as principais correntes da música popular desde os inícios de 60 como conhecendo as suas características fundadoras (e como se daí derivasse inevitavelmente a conclusão: e superiores) em contexto anglo-saxónico (e no caso do progressivo, ainda mais restritamente em contexto britânico).
Os Premiata Forneria Marconi são um dos exemplos mais acabados desse fenómeno. Banda com carreira que transpôs as suas fronteiras nacionais por certo tempo (percurso que várias outras luminárias progressivas do país procuraram trilhar, em geral com sucesso mitigado), o mais fascinante é olhar para os seus primeiros, e mais celebrados, álbuns, e descortinar uma segurança instrumental e um trabalho de estúdio aturado, aliado (convém...) a composições do mais alto calibre, não abdicando de um certo italian touch (apesar de terem chegado, e não serem os únicos, a fazer versões inglesas de material desses álbuns para lançamento internacional – sim, o etnocentrismo também passou por aqui...). Comparável em percurso e em algum sucesso, talvez só os Banco del Mutuo Soccorso (sim, os italianos eram capazes de tender para nomes um bocado extensos, que depois a internacionalização reduzia a siglas vácuas) e os Le Orme.
L’Isola di Niente, de que aqui nos ocupamos, é o terceiro álbum da banda, e também, consequentemente, o último da sua reputada trilogia de ouro. E sendo considerado geralmente o menos rico, a perspectiva comparativa é redutora para uma obra deste calibre.
O início é das coisas mais inauditas ouvidas no género (e logo num género que na sua matriz devia ser composto só de coisas inauditas...): um coral dramático de um par de minutos, impressionantes como raros, em qualquer género, de dissonante e elaborada beleza e progressão em contraponto das várias secções do coro; e pelo requinte na entrega quase juraria que foram buscar coros obscuros de aldeias da Geórgia e Bulgária compostos de gente que toda a sua vida a tal ofício se dedicou (é ouvir as vozes femininas, fantasmagóricas e perfurantes, a sobressair na progressão final). Nada menos que sublime, que depois, a la “Monty Pithon”, se converte em something completely different, onde, partindo de um riff simples de guitarra e abrindo para a investida vocal (que, com o coro, constituirão as recorrências da peça), se iniciam as hostilidades mais comummente progressivas, que, se se estranha um pouco ao início, em aparente quebra das partes compósitas da música, após umas audições logo se entranha pela fluidez das transições e pela textura e integração instrumental (por exemplo, são das poucas bandas a saber usar em doses devidamente medidas a subtileza ou o amplidão sonora do sagrado mellotron).
“Is my face on straight” sinaliza a internacionalização do grupo, com letra do crimsoniano Peter Sinfield, e cantada em inglês (e porque raio é que tantas criaturas creram que cantar em inglês com um ranço de sotaque italiano os ajudava a penetrar o mercado internacional é outro mistério de monta), mas reservando um agradável passeio no final à conta do solo do acordeão da aldeia.
Mas, fora a demasiado delicodoce balada “Dolce Maria” (às vezes os nomes dizem tudo...), os pratos fortes restantes são a maravilhosa “La Luna Nuova”, com o seu irresistível tema inicial em tonalidades folk que, num encadeamento temático de imparável fluidez dará azo a um espoletar apoteótico de escalas alucinantes; e a mui agradável “Via Lumiére”, que encerra o disco com chave jazzística e dissonante, com um violino alucinado a lembrar a intervenção de David Cross na “Lark’s Tongues in Aspic, Part 1” (já vão na parte 5, se ainda não lhes perdi a conta...) dos King Crimson, até que as hostes encerram o tumulto, e se abre qual arco-íris em dia de tempestade a claridade de um transbordante mellotron e uma triunfante guitarra de inspiração hacketiana.
Se não se explicam estes mistérios italianos, esta é uma bela porta de entrada para os seus encantos.

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