HAWLEY, ALEXANDRA / MCFADDEN, JEFFREY
TERRY RILEY: Cantos Desiertos
(BEASER – TOWER - LIEBERMANN – SCHICKELE) (2002)
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TRULLY AMERICANA

Fundada em 1987 pelo alemão Klaus Heymann, a editora Naxos tem feito um trabalho impressionante no que diz respeito à popularização da música erudita, editando álbuns de excelente qualidade, a preços acessíveis e empregando estratégias de marketing realmente inovadoras (está sempre atenta aos jovens talentos e às lacunas do repertório fonográfico).
A Naxos possui ainda uma outra característica demasiado importante para ser relegada para segundo plano: o seu catálogo é um dos mais abrangentes, quer em géneros (dentro da erudição), quer em épocas, sendo que esta relação anda obrigatoriamente, sempre de mãos dadas.
Quando uma editora deste calibre decide editar pela primeira vez a peça “Cantos Desiertos” do compositor Terry Riley, uma das figuras mais importantes do minimalismo e autor da seminal peça “In C” (1964) – peça onde o compositor sobrepunha vários padrões rítmicos e melódicos, geralmente com durações diferentes, sobre um pulso que se mantinha uniforme para todos os executantes –, torna-se impossível escapar ao peso histórico aqui presente e imperativa uma curta introdução a essa corrente estética.
O Minimalismo musical terá então surgido nos Estados Unidos pela mão dos compositores La Monte Young (1935-), Terry Riley (1935-), Steve Reich (1936-) e Philip Glass (1937-), sendo mais tarde, uma influência incontornável para outros compositores tais como Arvo Pärt (1936-), Louis Andriessen (1939-), Michael Nyman (1944-), John Adams (1947-) e Michael Torke (1961-).
Esta corrente estética nasce a partir da contra-cultura nascida nos anos 60, articulando-se com todas as outras sub-culturas que propunham modos de vida alternativos e questionavam abertamente vários problemas sociais: a economia (movimento hippie); a emancipação da mulher (movimento feminista); ou o movimento pelos direitos dos negros que tinha como figuras de proa, Malcolm X e Martin Luther King.
Haviam ainda as influências vindas do Oriente, introduzidas pelos Beatles e mais tarde por Ravi Shankar, o que veio despoletar também o interesse teológico por parte do mundo ocidental, em relação às religiões e filosofias orientais.
O Minimalismo surgia assim como uma resposta estética e ideológica às instituições vigentes; as composições minimalistas confrontavam directamente quer a música de séculos anteriores, quer os valores estabelecidos pela vanguarda europeia, que por esta altura havia já sido ultrapassada pela sua própria postura - esta obrigava qualquer compositor a aderir ao serialismo para evitar a marginalização face à toda-poderosa ideia de que a história da música passava necessariamente apenas por aí.
Os compositores minimalistas revoltavam-se através da sua música desempoeirada, com um total desprimor pela vanguarda histórica, levando até ao limite, a repetição de sujeitos musicais. Escrevia Steve Reich no seu manifesto minimalista, “Writings About Music” (1968): “Eu não quero dizer processo de composição, mas sim obras que são literalmente processos. O que é distintivo num processo musical deste tipo é que ele determina todos os detalhes, de nota para nota, de uma composição, e toda a sua forma simultaneamente. Estou interessado em processos perceptíveis. Quero ser capaz de ouvir todo o processo a acontecer através do fluxo de toda a extensão da música […] Os processos musicais podem-nos dar um contacto directo com o impessoal e também um tipo de controlo que é pleno […] quando me refiro a um “tipo” de controlo pleno, quero dizer que, ao articular esse material através deste processo, obtenho um controlo absoluto dos resultados, aceitando também todos os resultados sem quaisquer mudanças”.
As obras minimalistas tinham assim como essência, a escolha de processos de repetição claros e perceptíveis, os quais articulavam e coordenavam toda a micro e macroforma da obra.
Peças como a aqui já referida “In C”, “Dorian Reeds” (1965), ou “A Rainbow in Curved Air” (1968) – os próprios Curved Air, juntamente com os Soft Machine, Mike Oldfield e Tangerine Dream, iriam inspirar-se nesta técnica de Riley) –, eram compostas através de um revolucionário processo de contraponto. Em “In C”, Terry Riley combinava um processo de sobreposição de padrões com um outro processo que permitia a livre “circulação” dos músicos, na medida em que os estes se moviam mais ou menos livremente pelo material sugerido, ao longo das 53 figuras que eram gradualmente introduzidas.
A peça de Riley incluída neste álbum, “Cantos Desiertos” (1993), pertence ao seu “Book of Abbeyozzud”, livro composto por 26 peças, cujos títulos têm como letra inicial, uma das 26 letras do alfabeto, e nas quais o compositor vai muito para além das experiências minimalistas por si também desenvolvidas na década de 60.
De inspiração latina – os nomes dos temas são todos em castelhano e até existe uma referência a D. Quixote – e escrita para guitarra e flauta, “Cantos Desiertos” reflecte ainda o interesse por parte do compositor em relação à música tradicional indiana e à improvisação jazz. O momento alto da peça surge em “Francesco en Paraiso”, pequeno episódio dedicado à memória do compositor e contratenor francês Royon le Mee, no qual Riley utiliza um esquema ABA (tal como havia utilizado em “Llanto”), sendo que o início e o fim são de uma delicadeza extremamente comovente, limitando quase fisicamente a parte central que se apresenta muito mais livre, numa espécie de combinação entre as estéticas de John McLaughlin (Miles Davis, Mahavishnu Orchestra) e Ralph Towner (Oregon, Winter Consort), aqui brilhantemente defendidas pelo guitarrista Jeffrey McFadden.

