

INCREDIBLE STRING BAND (THE)
The Hangman's Beautiful Daughter (1968)
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Andávamos todos de cueiros quando este tratado de magia foi lançado no agora muito longínquo ano de 1968. A Incredible String Band (ISB) justificava assim o seu excêntrico nome, arrastando aos seus pés diversas estrelas rock (Robert Plant, Rolling Stones e os próprios Beatles), que na altura afirmavam ser uma importante influência no seu trabalho. Certo é que todos eles se influenciavam mútua e secretamente, mas ainda hoje é saudável verificar a eficiência mística da ISB quando comparada à (ainda assim) obra-prima dos Stones (“Their Satanic Majesties Request”) ou às deambulações (ainda assim sinceras) do orientalista George Harrison (“Within You Without You” continua a ser uma peça decisiva no esforço de unir oriente e ocidente na música popular).
A ISB, naqueles tempos um duo acústico centrado nas personalidades fortíssimas e por vezes discordantes de Robin Williamson (um homem que até hoje não lançou um único disco medíocre) e Mike Heron, tinha despertado alguns anos atrás debaixo da influência de Dylan (Bob) e dos clubes folk da Escócia e Grã-Bretanha, ainda integrando Clive Palmer, um cantor eremita e construtor de banjos que vivia (segundo a lenda) num autocarro abandonado. Cedo o grupo se tornou no duo, logo após a fuga de Palmer para o Tibete e assim que Williamson regressou do Norte de África, com nova remessa de instrumentos étnicos, a mente em ebulição das novidades e o bolso vazio de dinheiro.
Subtilmente cosmopolitas, mas sem deixar escapar o território rural e escapista das lendas e rimas associadas ao imaginário obsessivo das recordações de infância e perfeitamente integrados no espírito da época, sobrevoando porém ao flower-power. Leitores de Tolkien e Jung, concebendo canções perturbadoras e sem refrão, baseadas no andamento imprevisível de uma sítar ou de um orgão de foles, chamaram a atenção da imprensa já no ano de 1967 com o segundo álbum, orgulhosamente intitulado "The 5000 Spirits or the Layers of the Onion", que foi visto como o duplo metafísico de "Sargeant Pepper's...". Enquanto os Beatles cantavam o quotidiano sócio-político e patenteavam o estrelato com uniformes coloridos, a ISB aumentava o caleidoscópio de cores, de sabores e tabulaturas para guitarras, refugiando-se no lençol obscuro da existência e na ingenuidade que é própria dos inspirados.
Basta de introdução, porque o que aqui nos interessa é elogiar "The Hangman's Beautiful Daughter", que influenciou significativamente o psicadelismo e a folk. Que fazer a um disco que começa com uma voz mista de raga matinal e desolação, atirando as palavras "The natural cards revolve ever changing" à nossa efémera condição humana, aumentando e sempre aumentando de intensidade, por entre guimbardas (jew's harp) em multi-tracking e uma sítar louca?
Parar. Ouvir outra vez. E mais outra. E outras tantas. Quem pôde produzir há tantos anos semelhante canção, que deixa de o ser para se tornar num desfile cosmológico dos sentidos. E no entanto, a doçura da voz é uma carícia e quem não gosta de carícias? É assim o início com "Koeeoaddi There".
Passa-se para "The Minotaur's Song" e o humor subitamente derrapa. Não são os desenhos de Picasso sobre o tema. O imaginário é grotesco, desde as vozes aos arranjos, é um cabaré perdido na aldeola de província mais longínqua e no fim há aplausos e piropos de acentuação vagamente nipónica.
De novo a poesia em "Witches Hat" e "A Very Cellular Song". Mas o tom poético é arrepiante, de induções fantasmáticas e estados alterados de percepção. É incrível como uma guitarra afinada para o século 16 (o das pavanas e Shakespeare) consegue transmitir tanta sabedoria e como essa sabedoria é arrebatada mais à frente por um tin whistle (pífaro) em estado de demência. A música da ISB vem deste modo, de patins e varinha de condão. Os 13 minutos de "A Very Cellular Song" são a prova de como uma canção enorme pode ser uma enorme canção, nem que seja em divisórias como uma pequena sinfonia, como aqui acontece. É uma obra-prima para caixinhas de música, todas elas programadas para abrirem com frescura benfazeja. É claro que estamos a falar da acção dos instrumentos e das vozes ("amebas are very small", diz-se num intervalo) e não propriamente de caixinhas de música, mas é ao que soa e soa a novidade. O fascínio é o da descoberta de um disco perdido, do qual só tínhamos certeza da sua existência por alguns insubmissos e pela inevitável cronologia da história musical.
