

MIOSÓTIS
O Monstro e a Sereia (2005)
______________________________________________________________
“O Monstro e a Sereia” é o nome do trabalho de estreia dos portugueses Miosótis, uma banda que, apesar de só agora enveredar pelas lides discográficas, têm já um passado de vários anos (embora nem sempre no activo). O núcleo duro desta banda, a saber, Álvaro Silveira, Paulo Chagas e Fernando Simões, são conhecidos de longa data que, num passado mais ou menos longínquo, formaram uma entidade musical chamada Miosótis. Esta entidade, embora artisticamente promissora, acabou por murchar sob o jugo implacável do destino… Mas não morreu! Terá apenas hibernado até este momento em que a mesma força que, outrora, se encarregou de dissolver o triunvirato, os junta novamente. Com efeito, estamos perante uma banda que é formada por três sócios da Portugal Progressivo – Associação Cultural (mais: o álbum em questão é o primeiro a sair com a chancela desta entidade).
Mas falemos da música que se pode ouvir nesta estreia (que, para além dos três intervenientes já mencionados, conta com a participação de vários músicos convidados).
Antes de mais, há que avisar os mais incautos para a natureza absolutamente desconcertante deste disco. Trata-se efectivamente de um álbum que, não sendo excepcionalmente virtuosístico em termos de interpretação, nem particularmente complexo ou intrincado do ponto de vista da composição, consegue, ainda assim, exigir bastante do ouvinte. Isto acontece por estarmos perante um trabalho que nos reserva bastantes surpresas: umas que atacam o ouvinte logo à primeira audição, e outras que só se revelam nos regressos que se fazem a este disco. Grande parte da estranheza que povoa este disco resulta da diversidade de quadrantes musicais a partir dos quais aquilo que aqui pode ser ouvido é composto: partindo de uma base folk-prog (com efeito, o nome Banda do Casaco vem ocasionalmente à memória) há espaço para rock bastante simples e directo, improvisações jazz (a roçar o free), toques étnicos, apontamentos ambientais, uso ocasional electrónica, e pura bizarria. Ainda assim, toda esta variedade acaba formar um todo coeso que, mesmo surpreendendo o ouvinte, não trai uma certa lógica que rege este trabalho. Porque há aqui, de facto, uma lógica que simultaneamente dirige e unifica as vertentes lírica e instrumental. “O Monstro e a Sereia” é uma obra conceptual sobre a vida e as relações interpessoais. E se, liricamente, estamos perante um excelso trabalho poético, pleno de uma beleza banhada em melancolia que chega a ser, não raras vezes, tocante; do ponto de vista instrumental, este estado de alma é perfeitamente continuado e complementado. A base folclórica desta música pinta-se, fundamentalmente, em tons acústicos, quase sempre de grande contenção, nostálgicos e até mesmo um pouco tristes. Mas a este cerne, acrescenta-se uma grande riqueza em termos de arranjos muitíssimo trabalhados que enchem o som, contribuem decisivamente para o ambiente e que (lá está) não param de oferecer novas sensações a cada audição. Apesar desta “predominância” do acústico, a audição deste disco não deixa de mostrar um certo dinamismo, potenciado pela ocasional irrupção súbita de momentos de quase caos sonoro, onde a calmaria melancólica dos acordes da guitarra é interrompida por atonalidades, dissonâncias, composição estranha e improvisação surreal.
Claro, haverão sempre aspectos menos positivos: poder-se-á apontar a produção, que nunca perde aquela feição caseira, ou as vozes algo limitadas (que não chega a ser um grande problema, uma vez que me parece que os próprios “cantores” conhecem as suas limitações, furtando-se, por isso, a grandes “avarias”, mantendo um estilo sóbrio e discreto que acaba por funcionar bem), ou até mesmo discutir pontuais passagens instrumentais.
Mas nada disto chega a fazer grande mossa num trabalho que é indiscutivelmente meritório, original e enriquecedor do panorama musical português.
Confesso que demorei um pouco a “entrar” neste disco e que as primeiras impressões não foram as melhores… No entanto, vim a perceber que não é um trabalho de fácil audição, mas que, em contrapartida, se revela extremamente recompensador para quem estiver disposto a despender a paciência e o tempo que o mesmo exige e merece. Trata-se, diria, de um excelente trabalho de autêntico “Progressivo Português” – não só por ter sido feito em Portugal (isso será, porventura, o menos importante), mas por sentir que capta muito da vivência que, sendo seguramente comum a todo o humano, é sentida de forma muito particular por quem é de terras lusas. A melancolia, a saudade, o imaginário náutico de sereias, monstros e barcas; tudo isto faz parte da experiência de ser português e é impossível (sem querer cair num nacionalismo bacoco) não nos revermos, ao menos um pouco, nesta poética.
© 2005 JTC