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Legendary Pink Dots (The) 9 Lives To Wonder
Estes segredos guardamos em
casa, como um ritual iniciático e poucos terão ouvido falar deles, dado o
estado do mundo, convidando à alegria efémera e à mais cretina distracção.
Convocamos uma espécie de fuga que poderá não ser ascensional, há cheiro a
musgo e até as nossas botas de montanha escorregam nestes recantos.
Atravessamos paredes acentuadas pela passagem dos séculos, como os monges
budistas, as imagens não são as mais agradáveis... Viajar no universo dos Legendary Pink Dots (LPD)
poderá trazer graves maleitas, uma habituação a estas terras esconjuradas da
imaginação poderá isolar-nos para sempre do contacto exterior. Poucos
projectos actuais (ou coexistindo) desenvolveram tão significativo estatuto teórico-musical, ignorando as modinhas. Analisar os
escritos oblíquos de Edward Ka-Spel
(o profeta como por vezes escreve, talvez ironicamente), instigados pela
orquestra ameaçadora dos seus camaradas, é não acreditar na existência que
nos cerca (é fortuita ou é um desastre, um castigo) e então calmamente
esperar pela nossa combustão espontânea. Separados à nascença do rock
progressivo (ainda era vergonha nos inícios de 80), nunca desistiram de
encontrar as pontas cortadas deste mesmo rock que os mestres dos anos 70
esqueceram, obcecados que estavam na altura pela excelência dos moogs e o aumento das contas bancárias. Apanhando os LPD
desprevenidos na sua criação, os Genesis da primeira fase pré-Collins-na-bateria-e-clone-de-Gabriel,
aqui em “9 Lives To Wonder” (1994). “Madame Guillotine”
alcançaria o top-ten indie-qualquer-coisa-prog,
se os malvados dos músicos não fossem tão inusitados, isolando-se na ficção
científica mais apocalíptica, num canto do quarto tão Hammilliano.
Esplêndida canção, condutora de poros eriçados e comparsa daqueles portentos
que são “Dancing With the Moonlight Knight” ou “The Carpet
Crawlers”, contudo a voz de Ka-Spel
é Gabriel sussurrante, hipnotizante, com poucas
inflexões, mas a carga densamente cáustica e nefelibata está lá. Num ritmo
marcado a baixo fretless e percussão invulgar, Ka-Spel conta uma história medonha, pouca esperança (“we all fall down” repete
profeticamente), depois um saxofone como testemunha e o tema nos últimos dois
minutos a arrancar uma melodia indiscritível, de beleza
solar. Estamos numa expedição, como
nos discos dos Amon Düül II da primeira metade de 70. Madame Guilhotina
arrancou a cabeça do príncipe de um só golpe, este estrebuchando, as mãos
ainda pingando...Ka-Spel sabe gerir com elegância
uma narração macabra, logo de seguida atirando-nos para uma viagem cósmica de
grande apaziguamento em “On Another Shore” e em “Softly Softly” uma flauta convida-nos delicadamente à descida
algures em poiso campestre, milenariamente escondido dos olhos pragmáticos.
Já “Crumbs On the Carpet”
revisita outra vez
Selling England By the Pound (“we are what we eat” canta-se), maçãs a serem mastigadas juntamente com o
ritmo da percussão krautrockiana, inteligência ao
serviço da música. E aqui andando por todo o lado, um fantasminha
de Syd Barrett... Os sete minutos de “Hotel Z”
são melancolia Barrettiana, alguma prostração fez
com que o grupo ficasse na cama, reduzindo os movimentos, invocando sons
nocturnos de silêncio lunático, a atmosfera delicadamente fantasmagórica.
Depois “Oasis Malade” é
isso mesmo, doentiamente atmosférico, Ka-Spel
falando de uma dedicada rapariga, que partira para estudar as pirâmides da
Bélgica...”Levou-me alguns anos para perceber que não havia pirâmides na
Bélgica...”, é assim, é esta distracção sedutora. “A Crack In Melancholy Time” traz dor, a voz (quase) reclamando “count me out !!”, no eco as crianças que chamam e choram, um vírus e
uma guerra que se tem de ganhar. Teclados orgânicos e húmidos desgastam a
canção, os LPD estão a milhas da levitação dos Tangerine Dream de Phaedra, mas muito perto dos mesmos de Alpha Centauri e Zeit, quando os alemães ainda nos assustavam com ramos
partidos e vozes de demiurgos. “Siren” já é outra
loiça, uma fantasia balançada na pele dos tablas e
num clarinete-folk. Ka-Spel
consegue inexplicavelmente agradar com o seu canto sibilino, projectando
sementes ao vento, é uma voz-sorriso esta, não nos
massacra, nem mesmo na paranóia kafkiana de “Nine Shades To The Circle”, pesadelo
citadino, vultos de Münch arrastam-se pelos comboios,
olhos esbugalhados na demência. Em “Siren”,
a coda final é experimentalismo atmosférico e harmonium
(ou algo parecido), unindo a “The Angel Trail”, a típica balada contaminada com a doença Barrettiana: fuga precipitada para além das nuvens,
sonho, sonho...Claro que é evidente o contraste em “Nine Shades...”
onde a frase obsessiva “my life depended
on that train” se repete e o ambiente subterrâneo
interminável hipnoticamente subjugam os nossos sentidos, ao ponto de a
história relatada se tornar verosímil na sua estrutura sonora. Vozes
alteradas, micro-ritmos jazzistícos
(que mais tarde os LPD iriam aprofundar em Nemesis Online), pingos de percussão convocados sub-reptìciamente, AUM’s de
estação nuclear e uma bateria canguru para a última estação, “A Terra Firma Welcome”, e então não é o regresso? Desejado? Não, é o
regresso de facto, mas tudo fica em aberto, “Now I’m watching television and I see laughter in its eyes. I hear a rumble in the sky. They’re coming for their boy!”…Por
momentos, a voz de Edward Ka-Spel
é demente e efusiva: eles vão levá-lo!!! Mas quem são eles? (as respostas
podem ser encontradas no álbum posterior “Hallway
Of the Gods”, de inspiração Amon Düül II). Dêem um minuto e antes do
tema acabar, uma voz “goblin-like” vai proclamar uma
das duas frases preferidas dos Legendary Pink Dots (escrita ao contrário no livrete) :
“Find a Bin To Put It
In”. A outra é “Sing While
You May”. Está tudo dito. Um aditamento escatológico. |
Referências: CD - Soleilmoon,
30 (1995) Faixas: 1. Madame Guillotine [5:32] 2. On Another Shore [6:22] 3. Softly Softly
[2:05] 4. Crumbs on the Carpet [4:55] 5. Hotel Z [7:46] 6. Oasis Malade
[2:57] 7. A Crack in Melancholy Time [5:36] 8. Siren [5:30] 9. The Angel Trail [2:00] 10. Nine Shades to the Circle [10:22] 11. A Terra Firma Welcome [5:17] Outros créditos: © 1995 Soleilmoon |