HAMMILL, PETER
In Camera (1974)
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Reza a lenda que Peter Hammill foi atraído para a gravação do primeiro álbum dos Van Der Graaf Generator quando pensava em editar um primeiro disco a solo. Considerando os resultados incomparáveis da empresa Van Der Graaf, será bastantemente consensual a bondade divina de tal desvio.
Contudo, tal gesto não abre grande espaço para considerações do género “e se...”, já que as expressões musicais a solo de Hammill se iniciariam pouco depois, ainda na vigência do reinado Van Der Graaf. E é fácil verificar que, mesmo nos movimentos de reacção e aproximação ao espectro sonoro da banda que se podem ler nos seus primeiros trabalhos, a expressão a solo de Hammill se dedicou a dimensões estéticas (sonoras e líricas) diversas daquelas encetadas, concluídas, irrepetíveis e benditas para todo o sempre, com os seus parceiros de inconcebível aventura transcendental. Facto tanto mais fácil de comprovar quanto temos nos seus trabalhos a solo registos feitos com os restantes Van Der Graaf, e que produzem resultados esteticamente outros daqueles que esperaríamos de um disco pelo colectivo assinado. A marca Hammill inscreve pois um outro universo.
E, sem querermos pronunciar-nos sobre a lei que dita que as devoções a ex-membros de agrupamentos seminais são uma reza a um deus menor (mas francamente, como é que se compara o que estes senhores fizeram com qualquer outro som humano?), neste registo encontramos uma curiosa revisitação dos Van Der Graaf que nos sugere que não se compara aquilo para que não há termos de tradução.
Saído em 1974, este disco dista cerca de 5 anos do opus 1 dos Van Der Graaf, “The Aerosol Grey Machine”, no qual ainda eram apenas humanos. E contém, para nós, uma das mais belas peças (chamemos-lhe canção, bolas, que nunca foi arte menor, como este senhor que entreviu mais mundos sempre soube), do repertório a solo de Hammill, a inaugural “Ferret and Featherbird”. Ora, a curiosidade é que ela já havia sido gravada no tempo daquele opus 1 (estando incluída em bónus de algumas reedições em CD desse álbum). E se na genética vive muito potencial, a sua realização humana é outra conversa. E o “Ferret and Featherbird” no In Camera nada tem já a ver com aquele anterior. É certo que não é por Hammill ter feito a solo algo superior a algo que os iniciáticos Van Der Graaf produziram, que a sua senda a solo é redimida (salvo seja). Mas é mais certo que este tipo de expressão sonora já não é algo que os Van Der Graaf realizassem. O seu universo era outro. A questão chave para quebrar o vício da comparação é, como sempre, a diferença. Esta peça transmutou-se em puro Hammill, do mais puro visto. Toda a ambiência da canção (e carece esforçar o tímpano a captar a ressonância de uma guitarra acústica para percebermos o que aqui ainda conserva resquício das regras de ser de uma canção) é feita de cintilares sonoros, fantasmas de guitarras a ecoar de todos os campos em glissandos transcendentes, que constituem fímbrias de matérias outras que apenas ouvimos entrecortadas, para toda uma outra ressonância original respirar. E nesse manto estrelado a voz de Hammill, na mais bela melopeia, resplandece, como que a desenhar a via láctea num céu de luzes humanas impoluto, para mais o contraditório humano sentimento resguardar da dor da sua impressão, já que só “time and distance make a love secure”. Só isto, mas apenas só isto, redimiria toda a obra de Hammill, coisa que dizemos ridiculamente, pois “isto” é amostra do quanto redenção é coisa de que essa obra não carece.