A OUTRA AMÉRICA

O peso histórico de Terry Riley reflecte-se não só na audição, como também no próprio grafismo desta edição; uma designação que englobasse as duas características presentes em todas as peças, como o são a exploração dos universos da guitarra e da flauta, e a meditação sobre as paisagens agrestes do oeste norte-americano, seria muito mais apropriada, mas o editor achou por bem apenas referir Riley na lombada e capa do disco, tendo em conta os seus desígnios comerciais, quando na verdade este álbum é composto por obras de cinco compositores diferentes: Robert Beaser (1954-), Joan Tower (1938-), Lowell Liebermann (1961-), Peter Schickele (1935-) e… Terry Riley.
A audição inicia-se com uma selecção de quatro dos oitos temas que compõem a totalidade da peça “Mountain Songs” (1986), da autoria do compositor Robert Beaser. Estas canções assumem logo à partida, uma enorme dívida para com a música folk, estruturando-a em composições que apresentam texturas riquíssimas e estórias por detrás do pano que importa desvendar: “Barbara Allen” conta a estória de uma rapariga que devido ao seu orgulho deixa morrer o seu amado; “The House Carpenter” lida com as infidelidades de uma mulher com um carpinteiro, com quem vem a fugir mais tarde; “He’s Gone Away” transpira angústias; e “Cindy”, tema que pega no swing anteriormente demonstrado na parte central de “He’s Gone Away”, é o espelho perfeito da jovialidade primaveril de uma rapariga.
Segue-se a peça – em escuta - “Snow Dreams” (1983), de Joan Tower. Quando jovem, Tower passou alguns anos na América do Sul, onde aprendeu a apreciar a guitarra e o Inverno – este último pela inexistência do mesmo sob o ponto de vista romântico do postal ilustrado. De resto, esta temática sazonal havia já sido utilizada em “Petroushkates” (1980), peça onde a compositora fundia os “trejeitos” de Stravinsky, à imagem mental de um esquiador anónimo que havia observado nas olimpíadas de Inverno de Lake Placid.
“Snow Dreams” também explora esta temática, mas fá-lo de uma forma mais genérica. Aqui é a própria figura do Inverno a ser retratada nos flocos de neve que caiem lentamente sobre a paisagem em redor.
Esta imagem é mantida por um conjunto de três desenhos feitos pela guitarra de McFadden: o primeiro é tocado perto da ponte ou cavalete (sul ponticello), conferindo às notas um timbre mais claro; o segundo é tocado junto à roseta, apontando o ataque das cordas directamente para a boca da caixa de ressonância; e o terceiro junto à escala (sul trasto), de forma a conseguir um som mais cheio.
Imaginamo-nos no Minesota. O ar é tão frio que, ao fendê-lo com a mão, quase se ouve tinir. A neve espessa abafa por completo os nossos passos e à nossa volta, a paisagem é inteiramente plana e de uma só dimensão, artificial.
A cada frase de “Snow Dreams”, algo muda e algo se mantém. Enquanto caminhamos pela neve, mudamos o panorama ao infligirmos golpes na neve, mas estes são apenas ténues quando relativizados. O papel da flauta (Alexandra Hawley) resume-se, nesta fase, à sustentação das notas chave dadas pela guitarra (as notas dadas pela flauta são como que pegadas na neve deixadas pela guitarra), até ao momento em que McFadden termina a sua cadência e Hawley emerge a solo na sua própria cadencia.
A peça tem como base uma escala octatónica, muito ao gosto de Igor Stravinsky, na qual existe uma alternância entre tons e semitons: 1, ½, 1, ½, 1, ½, 1, ½. Matemática à parte, esta escala permite nivelar a importância das diferentes alturas das notas. Por exemplo, se a peça fosse construída tendo como base uma escala de dó maior, a nota dó seria imediatamente reconhecida como sendo a nota mais importante e o ponto óbvio para onde convergiriam todas as frases. O crescimento de uma frase numa peça baseada numa escala de uma tonalidade maior é medida através da sua amplitude: até onde chegamos, antes de voltarmos à nota tónica. Por seu lado, numa escala octatónica, esta progressão é feita através de outros elementos tais como o ritmo ou a criação de texturas que procurem essa sensação de progressão.

