

HAMMILL, PETER
Chameleon in the Shadow of the Night (1973)
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Existem obras que se projectam no futuro enquanto verdades absolutas ditas antes de tempo. São verdades pessoais, análises do presente projec- tado no futuro e indagações sobre o caminho que une ambos os pontos.
A gestão dos vários acontecimentos que se vão acumulando nesse caminho é, por assim dizer, o tema base de “Chameleon in the Shadow of the Night”, isto claro, se o dito registo tivesse uma base comum a todas as canções que o compõem. Tal, porém, não acontece – Peter Hammill dificilmente enveredaria por uma tal redução temática, face à pluralidade de aspirações e angústias que nele foram depositadas pelo homem comum contemporâneo.
O factor genérico tende no entanto a não se fazer notar, ou pelo menos a não atrapalhar Hammill enquanto este debita ideias demasiado vagas sobre a vida e a forma de como a viveu. A diferença entre Hammill e um bom punhado de cançonetistas de esquina está na inteligência e intensidade com que trata os assuntos do dia-a-dia, arredando da sua óptica descritiva a banalização dos mesmos – a vulgaridade serve sempre melhor aos outros e ainda que possamos estar a falar sobre acontecimentos vividos na terceira pessoa, apenas conseguiremos compreendê-los se os traduzirmos para a mais primária das conjugações.
Esteticamente “Chameleon in the Shadow of the Night” representa um grande avanço face ao seu predecessor, “Fool's Mate” (1970). Com os Van der Graaf Generator (VdGG) em período de acalmia, Hammill pôde concentrar-se na sua carreira a solo trazendo consigo os benefícios inerentes a pertencer a um grupo que na altura se encontrava no desemprego. Assim sendo, seria apropriado perguntar onde terminam os VdGG e começa Peter Hammill. A pertinência da pergunta é no entanto apenas teórica; depois de comparados ambos os registos é nos relativamente fácil afirmar que a carreira a solo de Hammill, não só é esteticamente mais rica, como está mais próxima do homem enquanto indivíduo, em detrimento da pessoa colectiva.
Existem porém algumas proximidades: “Chameleon in the Shadow of the Night” chega mesmo a apresentar alguns paralelismos entre as duas facções: a figura do músico que procura um refúgio – o autêntico “Refugee” de “The Least We Can Do is Wave to Each Other” (1970) – onde se possa abstrair das digressões que lhe sugam a possibilidade de escolha, que o impelem a transformar-se numa máquina capaz de operar a mesma função, noite após noite, e que lhe negam a condição livre inerente a um espírito criativo. Desespera e pergunta: “Mas que raio fazemos nós – VdGG - aqui? Porque morremos aqui?”
E nós? Porque razão nos submetemos a uma máquina feita por, e supostamente para as pessoas, mas que descura exactamente aquilo que deveria servir? Qual é o objectivo maior da nossa existência? Deveremos julgar-nos pelas escolhas que fazemos enquanto vamos cedendo à decadência trazida pelo passar do tempo?
Vivemos enquanto escolhemos e jogamos sabendo de antemão que cada movimento é simultaneamente uma causa e um efeito, e que as cedências vão aumentando à medida que o tempo vai passando. É aí que “our prison walls are slowly built/stone by stone and day by day/no provision for escape/entombed alive in safety/and decay.”
O Mike e a Susie, também eles refugiados, reaparecem em “Chameleon in the Shadow of the Night”. O mínimo que podemos fazer é acenar-lhes. Outrora conhecíamo-los bem, mas a prossecução dos nossos objectivos nem sempre se compadece com o nosso passado, “and it’s so easy just to slip away…”
Amargura: fomos nós quem escolheu este caminho ou limitámo-nos a seguir uma matriz?
Lucidez: Hammill não avança com quaisquer respostas; Cobre-se de inquietude e inicia a sua fase dourada.
© 2007 SP