"The Hangman's Beautiful Daughter" predispõe bem, coisa rara nos tempos que correm dado que Nem toda a gente pode ser Pascal Comelade. Mas certo é que o terceiro trabalho da ISB deverá ser incluído nos dez melhores discos da década de 60, se quisermos arrumar as coisas assim. Escolhemos por arrumá-lo num lugar cimeiro, desde que o ouvimos pela primeira vez, há alguns anos atrás.
"Mercy I Cry City", a canção mais Dylanesca do álbum consegue deixar o mestre americano bem pequenino, dado que nunca gravou nada deste calibre, com estes arranjos inspirados. O tema é o roubo da alma individual por parte da sociedade urbana, que os King Crimson repetiriam (de uma forma mais violenta) em "Pictures of a City" do seu segundo álbum "In The Wake of Poseidon" (1970).
Se o tema anterior traz referências, que dizer de "Waltz of the New Moon"? Nada do género se fez no tempo dos hippies, nada que transmitisse tão bem o momento da época, sem cair no sentimentalismo e arriscando-se a estar ultrapassado trinta anos depois. Nunca um harpsichord (cravo) soou tão violentamente nos estratos do nosso subconsciente e nunca tal voz (Williamson) se tornou tão aterradora e demente, falando de coisas bonitas: imperadores da china, águias a voar, a voz da mãe e caracóis debaixo de pedras. "The Water Song" vem no exacto seguimento em que o som de água a marulhar se torna perceptível. Desta vez, Williamson é o fac-símile de um bardo celta, criando estruturas sonoras tão fascinantes quanto as produzidas actualmente com a mais inovadora tecnologia. Aliás, a ISB ficou famosa pelo uso deveras simples do multi-tracking e seguindo as intenções do grupo que basicamente pretendia trazer a invulgaridade à canção, enchendo-a de pormenores e sons estranhos, esses que só uma orquestra rústica e acústica poderia produzir: kazoo (sim, muito antes dos Clã!), guimbarda, saltério, guimbri (rabeca do norte de África), pan pipe, shenai (oboé indiano), finger cymbals e dezenas de outras percussões, flute organ e os mais convencionais (orgão, guitarras e harmónicas). Na altura eram olhados de soslaio como multi-instrumentistas eclécticos e excêntricos, com os seus concertos ao vivo a serem, no mínimo, desconcertantes. Nunca prescindiam da presença de um tapete persa onde se sentavam, agindo constantemente com o público, que maravilhado ou surpreso, tentava corresponder. Conta-se que, num dos concertos, distribuíram apitos pela assistência que deveria usá-los em uníssono num dos temas.
O álbum fecha com três peças estranhas. "Three Is a Green Crown" é uma raga (agora vespertina) visto pelos olhos de um ocidental caucasiano com os mesmos postos a leste, onde mais uma vez a acção das palavras se torna insuportavelmente arrepiante e os instrumentos são seleccionados conforme o seu poder para agravar essa atmosfera saturante. As imagens vindas de estados alterados de percepção, surgem em catadupa e a sensação que fica é que este tema (como outros) foi gravado em puro êxtase, no estúdio. O produtor foi Joe Boyd (Nick Drake e Fairport Convention, por ex.), um dos influentes na vanguarda da altura e talvez o homem desejado, pois era inteira a liberdade que permitia às experiências musicais da ISB. "Swift as the Wind" continua o tom oriental, desta vez mais pesaroso e melancólico. Recordações de infância e solidão confessam-se à canção, num momento de puro exorcismo patético. Porém, o que fascina é que tudo isto parece sincero.
"Nightfall" na voz de Williamson, finaliza como um encantamento de feiticeiros (Gandalf ou Merlin como estrelas pop), tal é a vibração acolhedora das suas cordas vocais. Acompanhado apenas pela sítar e um bandolim, ambos criando escalas cristalinas, o tema é um cadeirão de embalar. As palavras, sentidas exuberantemente pela voz e os instrumentos beliscados pelos dedos. No fim, há quem pense que as cordas, efectivamente, se riem...
O último som que ouvimos é o da respiração de Robin Williamson, desaparecendo ofegante.
Foi bom estar com vocês, ouçam o disco e digam qualquer coisa.
© 2006 AJQ