A EUROPA SEMPRE À ESPREITA

Depois da estrela da companhia, Terry Riley, chega a vez de Lowell Liebermann.
Liebermann é conhecido sobretudo como tendo sido o compositor da ópera "O Retrato de Dorian Gray" (1996), baseada no livro homónimo (1891) de Oscar Wilde (1854-1900), que relata o temor de um homem perante a velhice, bem como a influência negativa que as pessoas erradas podem ter sobre um ser humano. Para obter a juventude eterna, Dorian Gray abre mão da sua alma, não olhando a meios para atingir os seus fins.
Neste álbum, Alexandra Hawley e Jeffrey McFadden interpretam a “Sonata para Flauta e Guitarra, Op. 25”, de 1988, a qual se desenrola em dois andamentos, “Nocturno” e “Allegro”.
O primeiro andamento joga com as tonalidades maior e menor, conferindo à peça um ambiente muito ao jeito do romantismo do século XIX. O segundo anda mais perto da folk norte-americana e das “Desert Mountains” pintadas por Alfred Mitchell (1888-1972), que servem de capa a esta edição. No entanto, a forma como Liebermann as retrata, é declaradamente europeia.
O álbum termina com um conjunto de três peças para flauta e guitarra, intitulado “Windows” (1966), de Peter Schickele. Aqui podemos encontrar as renascentistas “Pavane” e “Cantilena”, que precedem a apaixonada, e com um certo sabor latino, “Refrain”.
Hawley e McFadden mostram-se completamente à vontade em todas as peças e estilos, atenuando as diferenças existentes entre as sonoridades próprias de cada compositor, mas não ao ponto de retirar a este álbum um certo sabor de ecleticidade.
Este é com toda a certeza um álbum para quem minoriza o papel destes dois instrumentos.
É bem provável que, no final da audição, mude as suas convicções.

© 2006 SP