NETO, TÓ
Láctea (1983)
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A história da música portuguesa coloca Tó Neto na posição de pioneiro da música electrónica nacional. Tal facto não deixa de ser curioso, dado que a história pessoal do músico é feita de constantes adiamentos: António Eduardo Benedy Neto nasce em Luanda, em 1951, mas apenas vem para Portugal (país onde poderia teoricamente maximizar as suas capacidades musicais) em 1973, e já com 22 anos de idade; daí até ver editado o seu registro de estreia, intitulado “Láctea”, decorreriam mais dez anos – na altura precisa em que o "boom" do rock português abriu o mercado à nova música urbana portuguesa.
Apresentado pela primeira vez ao vivo no Planetário Calouste Gulbenkian, de onde aliás também provém a imagem utilizada na capa, “Láctea” é hoje um objecto curioso: se por um lado apresenta uma visão daquilo que, na década de 80, se julgava vir a ser o futuro (uma viagem por entre a Via Láctea), por outro, a utilização de tecnologias próprias da altura, nomeadamente de sintetizadores e caixas de ritmos rudimentares, soam hoje, passados 23 anos sobre a sua edição, a algo que estará para sempre aprisionado no tempo, qual “snapshot” que regista apenas um dado momento fortuito, capaz de desviar a atenção do observador, ou neste caso do ouvinte, em relação à ligação entre o instante e os outros elementos da narrativa.
Recorrendo aqui e ali a referências do rock progressivo dos anos 70 (o início de “Zuzu” é claramente inspirado na primeira parte de “Shine on Your Crazy Diamond” dos Pink Floyd), Neto faz valer a sua veia new-wave, dando aos temas uma vitalidade que contrasta vientemente com a derrocada do rock progressivo sinfónico, causada por uma indústria que procurava agora, a nível mundial, reduzir custos.
“Láctea” surpreende sobretudo pela maturidade das composições: o álbum é bastante regular, quer a nível da harmonia (sobreposição de frases e repetição de um só sujeito melódico por tema), quer a nível do ritmo (as batidas estruturam-se em função do sujeito melódico), havendo, se quisermos entrar em teorias da conspiração, uma relação directa (espelhada) entre quase todas as faixas que o compõem: “Odisseia” e “Zuzu” (Zuzu Angel, pioneira da moda brasileira, que embarcou numa autêntica odisseia, quando o seu filho, Stuart, um activista contra o regime militar, foi preso e morto, tendo a estilista entrado em conflito com o regime brasileiro, acabando também ela por morrer num muito suspeito acidente de viação); “Lisa” e “Devoção” (bem, cada um venera quem entende); “Cristal” e “D. Vagabundo” (a sobreposição de dois mundos).
De fora desta nossa pequena teoria fica apenas o tema “África Blue”, que corresponderá a uma referência às origens do músico.
Ao contrário do que faria supor toda a estética do disco, tanto a nível musical, como gráfico, “Láctea” dá assim mostras de ser um álbum mais virado para dentro, para o Presente que então se achava Futuro e que agora soa a Passado.
Mas as boas recordações, quando e desde que mantidas como tal, são um nutriente essencial para a construção dos espectros temporais que se avizinham, e desse modo, poder-se-á dizer que, embora Tó Neto não tivesse adivinhado o futuro, terá contribuído de forma decisiva, para que alguma da música actual se considere ela própria como futurista.

© 2006 SP