JAN DUKES DE GREY
Mice and Rats in the Loft (1971)
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Sem lugar marcado em qualquer das tendências germinadas durante os anos setenta, o segundo álbum dos Jan Dukes de Grey é uma obra extravagante e por isso, e também por ter sido ignorada à nascença, uma terra nova a ser defendida pelos nossos ouvidos.
Agradavelmente faria sentido o epíteto , mas tememos que seja redutor e de facto, depois das primeiras audições, este objecto ambíguo torna-se difícil de arrumar nas estantes de uma ecléctica colecção. Possivelmente entre a loucura do krautrock (todavia são ingleses!), do rock psicadélico (guitarras ao alto!) e perto do rock progressivo (não há um único teclado aqui!), mas para alívio da nossa paciência, vamos ancorar na região do acid-folk, onde tudo é transformado mercê do poder de determinadas substâncias espirituosas.
A recente edição em CD do álbum escolheu David Tibet (Current 93, folkies góticos, gnósticos e esotéricos, cruzes…) para assinar o panegírico ao grupo, portanto, vejam do que aqui se trata e os círculos de amizade que as poucas cópias do antigo vinil percorreram.
Os Jan Dukes de Grey são do mais invulgar que já percorreu os estúdios de gravação, verdadeiros freaks entre o traje de saltimbanco-da-era-Tudor e o viajante-náufrago-espacial, armas em punho e na cintura, guardando o ouro de um bosque azulado, onde silenciosos passos lisérgicos nos arrastarão para a aventura, à nossa espera estão três temas épicos e desengonçados. Não é um convite para o chá das cinco, e se ocasionalmente uma melodia deleitável espreita na guitarra acústica, rapidamente é substituída por um sabre de ponta aguçada cortando a eito.
“Sun Symphonica” é um extenso hino ao astro, inicialmente há um passeio no parque e pés descalços, mas depois as coisas não começam a ficar muito simpáticas, a voz alienada de Derek Nay repete grotescamente a palavra “sunshine” assustando a flauta idílica. Será fruto da acção do sol setentrional, mais envergonhado do que luzidio, mas de facto a atmosfera amotina-se com os efeitos sonoros da guitarra eléctrica e do saxofone, descemos às catacumbas e cremos em algum mistério insondado, todavia a canção dá inesperada volta e uma pequena orquestra Mahleriana pontua um soberbo momento guiado pelo banjo, flauta e bongós, apetecível como o orvalho ao nascer de uma manhã caprichosa. De novo a voz apoquentada aos quatro ventos, um arauto entoando dilemas apocalípticos e obsessões do quotidiano místico.
Apesar do papel preponderante dado à guitarra eléctrica, dedilhada ao estilo de uma tortura chinesa, o uso peculiar das cordas, sopros e percussões criou maravilhosos e desmedidos contrastes, ainda hoje subversivos, nada aqui é “easy-listening” ou lugar-comum beatífico.
Quando “Sun Symphonica” ultrapassa os dezoito minutos, aclimatados já ao estado de sítio opressivo, somos neófitos a quem foi vedado o desfecho do ritual para o qual fomos compelidos. Sem avisar, um eco sinistro vai interceptar a canção, os aparelhos deixam de funcionar e vamos em voo rasante para “Call Of the Wild”. Há um certo amparo da fogueira a crepitar na clareira protegida, momentaneamente é folk condensada na improvisação, sem demora as vozes burlescas conjuram ladainhas irresponsáveis, inocentemente pérfidas, diversão de gnomos elegendo castigos a infligir à raça humana. E a bebida não é travo de mel a acompanhar, é o acre da menta e outras verduras arrancadas à despensa dos curandeiros.
“Call Of the Wild” é o morro para o desfiladeiro seguinte, a guitarra espasmódica em efervescência contínua (com mais volts do que a de Michael Karoli nos Can), efeitos de distorção, bateria e saxofone enfiando-se no mesmo jogo, assombro esquizofrénico, pânico real ou encenação ao estilo de ilustração novecentista da capa? Desde 1966 que o rock psicadélico havia resistido a isto, um pesadelo sónico de fobia animalesca, nem Syd Barrett previra este território, o gato Lucifer Sam era uma doçura irrequieta e os elefantes apenas efervescentes.
Levem uma camisa-de-forças para enfrentarem este álbum de poesia marcial, enterrado algures em campo incerto, algo de mágico e perigoso se evapora da sua audição e só uma legião de iniciados saiu sã e salva da experiência, não digam que não avisámos.

© 2006 AJQ