

KULTIVATOR
Barndomens Stigar (1981)
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Ocasionalmente, deparamo-nos com discos assim. Trabalhos desconhecidos, de bandas obscuras, nos quais não depositamos grandes esperanças à partida. Depois, colocamo-los a rodar no leitor, e ficamos de queixo caído a pensar «como é que uma obra-prima destas não é mais falada?». No caso dos suecos Kultivator, é possível que o facto deste “Barndomens stigar” ser o seu único esforço de estúdio contribua para este desconhecimento.
Lançado em 1981, precisamente na altura da grande crise do rock progressivo (ou, pelo menos, do rock sinfónico; o que, para a inteligência musical dominante, ia dar ao mesmo), este é um daqueles trabalhos com potencial para devolver a dignidade e respeitabilidade ao género. E embora seja um álbum completamente conseguido a nível artístico e estético, a verdade é que a época (já) não era a indicada para a música complexa (daí a ignorância, e consequente esquecimento, a que foi votado).
Trata-se de um disco que promete ter algo para oferecer a qualquer apreciador de rock progressivo. Nos seus quase cinquenta minutos (contando com os dois temas extra da reedição em CD), estes talentosos músicos passam pelo sinfónico (excelentes solos de teclados), deambulações jazzísticas à escola de Canterbury, algum space-rock, RIO (escrita complexa), zeuhl (a incrível secção rítmica, com particular destaque para o baterista) e folk-prog (flauta incluída). A completar o ramalhete, a extraordinária voz feminina que ora entoa o conteúdo lírico do álbum (exclusivamente em Sueco), ora funciona como mais um instrumento, dobrando linhas melódicas da guitarra ou dos teclados (o exemplo máximo disto encontrar-se-á na faixa “Grottekvarnen”).
Mas o mais importante nem é o facto de misturarem estes géneros dispersos; o que realmente importa é a apreciável mestria com que o fazem. Estes músicos de Linköping não só conseguem criar um todo homogéneo, harmonizando os vários estilos sem choque ou dispersão, como conseguem aproveitar aquilo que os vários estilos têm de melhor.
Concretizando: poderá parecer estranho (ou mesmo impossível) falar numa banda que concilia com sucesso extremos como o sinfónico, por um lado, e o RIO ou o zeuhl, por outro. Os Kultivator fazem-no ao aproveitar o sentido melódico e o tipo de fraseado em solos do sinfónico, mas deixando de parte o excessivo exibicionismo, o sentimentalismo mais lamechas e o ambiente piroso que, por vezes, abunda neste género musical e que, naturalmente, o levou à exaustão. A estes aspectos “sinfónicos” aliam a composição mais intricada e complexa do RIO ou do zeuhl, mas nunca ao ponto de tornar o todo demasiadamente austero e denso, capaz de ferir e alienar o ouvinte menos habituado a estas sonoridades. Este todo, capaz de satisfazer “gregos e troianos”, é servido com uma frescura e uma energia absolutamente contagiantes e arrebatadoras.
A descobrir urgentemente!
© 2005 JTC