

MAGMA
Kobaïa (1970)
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Contrariando os detractores do rock progressivo, salientaremos a imensa e variada música produzida durante os anos setenta, e estigmatizada com o selo “a evitar” pela crítica “inteligente”. Após a amotinação psicadélica, ao rock não lhe interessava restituir o frívolo passado do rockabilly e da beat-music (ficaria então para o punk), tendo-lhe sido dada toda a legitimidade para se aventurar por novas e inexploradas regiões, absorvendo então os estilos clássico e romântico (The Nice, Emerson Lake and Palmer, Yes, Jethro Tull), e a linguagem contemporânea de Stockhausen, Berio e Messiaen (quase todo o krautrock), para além da improvisação do jazz ou da fuga acústica da folk e do blues.
Os Magma foram provavelmente um bocadinho mais longe: para darem verosimilhança ao seu universo inventado (Kobaïa, a muitos anos-luz do nosso sistema solar), criaram um alfabeto tão intrigante e fascinante como os de Tolkien ou Lovecraft.
A gesta que cantam no seu álbum de estreia, “Kobaïa”, revela um pessimismo desesperançado e que parece abranger todo o universo, conhecido e desconhecido. Nada escapa a esta visão repleta de negros e (clamam os detractores) ambíguos simbolismos, nem mesmo o grafismo que acompanha o registo: uma garra de proporções desmesuradas que esmaga tudo em seu redor.
Tentamos escapar. Abrimos o booklet, mas em vão; agora é o grupo que, encenando poses superiormente rígidas, espezinha figuras despersonalizadas, enquanto desenha com as mãos, gestos de adoração a um sol negro. Nas suas vestes (o negro está na moda) decalca-se a temível garra que será a inconfundível marca do grupo.
Os Magma adoptam a identidade de terráqueos escolhidos a dedo para se juntarem a uma expedição interplanetária ao planeta Kobaïa, aproveitando a boleia numa das naves do povo nativo – é isso que se conta neste primeiro capítulo da história dos Magma.
Ainda pouco se adivinha da tendência operática que o grupo irá desenvolver em trabalhos futuros; por enquanto gira-se à volta do jazz-rock, que então emergia dos dois lados do Atlântico (Miles Davis e Soft Machine).
Todavia, os apuros vocais eram já desregrados e invulgares. Era a altura de uma nova música expressar um universo desconhecido: “Terra, por aquilo que nos concerne, (...) Tu destróis tudo aquilo que não compreendes. Sabemos que também serás destruída. A nossa música é dedicada à beleza que Tu ignoras e ao ódio da Tua evolução maldita. Para além do espaço-tempo, um planeta nos aguarda, Kobaïa. (...) Terra! Tu não és mais do que um esquecimento.”
Eis os fundamentos. Todos os cantos são em Kobaïano e “a música é deveras expressiva, para se que possa seguir o fio da narrativa.”
Para se compreender tal desesperante filosofia, torna-se imperativo que conheçamos primeiro o propósito dos eremitas, anacoretas e ascetas na sua condição de outsiders; junte-se uma sintética noção do descrédito existencialista de Schopenhauer, Heidegger e Cioran, e do romance pós-atómico de Ray Bradbury, Robert Heinlein e outros escritores da ficção científica mais brilhante.
Apesar do ódio apregoado, a música dos Magma parece-nos subitamente humanista, reflectindo as ansiedades dos nossos tempos (sim, o pessimismo de 1970 temia a tecnocracia desumanizada do século XXI), sendo assim uma meditação sobre o nosso futuro em forma de metáfora (“Uma Verdade Inconveniente” sem o cachet de Al Gore).
A introdução de “Kobaïa” é plena de convicção: a dupla baixo e bateria comanda um exercício de jazz-rock entrecortado por duras prestações de sopros e guitarra eléctrica, apaziguado aqui e ali, pelo piano lírico de François Cahen (que mais tarde fundará os Zao); convidam-se os terrestres desiludidos para se acercarem da nave que os levará ao planeta desejado; no epicentro da canção ditam-se palavras hostis e dolorosas em kobaïano; os mandamentos e a evocação do esplendor de Kobaïa, onde não faltam os “pensamentos agressivos dos emigrantes para com a Terra, exprimidos musicalmente pela guitarra.”

Assentando em propósitos tão megalómanos, a música dos Magma já não poderá escapar ao seu destino e, durante largos anos, Christian Vander conseguirá dar azo a uma larga profusão de estilos que darão corpo a um coerente e gigantesco puzzle sonoro.
Em “Aïna”, o ameno piano clássico faz levitar a nave no prelúdio da viagem, e antes da escala no planeta Malaria, os passageiros sentirão a nostalgia do rompimento com a sua vida anterior; após uma dança enérgica (flauta e saxofone em ritmos roubados à civilização Maia?), a alegria substituirá a trsiteza, e um canto gutural repetirá até à estafa, e em ansiosa delonga, o nome Kobaïa. Pois em “Malaria” é a Terra que se contempla, perdida como minúsculo ponto de luz no espaço sideral; os músicos, ainda em exultação instrumental, repetem o mesmo folclore de perigosas induções hipnóticas. Os Kobaïanos dirigem mais uma vez o seu rancor ao planeta que tudo aniquila, lembrando aos terrestres, o horror e a injustiça que por lá alastra.
