PEACOCK, ANNETTE
X-dreams (1978)
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No frontispício, Annette Peacock olha-nos entre o desafio e o desejo; decidida e intrépida, foi a primeira a estrear em palco (1968) um protótipo do moog (dado pelo próprio inventor), recusou uma digressão com David Bowie, respondendo-lhe que era preferível ele aprender a tocar sintetizador do que a usar no palco; em 1974, com 33 anos e mãe solteira, viajou para a Inglaterra e aí editou quatro anos depois o seu primeiro disco europeu, “X-dreams”.
Poucas vezes o universo feminino do rock teve tão promissora voz e se até hoje Annette Peacock não correspondeu às expectativas foi porque permaneceu sempre artisticamente independente, gravando com alguma irregularidade. “X-dreams” foi surpresa em 1978 com Annette mais dura que o punk mais valente, reparem no “proto-blues” em fato de cabedal de “My Mama Never Taught Me How To Cook” que entra tão destemido a bailar com o piano eléctrico gingão e a voz altiva a sacudir com secura frases de um diário pessoal: “my mama never taught me how to cook, that’s why i’m so skinny!”, aqui critica-se o papel destinado socialmente à mulher mais do que qualquer queixa familiar a uma progenitora irresponsável.
E “Real & Defined Androgens” são onze minutos de tapeçaria vertiginosa com Annette a instalar um exército de instrumentos em autêntica refrega, pelo menos três guitarras eléctricas em campo disparam “riffs” cortantes entre murmúrios libidinosos e altercações bradadas em altas notas; é uma “jam-session” cerebral que leva tudo à sua frente e só o piano traz alguns apêndices de lirismo, o clima de tensão é tão perigoso como o cerco de uma pantera rondando, arreganhando os dentes.
Depois, um extraordinário piano eléctrico repete floreados excitantes em “Dear Bela” e os saxofones esclarecidos apoiam a dança enviesada da voz, bendita Annette que em plena “New-wave” não seguiu os estereótipos obrigatórios da linearidade e deu à luz um intrincado par de discos (o outro é “The Perfect Release” de 1979), obviamente assim não seria se ela não tivesse um passado selecto e um gosto teimosamente ecléctico; o jazz esteve em boas mãos (e não reparou!) e é bem melhor recuperar uma voz destas do que as pernas de Diana Krall.
“This Feel Within” e “Too Much In the Skies” são duas das melhores peças de jazz alguma vez nascido na Inglaterra com sotaque americano e músicos da casa; Annette Peacock fez-se rodear da melhor gente da fusão, ora vejam só: Mick Ronson, Chris Spedding; Jim Mullen, Brian Godding, Ray Warleigh, Peter Lemer, Dave Chambers, Steve Cook ou Bill Bruford, é demais, deve ter estalado os dedos da voz e vieram todos atrás! “The Feel Within” é de uma languidez sagrada, ao redor da voz há uma flauta de etérea beleza regressada de um reino calorento e inimaginável no extremo da Ásia, um erotismo de lençóis cheirosos e doce incenso paira no ar e também o piano traz uma linha de poesia. “Too Much In the Skies”, só pelo título teria de bom grado o prémio de canção da década e tão sublime é a afinidade da voz com os instrumentos, um momento obsessivo que suplicantes pedimos que se repita em sucessão infinita; com esta graciosidade não há “acid-jazz” que resista e os Portishead vão directos para um hospital de alienados; então quando a senhora se põe a ciciar “dreaming, dreaming” e o piano no seguimento descarrega uma melodia “tão ouro, oiro, quilate desconhecido”, só apetece gatunar e fazer um “sample” para a eternidade.
Claro que depois desta detença celestial, o resto do álbum tende a ser subestimado, apesar de manter alto nível. “Don’t Be Cruel” tem uma certa marca “blues-groove” como se a nossa donzela desse ordens no meio de uma daquelas bandas de cabeludos dos anos 70. Adaptando um tema de Elvis Presley (arreda, arreda!) e Otis Blackwell, Annette assenhoreou-se e tomou a canção, deu-lhe energia e sedução; as guitarras machistas ajoelham-se aos seus comandos e ela fica a ganhar. “Questions” está no mesmo reino de “Too Much In the Skies”, onde mora a beleza indescritível, pronto para finalizar de propósito com romantismo tardo-vespertino; um piano embriagado embala a voz, uma brisa de verão perpassa pela memória, é sonho na nossa sala.
Um disco que é uma quimera de sensações, procurem-no avidamente.

© 2006 AJQ