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Gorky’s Zygotic Mynci

Barafundle

 

  

 

Entre montes e vales do País de Gales e desde 1991 com uma estupenda série de álbuns em superior veia psicadélica, os Gorky’s Zygotic Mynci editaram em 1997 uma inesperada caderneta de estilos; precisamente quando toda a gente andava entretida com a circunspecta homogeneidade, a olhar para os pés ou pateticamente fomentando depressões, os Gorky’s pintaram aguarelas, visitaram mansões assombradas e fizeram piqueniques com Kevin Ayers e Robert Wyatt, levando os animais de estimação.

Este é um disco para toda a família, não aquela de fato de treino “roxírosa” e dos centros comerciais ao fim-de-semana, mas a do gosto excêntrico, que aluga a cabana perto de um lago no pino do inverno e veste os filhotes com roupas de duendes (estão a pensar em Julian Cope? Acertaram!)

Barafundle” é um diamante para o neófito que quer explorar a discografia de um grupo menosprezado pelos “media” (em favor de uns tais Oasis, orgulhosos no seu pedestal; os Kula Shaker também foram desdenhados) só porque de vez em quando se atreviam a cantar em galês, arranhando o céu da boca, despertando fantasmas agrilhoados.

Diamond Dew” abre em pop psicadélico de veludo, anunciando um quinteto cheio de carácter; guitarra, harmónio e guimbarda apascentando e em segundos repentinamente elevados a um refrão luminoso, tão girassol e cantarolável na voz melódica de Euros Childs, o hipotético e incerto líder, já que o guitarrista John Lawrence também compõe e canta, e quase todos eles se revezam nos instrumentos.

E “The Barafundle Bumbler” vem como irmão gémeo, guitarra de peito aberto a desafiar a anterior, mas é só treta, tudo se desfaz num par de teclas atmosféricas e um sideral “uuh-uuh” de chorar por mais. “Starmoonsun” consegue unir com mestria o sol, a lua e as estrelas, um piano wurlitzer (que som, que som!), três trágicas charamelas medievais e vozes “from outer space”, conduzindo a invulgaridade à canção, como os Incredible String Band e os Soft Machine nos ensolarados “sixties”.

A leve influência dos High Llamas (outros irlandeses ignorados “hojemente”) sente-se no trio “moog, hammond e korg” em “Patio Song” (aquele “Well...” a abrir!!); crescem híbridos de forte raiz no quintal dos Gorky’s e é bom estar lá mesmo quando arrepelam os “r” da língua natal, remetendo com ternura para os dias da meninice, trepando às árvores do avô com a colecção de selos. E acaso deram pelo sorrateiro e omnipresente violino da irmã Megan (Childs) desde que o disco começou? É como as conchinhas na praia ou uma beijoca bolachuda!

Mais “uuh-uuh-uuh” de Euros com flautas doces e um ritmo de perna a bater na bateria em “Better Rooms...”, a balada perfeita para a confraternização & fogueira, aliás como “Heywood Lane”, os Beatles socializando com os Turtles, pandeiretas ao desbarato e muita comoção positiva, a acústica servida na temperatura essencial, estes meninos podiam perdurar a casta de “Abbey Road”.

A placidez lírica parece instalar-se sem que a magia se desvaneça, “Pen Gwag Glas” é um território sem fronteiras, quiçá a um pé da quinta dimensão, coros gregorianos cedendo aos “lá-lá-lá” e a instrumentação aos trambolhões num psicadelismo vibrante e inesperado, Euros Childs e companhia a converter o galês numa língua de feitiços em reunião de magos.

“Bola Bola” e “Cursed, Coined and Crucified” mantêm o nível de clorofila dos bosques, quer com a adição de uma turma de metais preguiçosos, quer com dois cromornos (oboés medievais) e um arranjo em cadeira renascentista dos Amazing Blondel de 1971, respira-se bem nesta acústica, tão atípica para a geração rock de 90, não obcecada ainda com o retorno ao “retro”. Da mesma forma, a esplêndida e sóbria balada “Sometimes The Father Is The Son”, com a “spanish guitar” assistindo um violino cheio de paixão e a “drone” de sanfona quase imperceptível, inicia a viagem ao micro clima da folk britânica (período 1968-1973).

