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Mutantes Mutantes
Os Mutantes são responsáveis
pelo melhor rock psicadélico cantado em português, na dianteira de tudo o que
se passava na América do Sul, tendo sido recentemente descobertos por
americanos ávidos de novidades (David Byrne, Joey Waronker e Beck - Kurt Cobain
adorava-os), o que obrigou a reformular a importância das obras de excepção
não reconhecidas no seu devido tempo. Grupo libertário de mãos dadas com a
revolução Tropicalista, juntava os atributos dos irmãos Arnaldo e Sérgio
Baptista e da cantora Rita Lee. Falar dos Mutantes é descobrir uma caixinha de surpresas na esquina
de cada canção nos álbuns agora magnificamente remasterizados
(e infelizmente fora de catálogo) pela Omplatten,
uma simpática editora de Nova Iorque. A
música dos Mutantes nunca cá chegou em doses iguais
às dos mestres da MPB (nos primeiros concertos em palcos brasileiros foram
presenteados pelo público com tomates e outras riquezas), pois assumiam as
guitarras eléctricas, em estilo pop, e com uma frescura inigualável no
Brasil. Havia a benfazeja suavidade da Bossa Nova e o país iniciava um
período de ditadura cinzenta. Quem não conhece o delirante e espantoso hino
hiper-político-social, “Panis et Circenses”, o
melhor psicadelismo fora do prisma anglo-saxónico? Por favor descubram com urgência!! Este segundo
álbum, novamente e seguindo as pisadas do anterior, intitulado “Mutantes”, ao que habitualmente se acrescenta o ano de
fabrico (1969) é um documento essencial do rock criativo que não ganhou musgo
nas entrelinhas. Toda a discografia dos Mutantes, sem
excepção, está indiscutivelmente muito perto do essencial, incluindo as
aventuras progressivas de “Tudo Foi Feito Pelo Sol” e “O A e o Z”,
subsequentes à saída da risonha Rita Lee. Detenhemo-nos então neste segundo capítulo, inteiramente
orgulhosos da excelência dos nossos irmãos brasileiros dos anos 60. Frescura,
descaramento, ambição, invenção e subversão são sinónimos para os Mutantes. “Dom
Quixote” abre com orquestra não definida, desbravando feroz e imponente a
selva, no eco uma multidão pateta que bate palmas, o suspiro inaugural de
Rita Lee, ferrinhos, um texto “nonsense”
e tudo inquieto, em dois minutos a canção mudou tanto que parecem os Gentle
Giant, logo as guitarras bicudas e os Mutantes
enfiando-se no lado político da sua missão. O herói subvertido, “palmas para
o Dom Quixote que ele merece!!” grita Arnaldo, um
pedacinho de violino e uma risota geral, é isto a nova música brasileira?
(pergunta o novo inquisidor). Não há
tempo para indecisões, “Não Se Vá Perder Por Aí” tem a Rita Lee imitando um asno e o rock invadindo os nossos
corações com um soberbo refrão, pulando como um bando mafarrico de crianças
nos colchões da cama, ohhh alegre conselho, mal a
guitarra ácida-aguçada se esvaí
um violino matreiro dá um pezinho de dança e regressa o poderoso refrão preso
a uma guitarra acústica em descompostura. Genial (grita o adolescente
libertário). “Dia
36” é um ente chamado canção, o tambor ébrio que entra aos repelões, a
guitarra e a voz distorcidas pela alucinação, o texto escuro onde certas
palavras expressivas são acentuadas ou apagadas; se os Mutantes
segurassem algo de verdadeiramente extraordinário na música popular, seria
este perturbante “choro” (o mesmo para “Ave Lucífer”
do terceiro álbum, “A Divina Comédia Ou...”). Não há no inteiro território do
Brasil testemunho deste tipo de rock doentio, macabro, paradoxalmente
fascinante. “Dois
Mil e Um” dá a guinada e arrebata-nos com tão
peregrino e ousado arranjo. Ritmos nordestinos
intercalados com a electricidade psicadélica, o convidado Tom Zé com o
sotaque campestre e Rita Lee no tom citadino,
textos metafóricos sobre viagens espaciais na singela vida de um vaqueiro do
sertão, “astronauta libertado, minha vida me ultrapassa em qualquer rota que
