

NATIONAL HEALTH
Of Queues and Cures (1978)
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AVES RARAS E DANÇAS PARA BATRÁQUIOS
(A HISTÓRIA VERÍDICA)
Um dos aspectos mais fascinantes da música é a sua análise histórica. Este facto é amplamente comprovado através das inúmeras publicações que brotam incessantemente nos quiosques e livrarias, tentando lucrar com dados que o tempo foi progressivamente apagando ou distorcendo.
De repente, fenómenos antes confinados a um determinado tempo e espaço, passam a merecer o interesse do mundo globalizado, ainda que, em alguns casos, este interesse se faça representar apenas por pequenos nichos de mercado.
Mas nisto de redescobrir o passado, nem tudo são rosas; este processo envolve muitas vezes o descurar de factos históricos, em função do lucro que possíveis distorções possam causar. A falta de escrúpulos é aqui passível de modificar todo um background cultural, ao incorrer no método de tratamento de informação descrito na distopia de George Orwell, “1984” (1948): “aquele que domina o presente, domina o passado”.
Dentro desta “noviformulação” de conteúdos, uma das histórias mais recorrentes é sem dúvida, a do rock progressivo ter entrado em letargia com o aparecimento do movimento punk, marcado pela edição do álbum dos Sex Pistols, “Never Mind the Bollocks Here's the Sex Pistols” (1977); tal afirmação põe no entanto em causa, toda uma variedade de aspectos que convém aqui ressalvar: não podemos ignorar a influência e grau de aceitação das demais correntes musicais como o disco-sound, o country-rock, ou ainda os primeiros passos do heavy-metal; o próprio rock progressivo é várias vezes confundido com um dos seus subgéneros, o rock sinfónico, ignorando-se todos os outros subgéneros que viriam, alguns deles, a ter os seus anos dourados em décadas posteriores; os Sex Pistols tiveram em Peter Hammill – músico ligado à música progressiva, quer através da sua carreira a solo, quer enquanto membro fundador dos Van der Graaf Generator – e no seu álbum “Nadir's Big Chance ” (1975), uma das suas principais influências; “Never Mind the Bollocks Here's the Sex Pistols” foi uma afirmação cuja importância estética é indesmentível, porém falhava redondamente enquanto manifesto de uma geração – ficou a anos-luz de “Animals” (1977), álbum dos Pink Floyd onde a revolução se fazia inteligentemente através da análise estrutural da sociedade, recorrendo para isso a analogias entre a sociedade actual, a estrutura social feudal e algumas ideias de Orwell e Marx.
Mas haviam outros álbuns a assegurar a vitalidade e longevidade da música progressiva: “Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos” (1977), da Banda do Casaco; “Gardenshed” (1977), dos England; “Rockpommel's Land” (1977), dos Grobschnitt; “Treason” (1977), dos Gryphon; “The Geese and the Ghost” (1977), do ex-Genesis Anthony Phillips; “Going for the One” (1977), dos Yes; “Expresso II” (1978), dos Gong; “Breathless” (1978), dos Camel; “Western Culture” (1978), dos Henry Cow; ou ainda “Of Queues and Cures” (1978), dos National Health.
Este último é claramente uma declaração de exuberância, um belo exercício de Canterbury dotado de uma escrita que embora complexa, nunca assume os terrenos estéreis da técnica pela técnica.
Fortemente guiado pelos teclados de Dave Stewart (Southsiders; Uriel; Egg; Hatfield & The North; National Health), “Of Queues and Cures” mistura habilmente o rock com o jazz, juntando-lhe ainda umas pitadas de humor bem ao estilo do movimento jazz-rock da Cantuária – ninguém com o seu juízo perfeito inicia um álbum com uma suposta dança para anfíbios (não são avançadas as designações das espécies envolvidas), repetindo a graça logo a seguir, com uma presumível dança caribiana, inspirada na célebre “Calypso”.
A loucura continua, encontrando um parceiro à altura nas constantes mudanças de tipo de compasso e consequente sucessão de ambientes, inimagináveis segundos antes.
“Squarer for Maud”, o único tema a ser composto no estúdio, é talvez o único tema em que se consegue ter algum discernimento para analisar, em tempo real, tudo aquilo que se está a ouvir: a banda lança-se num jogo de tensões, dilatando e comprimindo a intensidade do som a seu belo prazer.
As faixas seguintes, “Dreams Wide Awake” e “Binoculars”, seguem de perto este esquema de dilatação e contracção, sendo que “Binoculars” é ainda o tema mais “terreno” de todo o álbum, constactação que muito tem a ver com o facto de ser também a única faixa a estar provida de canto – como afirmou Brian Eno numa entrevista à RAI, em 1990: “If you have a picture of a landscape, you look at it and your eye moves freely over the landscape; if you put a human figure in there, even if it’s a tiny little one, it becomes the center of you attention, it’s very difficult to ignore, because humans relate to other humans.”
Reintroduzida pela onomatopeica “Phlakaton” – a versão, ou aversão, do baterista Pip Pyle (Hatfield & The North; National Health) a solos de bateria, cruciais, como se sabe, para o sucesso de um álbum – eis que nos vemos de novo diante da dança para batráquios, fechando o álbum de forma esférica.
“Of Queues and Cures” é um dos mais belos e desconhecidos exercícios de Canterbury, que, embora sendo um fenómeno tipicamente associado a um panorama específico (a ter em atenção os factores político, social, histórico e geográfico), iria conhecer outras metamorfoses em relação à sua proposta inicial, marcando fortemente o aparecimento do Rock In Opposition (RIO), pela mão pelos Henry Cow, Samla Mammas Manna e Thinking Plague, e o Zeuhl apresentado pelos Magma e Musique Noise.
© 2006 SP