HEDNINGARNA
Kaksi! (1992)
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A entrada obstinada e sinistra de uma espécie de contrabaixo (provavelmente inventado) a fazer-nos eriçar todas as pilosidades do corpo e ainda por cima de mãos dadas com uma espécie de percussão martelada, podia ser a materialização imediata do terror nebuloso que paira sobre a capa do segundo álbum dos Hedningarna. Este é um disco mágico, um absoluto marco de referência do folk-rock que secretamente revolucionou a música europeia com esta perigosa explosão... E alguns bocados ainda não caíram!
Quando em “Joupolle Joutunut” as vozes arreganham o seu canto gutural, já parece a reunião das bruxas de Macbeth, depois as palminhas e a dança de roda, há qualquer consonância balcânica a emprestar um toque mais calorento ao susto inicial. Os Hedningarna estão aqui a criar um condomínio fechado, em que o porteiro é o Ciclope ou Golem dos morros escurecidos da capa. Quem souber a senha, será convocado. A senha é “Kaksi!” (Pagãos!).
Pagãos das sanfonas ferozes a tiracolo, das gaitas de foles esganadas, como se ainda o animal estivesse vivo. Senão que dizer da dança erótica no segundo tema, “Kruspolska” para a qual foram convidadas um par de caixas de ritmo sedutoras, uma sanfona-besouro, didgeridoos funky e guimbardas matreiras…Parece outra dança de roda com uma voz entre o decidido e o sorna a convidar os pares, diabo, isto até faria dançar o tipo mais conservador ou toda a gente da Capela dos Ossos em Évora. “Vottikaalina” é a festa global, estão as Vozes Búlgaras em velocidade vertiginosa, há quem não aguente, num estrato mais abaixo uma guitarra eléctrica ferve, há uma multidão barulhenta em celebração, até o metal das guimbardas passou para o disco e o violino é o único tipo normal ali no meio.
“Chicago” é um tema do líder e multinstrumentista do grupo, Anders Stake, mas há uma hipótese em mil dos Jethro Tull o terem composto numa noite ébria, tendo deixado a fita em casa desta gente. A flauta de salgueiro é a mais louca de que há memória! Certamente ainda há vida nesta flauta...
“Viktorin” é algo de sobrenatural, pesada carga das Valquírias a investir nas montanhas de gelo. É indescritível como três músicos conseguem criar tanto alarido vulcânico apenas com instrumentos acústicos ligados à corrente de um poste de floresta da Lapónia. “Aivoton” introduz os “adufes” escandinavos do extraordinário percussionista do grupo, Björn Tollin, uma espécie de músico tentacular, marcando microscópicos sons com o batimento dos dedos na pele. As mulheres cantoras vestiram as saias coloridas e vá de desrespeitar a ideia de que a música tradicional dos povos não pode ser reinventada. Incrível a Säckpipa (gaita de foles) a passear com quilos de percussão, oh adeptos do rock, ponham os ouvidos nisto!
E isto não dá a mínima mostra de querer serenar, pois “Ful-Valsen” fulmina (é caso para se dizer) a torto e a direito, a guitarra electrizante é o pedestal para o guitar-hero Hallbus Totte Mattsson estilhaçar o centro do álbum. A partir daqui já nada é como dantes, os Fairport Convention e os Steeleye Span estão de olhos esbugalhados a apontar lições, bem como todos os grupos de folk que pensavam que eram originais! Gaita de foles, guitarra vestida por Hendrix e bateria cheia de suor, o bastante para dar cabo da tradição valseira, de cima a baixo música bem maltrapilha a afastar todo o burguês de fato Armani. Autênticos lenhadores da música, ao desvastarem o folk descobriram sob a casca a sua essência perdida, como as abelhas descobrem o mel.
“Pal Karl” tem um lindíssimo intróito com alaúde e flauta, como se nos quisessem dizer que também aprenderam o factor lírico do contraste, mas deixem o tema correr e de repente uma lira (sanfona naquelas latitudes) vai cortar o deleite no lago, a paisagem vai tornar-se cada vez mais agreste com a catadupa dos tambores e o harding-fiddle (um violino nórdico com cordas simpáticas) a engrandecer a melodia herdada dos gnomos da floresta. Boa disposição, aí vem o assalto ébrio de “Kaivonkansi”, provocante e aos tropeções, com letra original a comprovar o agrado que é ser-se pagão, é quase um Pogues-in-motion, com mais quilos de criatividade que os irlandeses, principalmente no violino exímio, nas cordas e num “drone” que suporta a loucura.
Nos temas seguintes voltam as vozes femininas, frescas como a água das fontes, salientando os “r” e “s” dos alfabetos nórdicos (em “Skamgreppet” o texto até é delas) tecendo (sim, porque é mesmo uma tapeçaria, este disco) uma dança morna ao som escolhido a dedo das sanfonas e violinos (há uma colecção deles). A imagem que nos fica deste mundo é uma combinação do “Sétimo Selo” de Bergman com uma civilização pós-apocalíptica (esqueçam o Simon du Fleuve!). Em Grodan/Widergrenen até dá gosto ouvir os sons sintetizados dos teclados a acompanharem os instrumentos acústicos, as pandeiretas parecem folhas de árvores ao vento, palmas e flauta e guimbarda tudo em benigna fusão...
Deliciosa a guimbarda mesmo no fim a ter a voz principal e tudo o resto descendo em volume.
Já para a parte final do álbum, os Hedningarna optaram pelos instrumentais, mas nem assim adormeceram os pássaros nos ramos. Se ensaiassem em austera natureza, era uma festa ver a pardalada a adejar ao som das canções, as renas espreitariam à borda da floresta entusiasmadas com a efervescência electroacústica, os mochos e as corujas não dormiriam a sesta e as lontras, meu deus, não sei o que fariam (bichos mais espertos como se pode comprovar no Oceanário de Lisboa)...”Omas Ludvig” valeria por essa humana comunhão com a bicharada do bosque, numa tradição nórdica que vem de grupos como os Kebnekaise, Wigwam, Culpeper’s Orchard ou desse espantoso músico que é Bo Hansson, mas desta vez em andança mais acelerada, na direcção das estrelas, alumiados pela aguçada gaita de foles... Para levar a beleza límpida (cristal quente nórdico!) de “Kings Selma”, ouçam a eminência dos instrumentos tão celestialmente cotados para esta melodia e depois digam se isto não é uma lição de música.
Seguramente o melhor disco de folk fora do totalitarismo anglo-saxónico e provavelmente um dos cinco melhores do género.

© 2006 AJQ