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Group 1850 Agemo’s Trip To
Mother Earth
Um “outro” psicadelismo que nunca chegou a ameaçar o
totalitarismo anglo-saxónico, conviveu com os nomes maiores dos finais dos
anos 60. Exemplo admirável é o álbum de estreia dos holandeses Group 1850, “Agemo’s Trip To Mother Earth” (1968), altura dos alegres cânticos
do catálogo da liberdade, rapidamente fulminada pela desilusão de 1969 em Altamont, com a morte racista de um rapaz negro às mãos
dos Hell Angel’s no
concerto dos Rolling Stones. Ensaiando uma mão cheia de intrépidos singles ainda em
1967, o grupo holandês gravou um disco tão original como musicalmente
convincente. Procurem não arreganhar os dentes com o sotaque ligeiramente “cheesy”, em boa verdade não é o inglês cantado que
interessa, mas sim a dramatização planante da voz e
as letras, apesar de telegráficas. “Steel Sings” e “Little Fly”,
deixam-nos logo estupefactos com o tom arrastado das vozes, uma atmosfera “UFO-like”, pedaços sonoros de estrelas cadentes, cânticos
de elevação com guitarras saturadas, órgão pinkfloydiano
a crepitar, a menina da praxe recitando textos filosófico-kamasutrianos,
enfim, o psicadelismo em colagem estimulante. Não poderia faltar a costumada jam-session,
“I Put My Hands On Your Shoulder” pode ser encarado como o lado optimista de
“Interstellar Overdrive”, cabeças concentradas para o voo feliz da nave e nem
a voz do feiticeiro arranhando idiomas e os instrumentos alcoolizados
brotando do limbo, aborrecem o clima de fusão esticada. Quando decide fazer
um solo, a bateria é aniquilada por efeitos electrónicos muito atrevidos até
para o ano de 1968. E há qualquer coisa de Gong e Captain
Beefheart / Mothers Of Invention no cartoon cómico de
“You Did It Too Hard”, os primeiros ainda não tinham sido criados por Daevid Allen e a dupla americana Vliet
/ Zappa cometia já algumas subversivas loucuras. Um
coro de desvairados desafinados conversa sobre malandrices, sexo e êxtases
cósmicos; Mister Magoo anda por ali, o saxofone é o mais Gong possível e cedo
as vozes acabam distorcidas, em risos ameninados. “A Point In This Life”
intercala o “harpsichord” místico com a guitarra
ácida, criando inteligentes e nada enfadonhas
modulações espaciais, o ar tresandando a incenso e “outras” substâncias. O
par de temas que concluem o disco, “Refound” e “Reborn”, juntam a folk psicadélica dos Incredible String Band e vão de
malas aviadas para a Índia e o Tibete, a instrumentação essencialmente
acústica, uma massagem contemplativa. O extraterrestre Agemo
pode enfim descansar à sombra das árvores e estudar a raça humana. Sem
algumas das graúdas pretensões progressivas, “Agemo’s...”
é um concept-album, ao que parece descrevendo a
chegada de um ser alienígena ao planeta Terra, desenvolvendo um pouco a ideia
de “Um Estranho Numa Terra Estranha” de Robert Heinlein.
A recente edição em CD foi altruísta na inclusão dos
singles precedentes e posteriores a “Agemo’s...”,
alguns deles autênticos monumentos do psicadelismo
continental, a par do melhor que os Pink Floyd, Jefferson
Airplane ou Soft Machine
edificaram. “I Know (La Pensée)”
é uma espécie de ameaça com guitarra serpenteante e refrão bizarro, pontuada
por flautas e harmónicas; “I Want More (Fingertips)”
e “Mother No-Head” são curiosas variações de um
rock europeu que não ficava nada a dever ao anglo-saxónico. “Mother No-Head” adapta lugubremente o “Frére
Jacques” das “nursery-rhymes”
com apontamentos interessantes (há também uma versão francesa e uma
instrumental que é das três a mais suportável). As restantes quatro canções afiguram-se como o melhor
rock psicadélico produzido na altura fora do Reino Unido e Estados Unidos. “Ever Ever Green” é delicioso “singalong” colorido; “Zero” e “Frozen
Mind” são dois aterradores encontros imediatos do 3.º grau, a propulsão
eléctrica em voos elípticos e dissonantes, um esplêndido baixo ensinando o
que é um corpo e o trompete assustado com as vozes guturais dos controladores
de viagem; “Frozen Mind” é um arrebatado garage-UFO-rock com coros alterados, certamente
indispensável em qualquer colectânea da Nuggets. “We Love Life (Like We Love You)”, à parte a vulgaridade do título, deambula guiado
pela estranheza da percussão e de novo o baixo a comandar as operações,
subjugado por um órgão fantasmagórico. Com a colecção de singles e o
álbum “Agemo’s...”, esta é a edição de um disco que
se aconselha a todos os amantes do rock libertário, preferencialmente
apelidado de psicadélico. |
Referências: CD - Pseudonym,
PSEUD 1047 (1968) Faixas: 1.
Steel Sings Músicos: Peter Sjardin – voz, flauta, órgão Ruud van Buuren –
guitarra-baixo Daniel van Bergen –
guitarra, piano Rob de Rijke – guitarra-baixo, flauta Beer Klaasse – bateria Outros créditos: © 1968 |