Depois deste deslumbre verifica-se que o álbum não prossegue o encantamento que fugaz, como em todas as profecias, se revela (mas por tal perdura), a pretender guardar-nos na sépia da fantasia do decair da carne. Logo de chapão nas duas faixas seguintes se verifica que aquela maravilha que nos foge era a gémea ameaçada de um húmus de experimentalismos novos no universo de Hammill, na sua vertente mais electrónica. Com praticamente toda a instrumentação a seu cargo, a textura do álbum é toda de um sobrecarregar esborratado de overdubs de instrumentália básica e das electrónicas contemporâneas densas. Todo o modus operandi confere ao disco uma sonoridade espessa ao absurdo, palpável na sua crueza e audível volumetria, em que camadas sonoras se atabalhoam para alcançar primazia, numa espécie de selvática lei do mais ressonante. A própria guitarra acústica, nas suas eventuais aparições a relembrar donde possa ter brotado, iniciática, uma composição, surge deslocada num maëlstrom onde nada tem pé seguro e incorpora reflexos deformados de ameaçadoras transmutações outras que a senda de Hammill encorpará crescente de proporções formas e fôlego ensandecido ao passo dos minutos: “and the vortex sucks me in/Steeped in sin I die/but am reborn”. Métricas, marcos de sinalização, tudo o que ancora a audição se dissolve num pântano ácido de corrosão sonora, numa massa disforme, a imprimir marcas violentas, opacas e inquietantes nas câmaras de som.
A própria voz é violentada, violenta (nos extremos expressivos que incorpora o timbre de Hammill), e refractada num processo que enuncia na sua fisicalidade sonora o derrapar quase esquizóide, voluntarioso nas areias movediças da impotência e da consciência (“I’d gladly succumb to the wave/if I thought the water taught the way to light/ (...) and it’s easy to believe what the preacher says/except for the conflict raging between my head/ and my brain”), da busca de âncoras de onde pronunciar o que é esse “ser” humano. O seu exemplar mais eloquente irrompe aberrante na distorção de “Tapeworm”, onde um coro fantasmático de Hammill desmultiplicado de si dá corpo à visão de uma identidade em estilhaços em busca de sentido, desde a criança que preenche de criaturas e paisagens os escuros resguardos do propício quarto nocturno, ao deus incompreendido capturado num hospício ao verter-se e prender-se em corpo terreno para decretar a santidade nas vielas sifilíticas, até ao risco da perdição (perdições) pela possibilidade de um vislumbre do que jaz além (“I am a man from the country of destruction/I am a man a woman and a god/I am my own weapon of kamikaze/And will one day cut through the/hidden knot”).
O portento esmagador deste processo é precisamente a faixa final, em que, nos movimentos ciclópicos e atordoantes de anúncio e recuo de um deus desproporcionado de professa omnipotência, que se desvela ou se cria no temor e devoção emanados do mesmo engano descabelado que organiza a incapacidade humana de lidar com o que lhe escapa, ecoa todo o universo ameaçador em que Hammill a espaços se instala, abarcando assim no seu registo lírico o relevo da mais ínfima dor humana bem como a sua irrisória condição escarnecida por ignotas e pressupostas forças maiores, que o poeta apenas esgravata para mostrar as unhas encardidas de tentar ser. Até que dessas inescapáveis revelações projectadas toneladas ao nosso corpo mindinho, nada resta senão melífluos miasmas sonoros da fatalidade, a relembrar que só na consciência do irreversível dos nossos passos se podem antecipar as quedas nos abismos mapeados. “Depois”, é sempre “too late to smother out the tell-tale footprints/which mark your passage through the greying snow”.
Mas é nas duas faixas anteriores a esta que o experimentalismo que faz a singularidade deste disco se une com o lirismo inescapável do seu autor, que, sendo o outro extremo do seu universo sonoro, também tem aqui o seu exemplar procriador (pois dele se carece para criar o híbrido) em “Again”, pura balada hammilliana de perda constitutiva, no seu registo mais inquisitório dos doridos da existência, a reclamar da dor presente a consciência perene do passado que organiza o ser hoje. Em “Faint-heart and the Sermon”, e “The Comet, the Course, the Tail”, Hammill ejecta para um registo cósmico o existencialismo feroz que, recorrente, incorpora o que o faz autor de excepção. A humana condição, na sua mais íntima e encarniçada inquirição, é o que este homem de si dá. E quanto mais alcança, mais diz estar aquém (“And the knowledge that we gain in part/Always leads us closer to the very start/and to the founding questions”). Ele, connosco. Pois se pudesse ser conformado a um lugar, a uma crença, atribuídos no mundo, “then doubt would never cast a dagger in my back”. Mas sabemos que só o podemos ser na antecâmara da reflexão. Dado o primeiro passo, In Camera, e os ulteriores que este homem não cessou de dar, trôpegos, desesperados, impotentes e irados, as cicatrizes já não têm conta. São o corpo derrotado de antemão pela mesma inquirição que (talvez...) o torna maior.

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