

MEN EATER
Hellstone (2007)
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A arte de uma boa partida, dizem-nos, está nos breves momentos que a antecedem. Dissimula-se esse acontecimento futuro (o momento zero), nem que para isso tenhamos de recorrer a um assobio cristalino ou a relatos de como aquela nódoa, a que temos na camisa, foi meticulosa- mente implantada pela senhora da cafetaria (devia dar-se ao respeito).
Imaginemos agora que a cafetaria é um género musical: o metal, por exemplo (dá-nos jeito, percebem?). Assim de repente, não nos ocorrem outras tipologias que tão bem tenham aliado o bom (continuamos a assobiar como quem não quer a coisa) e o mau (descobri aqui outra nódoa) dentro de uma única expressão, embora com várias ramificações.
No metal (a cafetaria, lembram-se?) inscreve-se alguma da melhor música produzida nas décadas de 70, 80 e 90. No entanto, e já com algumas nódoas à mistura, após 1994, o género começou a decair. O que fazer quando as soluções estéticas se começam a repetir ad eternum? O black-metal e o nu-metal não foram, certamente, a solução, embora tenham rendido umas belas maquias para quem soube ver, nas então bandas emergentes, autênticas galinhas de ovos d’ouro.
Houve, contudo, também quem se apercebesse da necessidade de mudança. Assistimos, já nesta década, ao aparecimento de diversos projectos que combinam o metal com o novo experimentalismo periférico. Nomes como Blut Aus Nord, Leviathan, Spektr, Xasthur (facção black-metal) ou Moss, Sunn 0))) e Wolfmangler (facção doom) estão a transpor as barreiras desses mesmos subgéneros e a fazer trabalhos verdadeira- mente inovadores.
Em Portugal, porém, a mudança é mais lenta. O álbum de estreia dos Men Eater comprova-o. Em “Hellstone”, o grupo faz discorrer habilmente vários ambientes que vão do stoner ao doom (uns Black Sabbath renascidos?), passando ainda pelo sludge ou pela vertente mais rock do grind-core: ouvem-se resquícios dos Entombed de “Wolverine Blues”, em “Drive Dead”, ou dos Carcass de “Heartwork”, em “Windy Horse”.
Mas dizíamos nós que em Portugal a mudança é mais lenta. De facto, embora “Hellstone” se possa incluir claramente na escola Kyuss/Mastodon, não vai muito para além desta, facto que, face à lenta recuperação do género, faz deste registo apenas mais um entre muitos. Falta-lhe então a audácia, a experimentação, em vez da reprodução de fórmulas que, embora actuais, continuam a ser fórmulas.
Atente-se no entanto, a eventuais atenuantes: os Men Eater, pela tenra idade dos seus elementos, têm ainda à sua frente uma tela predominante- mente branca, e se “Hellstone” não é a partida que a todos apanha de surpresa, também não é, de forma alguma, a nódoa que a todos envergonha. Pelo contrário, apesar da falta de arrojo, as suas qualidades estruturais (a dinâmica posta a bom uso, por exemplo) são indesmentíveis.
Sublinhe-se ainda a produção irrepreensível (ou pelo menos curiosa, como veremos mais à frente) a cargo da própria banda e de Makoto Yagui. Sublinhe-se. Sublinhe-se uma ou duas vezes e de preferência com caneta de cor, já que é ela, a produção, quem nos coloca perante o seguinte dilema: sendo a harmonia uma das principais bandeiras do grupo, seria de esperar que a exploração desta se pudesse comparar – inconscientemente, por favor – a uma pintura onde as dimensões são pensadas e pintadas, como se a sustentação do universo delas dependesse (o raciocínio levar-nos-ia longe). Em vez disso, “Hellstone” parece ser, na melhor das hipóteses e apenas nos momentos mais introspectivos, um resultado semi-instantâneo e, ainda mais grave porque disso temos uma quase certeza, algo genérico. Ora, ainda que a harmonia mais não seja do que um aglomerado matemático, onde cada equação terá invariavelmente de estar correcta, sendo por isso profundamente genérica, o resultado final tem de conseguir iludir, tem de ser mais do que a mera soma das várias partes. Ou seja, cabe à criatividade moldar o objecto para que este se possa distinguir dos demais.
É precisamente aí que reside o dilema que atrás anunciámos: será que a fragilidade harmónica se foi impondo, apesar de tudo, enquanto escolha estética ou será que a irrepreensibilidade da produção não é assim tão irrepreensível?
Alheamo-nos de uma possível resposta face à subjectividade da análise (saímos a assobiar como quem não quer a coisa) e ficamos à espera, esperançosos, que nos apanhem desprevenidos numa próxima partida. Pode até ser aqui, nesta cafetaria. Pode ser noutro lugar.
© 2007 SP