HELDON
Stand By (1979)
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“Stand By” (1979) é o derradeiro disco de estúdio do grupo radical francês liderado pelo guitarrista Richard Pinhas (que seguiria uma carreira a solo), e apesar da sua acessibilidade em relação a álbuns anteriores, é um trabalho intenso e juntamente com o precedente “Interface” (1978) uma obra essencial do rock experimental francês. A estranheza começa com a imagem da capa onde paira um clima de inquietação devido à ameaça tecnológica (os Hedningarna teriam a mesma táctica em “Hippjokk” vinte anos depois); em “Interface” havia o capacete ocultando uma terrífica cabeça extraterrestre, em “Stand By” um ser envergando fato protector é momentaneamente paralisado por um raio no perigo de uma missão de contacto alienígena.
O tema que dá nome ao álbum arranca com um monstruoso ataque rítmico, traduzindo a ameaça num “riff” de guitarra cerebral e cortante em extensões repetitivas e circulares, como se fosse um voo de algo incomensurável sobre as nossas cabeças; essa vibração mantém-se durante cinco minutos, seguindo-se uma intensificação avassaladora do ritmo, com a ajuda da bateria e do baixo, respirando em grossos espasmos e num medonho e curto bailado; o “mini-moog” dá uma centelha, mas as doidas entonações rítmicas brotarão até aos 10 minutos, altura em que o “riff” negro da abertura regressa insuflado com um baixo espesso, liderando o batimento e a escala melódica; no fim um solo distorcido de guitarra eléctrica desmaia no espaço.
Por vezes espreitam os Magma no seu inusitado desrespeito pela história musical, com o tipo de música arrebatada (insensível dizem os detractores) que nos habituaram; há tiques (marcas cronológicas) dos grupos de “krautrock” alemão e uma confessada influência (entre estima e idolatria) dos King Crimson e do seu guitarrista Robert Fripp; contudo, o som tem uma qualidade idiossincrática, o que fez dos Heldon um grupo constante nos círculos “underground” criando escola nos Art Zoyd e nos Present, constantemente revisitado pelos gurus da “techno” e dos novos “electricistas” (vide os Air); por comparação, os Heldon estão para a música francesa como Moebius está para a banda desenhada.
O curto e irrequieto “Une Drôle de Journée” dá uma lição de deslumbramento electrónico, quantos grupos cheios de estilo gostariam de sintetizar neste pedaço três ou quatro sensações e a visão de um mundo novo. Nos escassos minutos o som muda como as estações, Richard Pinhas parece-nos potencialmente luminoso quando se acerca do moog e com a ajuda digital do “mestre” Patrick Gauthier (na altura teclista dos Magma) e do gorgolejar de Klaus Blasquiz (Magma, claro) fez brotar uma irresistível miniatura electrónica que intercala dança cósmica com avisos de painéis de controlo, uma “drone” de space-shuttle e a fuga de um astronauta; poderia ser a banda-sonora de “Dark Star” de John Carpenter ou “THX 138” de George Lucas.
“Bolero” é uma longa (mas nunca aborrecida) sequência, planante e hipnótica, subdividida em 8 partes ao longo de quase 22 minutos, cercada por “moogs, polymoogs, mini-moogs e sequenciadores”, arrebatada pela percussão “kölossal” (heranças dos Magma) de François Auger, fundamental na estrutura repetitiva e proto-sinfónica. Há um espírito que vai habitar nos futuros Art Zoyd e mesmo os Kraftwerk nunca possuíram combustível para tal viagem confinada à galáxia (aqui para nós e apesar de terem destilado a pop e a “dance-music”, a partir de 1977 espreguiçaram-se em camas de rede). No que toca ao bolero propriamente dito, com aquele ritmo assaz diabólico auspiciado pelo compatriota Maurice Ravel, só é experimentado ao de leve na abertura; depois o essencial é a hipnose rítmica ditada pelos instrumentos electrónicos e pela bateria. Observando as subdivisões do tema, a seguir a “Appréhension” há o tal breve rufar do ritmo “Raveliano”, após o que surgem “Recognition”, “Répétition”, “Rote Armée Fraction”, “Production”, “Distribution” e “Détérioration”, ou seja, obviamente os passos de um “tema e variações”, numa irónica visão com carga tecnológica, à lá “science-fiction”. Perdido no meio da viagem, um melancólico “vocoder” (muito apreciado na emergente “New-Wave”) atira lamentações às estrelas, o “Bolero” agiganta-se em cosmogonia de sequenciadores e a voz ténue (mas perceptível) de Klaus Blasquiz convoca um lirismo meditativo. Muito, muito bela é a derradeira parte com o compasso hipnótico imerso em delicadas pinceladas de percussão, algo de majestoso se vislumbra, um pequenino moog aterra na planície cheia de paz.

© 2007 AJQ