

KING CRIMSON
In the Court of the Crimson King (1969)
______________________________________________________________
Existem discos que marcam indubitavelmente um tempo, que abrem novas concepções e fazem escola. Seria um passatempo cronologicamente interessante desenterrar dos meandros da história da música popular o primeiro álbum (haverá um?) a adoptar estruturas assumidamente progressivas, não só na advertência social que a palavra absorve, mas também e evidentemente no sentido de uma revolução musical, de algo que “progride”, uma “progressão” para um degrau culminante. Frank Zappa e Miles Davis com os seus séquitos de músicos deslumbrantes teriam contas a prestar (cada um na sua área), os Beatles teriam descoberto o “Shangri-la” nas possibilidades do estúdio em “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e alguns (estamos a pensar nos Soft Machine e Pink Floyd, principalmente) desenvolveram no seio das suas experiências psicotrópicas noções de música complexa e/ou improvisada. Em resumo, o rock dera as mãos ao jazz, à composição clássica, às etnias da aldeia global e até ao restante panteão das artes; como o adolescente que adquire um pensamento mais elaborado e espírito crítico, o rock tornara-se adulto sem o manto que inocentemente o impedia de inspeccionar a sociedade, intervindo e modificando-a nos costumes e valores. Nos anos 50, Elvis Presley melindrou o fundamentalismo religioso americano com o movimento erótico das suas ancas, os Beatles abriram os olhos dos “teenagers” com textos que obrigavam a pensar, renunciando à puerilidade da beat-music: “eu amo-te, tu és linda, yé, yé”...
Em 1969, cientes de todo o movimento sócio político, os King Crimson descobriram uma fuga para o rock com a estreia de “In the Court of the Crimson King”, um género completamente novo, o labor de um curandeiro nómada e amuado com o mundo, Robert Fripp. Para os compêndios da história musical fica a estonteante abertura do álbum - duas canções expressam a complementaridade de dois estados emocionais, num contraste raramente igualado desde então.
“21st Century Schizoid Man”, diário de distopia social, cruza um “riff” aterrador de guitarra eléctrica com saxofone em turbilhões de descargas possantes, um “proto-jazz-metal” de contornos psicadélicos justificando a negritude do poema de Peter Sinfield, um manifesto visionário (e em tudo actual) da alienação da sociedade humana, a um pé do abismo. A adrenalina desperta no meio das ruínas e do fumo dos químicos, a voz de Greg Lake é distorcida até ao limite no esgar psicossomático de dor (“innocents raped with napalm fire”), a bateria desorganizada é coração anómalo e o baixo segue passos opressivos; converge-se então para silêncios breves e indecisos que alternam com duras texturas improvisadas, ao que o “riff” volta à carga num epílogo ainda mais chocante: “nothing he’s got he really needs”. Pessimista e desesperançado, o texto de Sinfield não é nada meigo com o Homem enquanto maestro de tecnologias que paradoxalmente não aperfeiçoam a sociedade, servindo como instrumento de controlo por parte de regimes totalitários e tecnocracias cada vez mais subtis, na onda de uma letargia unificadora. A guerra desenfreadamente aniquiladora espelhada na frieza de políticos endeusados, o desprezo pragmático pelos poetas e pensadores como suportes sociais, a ciência como dogma autoritário - tudo é contemplado nesta síntese espantosa do nosso pior pesadelo, dos três pequenos versos desta canção um brilhante tratado poderia ser escrito sobre a falência humana. A coda final é um massacre como nunca se ouvira nos finais de 60 (de certo modo ainda não foi igualado até hoje) e logo a flauta substitui o saxofone, a demência urbana dá lugar ao recôndito bucolismo de “I Talk to the Wind”, uma espécie de folk melancólica em papel de aguarela enternecido pelo tempo. Onde era raiva claustrofóbica há agora resignação poética, a guitarra é sensível (escutem-lhe as deliciosas primeiras notas) e a flauta ocupa predominantemente a canção com um desempenho notável, cortesia de Ian McDonald, enaltecendo um sábio texto que Lao-Tse e Confúcio adorariam ler; até a bateria, de quando em quando algo seca (talvez porque mal captada), se deixa levar por ritmos de coração angustiado com as leis do mundo. Greg Lake terá aqui a interpretação da sua vida, ao lado de “Take a Peeble” na estreia dos Emerson Lake and Palmer (um ano depois da saída dos Crimson).
