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Island

Pictures

 

  

 

Dentro da monarquia do rock progressivo, “Pictures” é um magnífico achado arqueológico, imponente e desafiante; álbum único do quarteto helvético Island, gravado num estúdio de Milão em 1977 e escondido anos a fio nas montanhas da Suíça, só em 1996 teve edição em CD na americana Laser’s Edge, revelando o seu sublime e tridimensional som, alumiando pequenos contos de ficção científica. Para já, a capa de H.R.Giger antecipa em dois anos o íncubo de “Alien, o Oitavo Passageiro” e com esta música inclassificável, desassossegada e teimosa, atmosférica, descreve um mundo semi-arruinado, devastado pelas águas, húmido e perigoso, com arcanos inscritos nas paredes das esquinas.

Introduction” empurra-nos às cegas para o lado de lá, coros e gongos soturnos abrem a adrenalina, ai de nós que não temos armas, a percussão multifacetada aproxima-se com alto nível de ameaça e logo alcançamos “Zero”, com teclados em espiral e um ritmo entusiástico, bela porta de entrada! O baixo do pedal em bicos de pés instiga precaução, é um aviso legítimo para tão abrupta surpresa; e a sonata galáctica volta com o piano cristalino enredado em sopros de bizarra elegância, algo muito perto dos seus contemporâneos Happy The Man; contudo mais perto da obra ao negro.

Um embate de tímbales e gongo força o tema seguinte (“Pictures” que dá nome ao álbum) antes do moog e a voz de Benjamin Jäger decifrarem mistérios na pauta; cada som é uma esfinge para os ouvidos, invadindo-nos com a força de um astro crepuscular. A polidez vocal sem qualquer aspereza bombástica “made in E.L.&P.”, a composição elaborada e comedida que perseguimos com prazer dependente; tudo brilhantemente equacionado por músicos consistentes, numa altura em que o rock progressivo perdia o centro criativo. Sintam o tecido a que chamam pele encrespar-se com o esmero posto no apontamento coral a 3 vozes para lá dos 3 minutos, no solo subliminar de saxofone (aliás sempre superlativo) ou com o órgão pensativo mais perto de Messiaen do que Bach a abrir uma metrópole em abóbada: “Sounds of the air-creatures, the whispering of the white branches in the blowing winds. It’s your well-know voice (…)”; e depois paisagens calcinadas pela chuva ácida, H.P.Lovecraft em espírito (como nos Magma, Weidorje e Shub-Niggurath), o sincretismo cósmico de Kurt Vonnegut, um ou dois aspectos de escura heroic-fantasy. O desfecho é um voo com os músicos a duplicarem subtilmente a melodia abissal que percorre todo o tema, o de maior quilate do álbum.

O admirável piano nocturno conduz com romantismo agreste os dois minutos no intróito de “Herold And King (Dloreh)”, talvez os E.L.& P. dessem uma das mãozinhas para compor este pedaço de beleza e horror, verdadeiramente intrigante quando comparado (por exemplo) com a longa e espalhafatosa sequência “Karn Evil” de “Brain Salad Surgery”. Quando Jäger murmura, canta e declama textos ao contrário com uma impressão diabólica e simétrica, algo se debate como num espelho; o sax soprano gesticula com o moog em fúria e a música torna-se asfixiante e sinistra, mas não explosiva; então a voz cria um “scat” rastejante e os saxofones, teclados e tímbales agarram-se às paredes esperando pela bonança, ainda há tornados de aflição instrumental levados pelo canto afoito, que retorna ao murmúrio e um “maelstrom” suave envia-nos à extensão arenosa de uma praia, iluminada pela lua. Há uma ligeira comparação com os delírios cósmicos dos Van Der Graaf Generator, mas a voz evita o paroxismo existencialista de Hammill, limitando-se a contar com sobriedade melódica, apesar de haver momentos emocionantes de resignação e dor soluçante na contemplação solitária.

Este clima opressivo é a marca que encerra o álbum na peça “Here And Now”, novamente convocando o inominável: “(...) again comes the monstruous General. He walks along in the pulsating rhythm of my shivering fear (...)”, ou seja, o Senhor das Trevas, o que tem muitos nomes. É uma suite, sem a extensão de “Supper’s Ready” dos Genesis mas com um tema similar, onde a voz abre possibilidades guturais num pesadelo de imagens apocalípticas e a composição tem liberdade para se expandir na improvisação e em sons tétricos retirados ao moog, bateria e sopros; a melancolia apodera-se aqui e ali dos contornos da canção, mas a parte final é de uma assumida luminosidade.

E a Laser’s Edge gentilmente brinda-nos com uma “bonus track” de 23 minutos gravada ao vivo em local desconhecido. Apesar da advertência ser no sentido do som não ter a qualidade de estúdio (o que não é verdade, continuando distinto com toda a paleta definida), é inegável que “Empty Bottles” merece inteiramente a inclusão nesta edição. A audiência terá arrancado ao grupo a farpela gótica de “Pictures” levando-o a uma desenvoltura tal que parecem os Soft Machine. Um baixo omnipresente impõe um campo de improvisação a uma miríade de instrumentos e o nível é equivalente à grande estirpe do rock fusionista com partes de estimulante concentração musical, o que só traz as melhores recomendações para o grupo, um daqueles “one-record-band” absolutamente a descobrir.

 

© 2006 António Jorge Quadros  

 

 

 

 

 

 

Referências:

 

LP – (1977)

CD – Laser's Edge, 1024 (2004)

 

Faixas:

 

1. Introduction [1:28]

2. Zero [6:13]

3. Pictures [16:51]

4. Herold And King / Dloreh (Dedicated to Irene) [12:13]

5. Here And Now [12:15]

n. In the Presence of Insanity

m. The Stillbirth of a Harvest

mn. Home (To Margrith)

6. Empty Bottles* [23:35]

 

*(faixa bónus da edição Laser's Edge)

 

Músicos:

 

Benjamin Jäger – voz, percussão

Güge Jürg Meier bateria, percussão

Peter Scherer – teclados, voz

René Fisch – saxofone, flauta, clarinete, triângulo, voz

 

 

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