Meirion Wyllt” restitui os Gorky dos anos anteriores, uma potente guitarra eléctrica em aflição, meia dúzia de sons seleccionados dos teclados “vintage” e um violino saltimbanco, fazem estremecer por uma nesga a novidade ante todo o “brit-pop”. Há algo de legitimamente imaterial em “Meirion Wyllt”, na voz operática que se esvai como um fluído, nas “pequeninas” e resmungonas vozes apanhadas na rede de borboletas, no ambiente de aprendiz de feiticeiro. Feérico, é tudo.

E que delícia a historieta de “The Wizard And The Lizard”, com sabor a Incredible String Band e Dr. Strangely Strange, campainhas e um piano korg armado aos grilos, guimbardas a pular e flautas a embalar, a voz doidivanas de Euros Childs em contraponto distraindo o conto. Em “Miniature Kingdoms” procurem urgentemente a homenagem aos Gentle Giant de “Acquiring The Taste” e “Octopus”, no feitio ribombante dos metais, na irregularidade rítmica e nos vocais contrastantes (voz meiga/voz arrevesada). Os Gorky’s baralharam e voltaram a dar, com o mesmo brio e imaginação renovada, as cartas do jogo progressivo.

Por exemplo, tanto “Dark Night” como o final do álbum é a união-de-facto de Kevin Ayers com Robert Wyatt, os dois dançando e pulirando, a voz afectuosa que conhecemos do mestre de “Rock Bottom” com o inusitado caderninho de arranjos de Ayers; e depois há por ali tanta forma sonora que a influência assumida não é castradora, volta o fantasminha que ecoa, sintetizadores à cabra-cega com korgs e pianos a sério, o tal violino sempre-mas-sempre na escala luminosa, enfim, uma portentosa canção!

Hwyl Fawr Pawb” é decididamente um protótipo de maluqueiras à lá Kevin Ayers em estilo cabaré can-can cantado em ga-galês, também não destoaria num disco dos Gong de Daevid Allen (ele e Ayers foram colegas nos Soft Machine!), entre uma cerimónia regada a bom vinho, com brinde à subversão. Um piano limpo em “Wordless Song” encerra o álbum com apaziguamento, uma voz tão-tão “Robert Wyatt” confunde-nos e vamos confirmar no “booklet” se o mestre canta, mas não, é Euros ele mesmo, a desafiar superiormente a mesma emoção, ao lado de um esvoaçante “mellotron” até só restar o casal piano & violino, desaparecendo romanticamente e sem barafunda.

 

© 2006 António Jorge Quadros  

 

 

 

 

 

Referências:

 

CD - Fontana, 5347692 (1997)

CD - Polygram, 536122 (1997)

K7 - Polygram, 536122 (1997)

 

Faixas:

 

1. Diamond Dew [2:50]

2. The Barafundle Bumbler [1:50]

3. Starmoonsun [3:03]

4. Patio Song [2:42]

5. Better Rooms... [3:46]

6. Heywood Lane [2:52]

7. Pen Gwag Glas [3:58]

8. Bola Bola [1:45]

9. Cursed, Coined & Crucified [2:26]

10. Sometimes the Father Is the Son [3:16]

11. Meirion Wyllt [2:48]

12. Wizard & The Lizard [1:27]

13. Miniature Kingdoms [4:18]

14. Dark Night [4:47]

15. Hwyl Fawr I Pawb [1:47]

16. Wordless Song [3:20]

 

Músicos:

 

Euros Childsvoz, teclados
Megan Childs -violino, voz
John Lawrenceguitarras, voz
Euros Rowlands - percussão
Richard James – guitarra-baixo
Gorwel Owenteclados

 

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