Em “Sohïa”, uma flauta encantada eleva-se no céu nocturno de Malária, e há explorações instrumentais nos confins paisagísticos do pequeno e desabitado planeta. A guitarra semeia notas soturnas que serão mais tarde colhidas pelos sopros em melancólicas cantilenas. Uma marcha militarista e bizarra sobrepõe-se e corta o efeito de campo aberto. O dia nasce e a nave deverá partir de novo.
“Sckxyss” abre com a poderosa e intrigante voz de Klaus Blasquiz (inigualável na sua figura de Rasputin do rock), em refrega com o acervo instrumental – é uma chuva de meteoritos que varre a nave no seu caminho para Kobaïa.
Em “Auraë” (fechando o primeiro disco), chega-se à órbita do planeta almejado e deparamo-nos com um épico nascer do dia, inundando o horizonte com colorações subtis.
Prossegue o ritmo sincopado dos fonemas de Blasquiz, dançando loucamente como um dervixe demente: Carl Orff em espírito, a Mahavishnu Orchestra em compassos, danças tribais de congregações esotéricas – eis-nos onde ninguém antes esteve: Kobaïa (a bateria ribomba).
No segundo disco encontra-se a música (talvez) mais comprometida do álbum, ambiciosa no som e nos desígnios filosóficos. Os estratos sonoros são, aqui e ali, angustiantes e opressivos, mas paradoxalmente, as melodias são muito mais imaginativas. Os Magma nasceram para adorarem um sol negro.
O belíssimo “Thaud Zaia” começa e termina com uma espécie de “Prelúdio à Sesta de um Fauno”, de um Ravel interplanetário. São os primeiros momentos numa terra desconhecida; os nossos sentidos colidem com o que habitualmente sabíamos. Um dos emigrantes terrestres está enamorado - só ele sabe de quem ou de quê, só ele sabe como...
Em Kobaïa, a beleza a ninguém pertence: é um bem natural do qual todos podem usufruir. A guitarra acústica faz a sua aparição solene na atmosfera celestial de “Naü Ektila”. Para choque dos terrestres, a natureza do planeta parece considerá-los como intrusos: bongós e outras percussões conduzem-nos numa visita guiada pelas densas e gigantescas florestas de Kobaïa; porém, através dos cantos de mortificação dos terrestres, as maravilhas abrem-se à estupefacção dos emigrantes: a beleza é a morte do ego - a natureza aceita-os no seu seio.
Depois de um dia recheado de novas sensações, assistem a um baile de monstros, absorvendo as últimas luzes crepusculares dos sóis do firmamento. São livres, dando ensejo à sua alegria de viver.
Vem a noite, a guitarra acústica conversa sobre poesia com a flauta; a bateria ensaia um solo pensativo, como se uma banda militar fosse colhida pelo sorriso, perdida entre as lianas da selva.
Cuidado, porque “Stöah” não traz boas notícias... sim, os estafermozinhos na Terra descobriram, não se sabe como, a existência de Kobaïa e dos emigrantes terrestres; aos seus ouvidos cobiçosos chegou a notícia do Bem-estar e da Beleza de Kobaïa.
Os mestres Kobaïanos reúnem e avançam com uma decisão: Klaus Blasquiz espreita com a suas garatujas avant-garde, algures entre o grito abafado e a demência do discurso hitleriano, ladeado por sopros escuros, e sintetizando toda a paranóia humana, o desejo materialista de autodestruição, a divisão que aniquila contrapondo a união, que é a dádiva de Kobaïa.
“Stöah” é o tema aglutinador do álbum. O clima futuro dos Magma fermenta-se aqui em laboratório: aos seis minutos, um piano emerge com uma bondade que tudo dissolve; a flauta traz-nos a reflexão. Ficam provadas as extraordinárias capacidades destes oito músicos - os últimos segundos arrancam um sublime redemoinho de bateria/flauta/voz rítmica.
“Mûh” é o desfecho; uma ária de desilusão e regresso, num registo de ritmos acelerados e inesperadamente luminosos - um folclore admiravelmente agreste e dançável.
Os emigrantes terrestres retornam à Terra, expondo o esplendor de Kobaïa (Beleza, Bem Estar e Sabedoria), e convidando todos aqueles que os queiram acompanhar.
A resposta dos governantes da Terra é clara: ameaçam a destruição de Kobaïa.
O grupo atira estruturas rítmicas ao ar, num magnífico exercício de caos organizado. O fim faz-se a partir de uma amálgama de ruídos que depois convergem para uma máquina de triturar. Os emigrantes terrestres, sentindo-se encurralados, revelam o poder Stöah que haviam adquirido em Kobaïa, conseguindo assim regressar a este planeta.
© 2007 AJQ