Introduzindo o “mellotron”, no futuro uma marca King Crimson (os Zombies também fizeram coisas bonitas em “Odessey and Oracle” com este órgão), o tema “Epitaph” acaba por condensar a frustração nefelibata do grupo. Os tímbales dramáticos encetam a marcha dos poetas, pensadores e profetas na condição de vencidos da vida; há um inegável gongorismo contristado no acento de Lake, aqui ou ali o ar é aliviado por ténues apontamentos instrumentais (o encanto metálico da bateria, um clarinete fúnebre), mas a marcha desiludida acaba por ressurgir em força redobrada, nunca um “mellotron” deve ter soado tão suicidário, levando o vocalista para o cadafalso. “Epitaph” poderia ter o papel de ponto fraco do álbum, mas como momento (excessivamente) solene fará sentido quando as últimas notas ecoarem na nossa degustação sonora e voltarmos a analisar o conjunto da obra.
Já “Moonchild” é o rosto da fantasia e da candura esculpida em canção, uma franzina homenagem psicadélica a Syd Barrett, inundada de gotinhas de percussão e fugas etéreas de guitarra ácida, ecos de reverberação e estudos de improvisação quase na barreira do silêncio. Ao segundo minuto já as palavras lisérgicas de Lake adormeceram e durante o restante tempo os músicos vão encantar-se meticulosamente a criar música concreta ambiental, um “Interstellar Overdrive” em dedinhos de paz.
O espírito gentil de "Moonchild" cessa e avança a genial canção que é o suporte e lápide deste álbum seminal na história do rock: “The Court Of the Crimson King” é, pela sua construção, tão bela como uma obra erudita ou um cântico étnico, porém o mistério subsiste... Quem é o rei carmesim, o hábil mestre das agruras do mundo ou simplesmente o próprio Robert Fripp que, como mentor e disciplinador do grupo, deu materialidade ao seu escape intelectual? Nada disso interessará se nos deleitarmos com a imponente musicalidade do seu “castelo-no-ar” e menosprezarmos as referências pseudo diabólicas dispostas no álbum. É certo que este pedacinho de sete minutos e tal convida a uma conjunção de sentimentos e estados de alma a que não é alheio o texto, uma colecção de vinhetas que supostamente ou descreve um mundo deslumbrante e terrífico, ou é a visão confusa de estados alterados de consciência. E não foi preciso desmesurado peso sinfónico para o apelo épico, apenas a dupla mellotron & bateria reunida para as pesadas portas verticais que se entreabrem magnificamente para o esplendor. Entre cada heróica ária do refrão celebrado pelo coro, Greg Lake em roupa de bardo descreve com acuidade, anunciando personagens brilhantemente caracterizadas por Peter Sinfield; como se de um gigantesco fresco se tratasse, desvelado acidentalmente por arqueólogos boquiabertos: a bruxa do fogo e o flautista púrpura, o saltimbanco e o guardador das chaves, o jardineiro e o menestrel amarelo, o sábio, a rainha negra, as marionetas dançarinas... E entretanto os sopros crepusculares de Ian McDonald serpenteiam nas sombras bruxuleantes da fogueira com a guitarra a trovar absorta nos seus pensamentos, o baixo passeando sorrateiro e os pássaros pousando nos pratos da bateria, munidos de flautas doces. Com estóica sobranceria, o “mellotron” toma a dianteira no caminho e diante das portas (agora mais leves) que se fecham, estacamos sem saída, presos para sempre na corte do rei carmesim.
© 2007 AJQ