eu faça...”, inflexões deliciosamente yé-yé, belos
tempos de outrora, o que foi feito, meu deus, da componente humorística no
rock de hoje? (lamenta o crítico de jornal paulista!) “Algo
Mais” e “Fuga N.º 2” são duas inevitáveis escolhas em qualquer antologia da
música brasileira; no primeiro a qualidade de propulsão excitante e plena de
vontade, frenético e perfeito “rock”; no segundo o lirismo melancólico da
insatisfação urbana, abençoado por um par de tímbales
aos solavancos e a orquestra em valsa aconchegante do mestre Rogério Duprat e acima de tudo...a voz de Lee,
Rita Lee, impossível é cantar melhor que isto!! (clama o amante do Tropicalismo). “Banho
de Lua” converte para português um popular êxito italiano “Tintarella di Luna”,
revitalizando e esgaçando a canção pateta com um desfile de efeitos perfeitamente
modernos, arranhões de ruído à la Sonic Youth, baixos tangidos com máquinas
de barbear, vertigens momentâneas de boogie-woogie,
enfim, uma óptima versão que só por resquícios se pode ainda reconhecer. E
“Rita Lee” com o piano-ragtime
a idolatrar a menina amada dos Mutantes, cançoneta
despreocupada sobre a importante puerilidade do amor, tão terna a homenagem
dos manos Baptista, tudo muito “rock-saloon”, uma
passeata saborosa à beira-mar. Já
“Mágica” é um exercício de rock majestoso e sobrenatural, só o riso com
varinha de condão de Rita Lee nos encarapela os cabelos da nuca, e tanto a guitarra
saturada de wah-wah’s como o piano preparado são
pupilos da magia libertada, há um fagote insinuante por ali a dar um sinal e
uma “drone” obsessiva do princípio ao fim; por
momentos visualizamos com nitidez a nave espacial que pousa trazendo as
criaturas com vestidos compridos, na sua beleza aterrorizante; e a coda final
rouba em repetição alguns acordes aos Rolling
Stones, numa citação inesperada. “Qualquer
Bobagem” restitui o trambolhão artístico, arranjos
anómalos e Arnaldo discursando em gaguez propositadamente galhofeira,
ceifando o romantismo de um encontro amoroso. Os Mutantes
com o seu “timing” certo de psicadelismo e canção
pop, nunca sofreram de facto a falta de inspiração que tolheu os seus
comparsas anglo-saxónicos, ora era o humor e o amor, a revolução e a
juventude, acima de tudo uma linguagem musical arrancada a toneladas de
inspiração. Se aparecessem hoje com um disco novo, talvez ainda agitassem as águas
do Brasil, ao lado de Ed Motta
e dos Pato Fu. “Caminhante
Noturno” (sic) com tal
resplandecente trompete barroco invocando o espaço mágico das grandes
planícies da terra de Vera-Cruz, é uma derivação do
tema inicial, “Dom Quixote”, mais assertivo nos seus propósitos, cavalgando
de rompante entre “acid-rock-guitars” e bateria
neurótica, as vozes sibilantes (Hello Syd Barrett!!)
e uma ordem de megafone a lembrar a incerteza dos tempos futuros. Nesse ano,
Caetano Veloso e Gilberto Gil eram convidados a saírem do país (direcção:
Londres), culpados de corromperem a juventude com as suas canções. Era apenas
a Liberdade. |
Referências: LP (1969) CD - Omplatten,
2 (1999) CD - Universal Music Latino,
7295 (2006) Faixas: 1. Dom Quixote [3:54] (Batista, Lee) 2. Não Vá Se Perder Por Aí [3:16] (Vilardi, Loyola)3. Dia 36 [4:01] (Dandurand, Mutantes)4. Dois mil e um [3:57] (Lee, Zé)5. Algo Mais [2:38] (Mutantes)6. Fuga No. II [3:42] (Mutantes)7. Banho de Lua (Tintarella di Luna) [3:41] (Fillipi, Migliacci / versão: Fred Jorge)8. Rita Lee [3:09] (Mutantes)9. Mágica [4.38] (Mutantes)10. Qualquer Bobagem [4:36] (Zé, Mutantes)11. Caminhante Noturno [5:11] (Baptista, Lee)
Músicos: Rita Lee - voz Arnaldo Baptista – guitarra-baixo, teclados Sérgio Baptista – guitarra + Rogério Duprat – arranjos Ronaldo Leme - bateria) Liminha - viola Outros créditos: Direção de Produção: Manoel
Barenbein © 1969 Áudio: Fuga No. II ::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: |