GENTLE GIANT
Acquiring the Taste (1971)
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Senhores de uma técnica singular e na mesma proporção de um saudável low-profile que fez deles menosprezados músicos até dentro da escola do rock progressivo, os Gentle Giant são actualmente um grupo de culto, embora nos seus anos de actividade nunca tenham conhecido o sucesso de uns Genesis, Yes ou Emerson, Lake & Palmer.
O seu segundo opus, “Acquiring the Taste”, é uma obra enigmática até mesmo dentro da carreira do grupo, dado que se assume claramente como um disco nocturno, bucólico e muito dado a romantismos enquanto estética que quase tudo alberga. Cada instrumento contribui aqui com uma valiosa personalidade, criando motivos (que se repetem numericamente) ou ilustrando expressivamente (por vezes é uma nota só!) os textos das canções. Saliento os dois temas seguintes: o uso dramático dos tímbales e de toda a mini-orquestra percussiva em “Edge of Twilight” para projectar uma sensação de eco e isolamento no hospital onde a personagem se encontra; o desfile ameaçador de todos os instrumentos do estúdio entrecortados a meio por uma guitarra eléctrica maníaca em “The House, the Street, the Room”, descrevendo cada um dos espaços presentes no próprio título da canção.
Também os Gentle Giant contrabalançavam o papel da voz, no tom variado de três vocalistas principais, o reflexivo de Minnear e o expressivo-nervoso de Ray Schulman, ao que se juntava o irmão Phil como intermédio. Talvez aqui resida um dos factores para a sua falta de sucesso comercial.
Existem no entanto algumas pitadas humorísticas que aliviam subliminarmente o registo da sua carga negra: o tema homónimo do álbum é um curioso e delicioso intervalo de moog, nas mãos de um dos mais completos teclistas (chamemos-lhe assim, humildemente); ou “Wreck”, um espantoso sea-shantie, ou seja, um canto trágico-marítimo, com o baixo a iniciar a procissão por entre as águas. Todo o tema se confunde, ora é eléctrico e vibrante, como que a enfunar as velas da embarcação, ora se faz valer de um quarteto de cordas para escorrer em doçura.
Voltamos à languidez enquanto um saxofone desponta em “The Moon is Down”. Este é no entanto, apenas momentâneo; segue-se-lhe um cravo sonâmbulo que irá passear com o resto da equipa, emoldurando um texto algo nefelibata e crepuscular.
“Black Cat” comprova a excelência do sexteto em criar uma atmosfera (ainda nocturna) e expressionismo musical (os movimentos felinos do gato estão lá na introdução do início); até o produtor Tony Visconti deu uma ajudinha no tambor e no triângulo (bem como na flauta-doce em outros temas).
Para o final está guardado o tema “Plain Truth”, um complexo exercício de rock-jazz dominado pelo funky-violino de Phil Schulman; está algures entre a variação blues e a avariação fusionista.
Torna-se difícil perceber porque razão os Gentle Giant foram votados ao esquecimento; ou então a solução até é bastante simples se atendermos a alguns ensinamentos de marketing que falharam e voltam a falhar em grupos com este calibre. Infelizmente, o sucesso artístico não é per se, uma garantia de sucesso comercial e os Gentle Giant, por estarem arredados do power-rock e das grandes suites que acabaram por condenar o rock sinfónico a um vagaroso declínio, nunca conheceram o sucesso que lhes era devido.

© 2006 AJQ