NEWS FROM BABEL
Sirens and Silences / Work Resumed on the Tower / Letters Home (1990)
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Eis uma preciosidade: a compilação da obra, gravada entre 1983 e 1986, pelo grupo News From Babel, formado por alguns dos músicos da nata da vanguarda britânica: Chris Cutler, Lindsay Cooper, Zeena Parkins, Dagmar Krause, Robert Wyatt, Sally Potter, Phil Minton, entre outros. O primeiro álbum, “Sirens and Silences / Work Resumed on the Tower” (1983), revela a continuidade lógica dos Art Bears (só Fred Frith ficou de fora), num harmonioso libelo de insubmissão filosófica e idealismo poético. O segundo, “Letters Home” (1986) – adicionando as óptimas vozes de Wyatt, Potter e Minton – persegue a mesma batalha poético-social, desenhando uma efígie desencantada da sociedade moderna, com um lirismo nefelibata e nocturno.
É uma delícia ouvir as interjeições dolorosas de Dagmar no prelúdio de “Odysseus”, acompanhando um órgão mais que misterioso, e com o mesmo prazer, esperar pelo néctar do fagote da magnífica Lindsay Cooper, ímpar desde os tempos dos Henry Cow. No espantoso tema seguinte, “Auschwitz / Babel”, fagote e saxofone interpelam ritmos de cabaré doentio, dançando com os mais negros fantasmas dos pesadelos humanos. Em “Klein’s Bottle” (“a bottle which contains itself”, um curioso princípio de entropia artificial), com o seu texto complexo, a voz de Dagmar é um assombro – se esta senhora cantasse a lista do supermercado, encantaria na mesma – inesquecível na forma como canaliza sensações através das palavras e jogos fonéticos; e há acordeões e harpas vagueando com sons de reversed tapes, criando uma música repleta de enigmas e esconderijos, seduzindo-nos como se procurássemos um tesouro perdido ou a inscrição de uma ária antiga nas arribas de uma caverna.
“Black Gold” traz os habituais ritmos entrecortados de Cutler (um dos mais completos bateristas de sempre?) num registo mais acessível, até se desenvolverem insinuações electroacústicas e Dagmar Krause encantar com o seu canto sufocado, num dueto com um saxofone em súplica dramática. E em “Devils”, Krause é uma espécie de “Anjo Azul” de delicado refinamento vocal e memoráveis sílabas sibilantes, conferenciando com o fagote e o piano à la Kurt Weill – dura pouco mais de um minuto, mas é um minuto de antologia!
“Dry Leaf” é floresta nocturna, harpa arranhada e piano leve no prelúdio, despontando bruscamente para uma tempestade de bateria e fagote; nas entreabertas da convulsão, outros instrumentos se convocam para fugazes apontamentos sonoros (a harpa tratada para soar como um violino, o piano macambúzio, um sopro elíptico), revelando o génio e a destreza deste aglomerado de virtuosos músicos.
É esta genialidade que desperta em “Work Resumed on the Tower”, onde a composição se torna mais intrincada e à qual, os textos de Chris Cutler, entre um existencialismo contemplativo e o langor místico, acrescentam o pathos necessário. Quer em “Arcades (of Glass)”, quer em “Victory”, é a dama Dagmar que instiga a procissão algo estrondosa (e optimista, vá) da parafernália sonora – como se uma multidão estouvada trouxesse para as praças das cidades, a utopia perfeita. Na derradeira canção do álbum, “Anno Mirabilis”, junta-se-lhe o profético Phil Minton (arcaica voz de vate antigo!), e ambos marcham orgulhosos, impulsionando o punho humanista, gritando enfim a justiça (“the year in which Peace spoke to Power & Peace prevailed”). E o desfile prossegue com sopros de ternura melancólica, cordas repetindo texturas atonais, intervalos de introspecção minimalista e/ou improvisada, fogo e gelo percutido. Em “Victory”, uma harpa-guitarra ou guitarra-harpa (vá-se lá distinguir) é uma surpresa de luminosidade antes da eclosão do duro cortejo metálico, e por aqui recorda-se a atmosfera imponente de “In Praise of Learning” (1975), dos Henry Cow, sem o apelo panfletário.
Em “Letters Home”, o segundo álbum, é o surpreendente Robert Wyatt a abrir “Who Will Accuse?”: tanto encanto concentrado em dois minutos intimistas de ode noctívaga, num punhado de sábias palavras, no deleite de fagote e outros pianíssimos em afeição planante. “Heart of Stone” é de igual modo irrepreensível na voz de Wyatt, desta vez em cândida e efémera exaltação – e que vontade de eleger esta cantilena para o nosso agasalho nocturno caseiro, com janelas escancaradas para o mapa estelar e a esperança a despontar nas longínquas cintilações (ouça-se o encantador bailado, entre o 1m20s e o 2m, com o seu quê de “can-can” e haja um pé de dança!).
Sally Potter substitui agora Dagmar Krause, e em “Banknote” fá-lo com notável apuro (procurem-na nos álbuns “Rags / The Golddiggers” de Lindsay Cooper) num refinado cabaré agit-pop (que solo de saxofone!!), anunciando poesia de alto calibre (“I pressed a coin against my lips, I closed my eyes – I felt no kiss”). E Potter ainda mais esplendorosa é em “Dark Matter”, onde a sua fascinante sensualidade convive às mil maravilhas com a atmosfera difusa de passeio nocturno (lembrando a Alison Statton dos Young Marble Giants e Weekend), numa valsa narcótica armadilhada de sintetizadores e lusco-fusco.
“Moss”, “Dragon at the Core” e “Waited/Justice” trazem a melhor quota sonora de “Letters Home”, como se aqui fosse possível identificar uma espécie de jazz-rock vivo na década de 80 – o que até poderá ser verdade, já que esta tipologia lhes corre no sangue, enquanto eles fogem do mercantilismo musical como o rato do veneno – agora de feição algo agreste e dissonante. Nestas entrelaçadas estruturas sonoras, há espaço para destemidas fugas galácticas (em “Dragon at the Core”, a voz arrepanhada de Minton dá ordens a um excitante delírio rítmico), introspecções de extática beleza (o belíssimo “Moss”, com um Wyatt sempre superlativo) e hinos de majestosa invenção musical (“Waited/Justice”, outra vez com Wyatt e uma imponente pauta para saxofone, baixo e teclados).
Na última fracção de “Letters Home”, Dagmar Krause volta do seu intervalo nos bastidores, com a sua usual voz acre e operática (a que regressamos sempre como um hábito ou um vício, sabe-se lá – aprende Ute Lemper…). Se “Fast Food”, em cadência acústica na tradição dos Art Bears, permite um comentário irreverente sobre essa tão controversa forma de alimentação moderna, já “Late Evening” (Wyatt junta a sua voz na coda final), com o seu comedimento instrumental (atentem no arrepiante e galáctico órgão longínquo) está muito perto de uma paz, que muito dificilmente encontraremos na música contemporânea, ou então teremos de procurar muito.
Um disco decididamente imprescindível para quem anda na senda da grande música desconhecida de décadas passadas, e para juntar a nomes como Henry Cow, Matching Mole, Art Bears, Slapp Happy, Non Credo ou Thinking Plague.

© 2007 AJQ