

KNOPFLER, MARK AND HARRIS, EMMYLOU
All the Roadrunning (2006)
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De raiz popular, a country music era por excelência a expressão popular da comunidade branca do sul dos Estados Unidos da América, que vivia paredes-meias com o blues e que se distinguia deste através da existência de uma menor restrição melódica, vozes mais nítidas e na não utilização de uma linguagem metafórica, uma vez que embora fosse música própria de gente humilde, esta fazia parte do grupo dominante, pelo que a sua ligação com a realidade não precisava de passar por vias indirectas para se exprimir.
Nascida nos montes Apalaches, a country music adopta normalmente, a forma de uma balada que relata uma história passada num universo estável (casamento, família, apego à terra, etc.), sem para isso recorrer a quaisquer imagens de dor ou sensualidade, e resulta, na sua forma mais primária, de uma mistura de numerosas correntes musicais: as diversas tradições anglo-irlandesas, a música dos negros e a dos emigrantes da Europa de Leste e da Itália.
Esta primeira versão da country music é inicialmente chamada de hillbilly music, ou seja, a “música do camponês”, recebendo mais tarde a designação old time music.
A partir dos anos 20, a country music começa a misturar-se de uma forma mais acentuada com o blues, nascendo deste casamento inúmeros sucessos tais como “The Wreck of the Old 97” (1924), de Vernon Dahlart, “Sleep Baby Sleep” (1924), de Riley Puckett, ou “Brakeman Blues” (1928) e “Memphis Yodel” (1928), de Jimmie Rodgers.
A tradição branca mantém no entanto a sua primazia, principalmente nos yodels e no aspecto tradicional das letras, levando esta a um progressivo arrefecimento do entusiasmo por novas fórmulas, ao mesmo tempo que força o surgimento de uma certa consciência da tradição Apalache da country music.
Nashville, capital do estado do Tennessee, assume-se como ponto central da tradição country, um autêntico El Dorado para todos aqueles que desejam triunfar no circuito mais purista. Em oposição, surge nos estados do Texas e do Oklahoma, uma subespécie que abre as portas que entretanto haviam sido fechadas em Nashville. O western swing surge por contraste à obra de um Jimmie Rodgers, adoptando um carácter mais negro, infeliz e confidente.
Música nitidamente orientada para a dança (formalmente inspirada no jazz), o western swing encontrou uma forte oposição nos puristas de Nashville; tratava-se de uma música “imoral” tocada em salas superlotadas, onde um público, muito mais exuberante que o das montanhas, podia dançar de uma forma demasiado sensual, e cujos músicos, ou pelo menos parte deles, não se coibiam de utilizar instrumentos recentemente inventados como a guitarra eléctrica ou a bateria.
Apesar ou talvez mesmo por causa do apego à tradição, Nashville permaneceu até aos dias de hoje como um alvo a atingir por parte dos músicos oriundos dos vários quadrantes da música popular.
Um dos casos mais populares aconteceu em 1968. Os Byrds, que nos seus tempos áureos chegaram a ser considerados como uma contra ofensiva norte-americana à música dos Beatles (mas que entretanto acabou por não singrar em solo britânico, muito por causa do mau concerto de estreia em terras de sua majestade, a 14 de Agosto de 1965, em Finsbury Park), tentaram a sua sorte em Nashville com o álbum "Sweetheart of the Rodeo", falhando este o alvo e os objectivos a que havia sido proposto, pelo simples facto de ser assinado por uma banda rock.
Os Byrds estavam agora em apuros. O desaire de Nashville havia sido precedido pelo falhanço inglês, e as versões eléctricas dos temas acústicos compostos por Bob Dylan, definhavam à medida que as guitarras acústicas iam perdendo protagonismo na obra do trovador contestatário da geração de 60, e autor de "Nashville Skyline" (1969).
À medida que a pulsão eléctrica ia crescendo em Dylan, crescia também o seu interesse por outras músicas. Em 1978, os Dire Straits editam o seu aclamado registo de estreia e Dylan vê em Mark Knopfler, o homem perfeito para o ajudar na criação de "Slow Train Coming" (1979).
Iniciava-se assim uma relação dualística de desejo e temor. De um lado estava uma quase impenetrável Nashville; do outro, um guitarrista que sabia ser paciente.
O jejum country durou até 1990, ano em que Knopfler se junta ao guitarrista Chet Atkins, na gravação de “Neck and Neck”. A partir daqui tudo seria diferente…
Os “adormecidos” Dire Straits voltaram a acordar no ano seguinte com o esteticamente divergente, “On Every Street”. Este combinava a country music, (“When It Comes To You”, “Ticket To Heaven”, “Iron Hand”), o blues (“Fade To Black”, “Planet Of New Orleans”, “How Long”), e o rock (“Calling Elvis”, “Heavy Fuel”).
Com a dissolução dos Dire Straits e o crescente sucesso da sua carreira a solo, que havia tido em “Sailing to Philadelphia” (2000), uma muito bem sucedida prova de fogo, Knopfler começa a gravar canções com a cantora country norte-americana, Emmylou Harris, ela própria também uma antiga companheira de estrada de Bob Dylan.
As gravações decorrem ao sabor da inspiração e conciliação de agendas. Tema a tema, sessão após sessão, "All the Roadrunning" vai tomando forma até estar finalmente concluído.
Nele, Mark Knopfler assume de vez o seu gosto pela country music (sem contudo perder a sua identidade forjada ao longo de quase trinta anos), enquanto Emmylou Harris continua igual a si própria; a sua voz permanece cristalina como que a querer enganar os anos que passaram desde a edição de “Pieces of the Sky” (1975).
O primeiro single, "This Is Us", garante desde logo o interesse por parte dos fãs dos Dire Straits, enquanto "I Dug Up a Diamond", "Rollin' On" e “Belle Starr” pendem mais para o lado de Harris.
Simples e sereno, aos 56 anos, Knopfler deixa bem claro que os Dire Straits já lá vão e que o futuro ainda agora começou.
© 2006 SP