

GENESIS
Nursery Cryme (1971)
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É sem dúvida o primeiro disco consistente do mítico grupo inglês liderado pelo poeta teatral Peter Gabriel, e juntamente com o álbum seguinte "Foxtrot" (1972), uma peça de referência do lirismo no rock.
É certo que algumas obsessões tendiam já em "Trespass" (1970) para um escapismo ensimesmado que contudo não ignorava os temas sociais, mas só em "Nursery Cryme" os Genesis conseguiriam moldar com assinalável brilhantismo essa conjunção sócio poética. O rock nesses anos instáveis (como na política, na economia) deixava que se lhe juntassem elementos exteriores como a performance, o teatro e a improvisação, criando híbridos alguns deles mal amados pela cultura pop. Os Jethro Tull convocaram uma encenação entre o teatro de vanguarda e Shakespeare, ao passo que os Genesis procuraram no fantástico e na ficção científica uma forma de transporem para um plano social as vitórias e as derrotas da raça humana. Nos concertos ao vivo, Gabriel usava uma colecção de máscaras de recorte algo ingénuo que graças à sua personalidade inquieta e deveras esquizofrénica ganhavam um inesperado encantamento e ajudavam a instigar a atmosfera fantasmagórica que os textos pediam. Em 1974, por altura dos concertos de apresentação da enormíssima obra de fôlego "The Lamb Lies Down on Broadway", é importante lembrarmo-nos da atenção posta na concepção cénica e na transformação delirante de Gabriel em múltiplas personagens estranhas e menos estranhas.
Então por volta de 1971, os Genesis ainda experimentavam a sua nova formação com a entrada do baterista Phil Collins e do guitarrista Steve Hackett, dois músicos de elevado tecnicismo e de personalidades bem diferentes, porém complementares. São eles que vão marcar algumas das texturas sonoras da estonteante peça de abertura "The Musical Box", espécie de conto de fadas sangrento, dividido como uma pequena sinfonia. Tudo irá convergir num ápice para o terror da bateria e das percussões encavalitando o som grotesco da guitarra eléctrica e dos teclados em sofreguidão tentando acompanhar o ritmo imposto. O cenário é o da Inglaterra vitoriana ou aparentado, descrito em outras canções do álbum, reflectindo no entanto mais mistério do que crítica social. Afinal não é todos os dias que rapariguinhas decepam cabeças com os seus tacos de croquete e que espíritos se alojam em caixas de música. Importante aqui também é o imaginário artístico de Paul Whitehead que desenhou a capa do disco (bem como a de "Foxtrot") e que porventura foi influenciado pelo clima inquietante da abertura, tendo também projectado outras mil possibilidades de leitura na sua minuciosa e algo descuidada pintura. O tom musical é expressivo e pela primeira vez, Gabriel mostra-se perfeitamente seguro das suas capacidades vocais, alternando o terno e o maquiavélico. Mais tarde, esta necessidade de constante mudança será o suporte para a criação da obra-prima "The Lamb Lies Down on Broadway" e para o humor de "Battle of Epping Forest", por exemplo.
Os Genesis divertiam-se a contar histórias enlevados pela sua astúcia e destreza musicais, invertendo o papel alienante da música de massas, cultivando e maravilhando, esquecendo de vez a atitude inicial da avestruz para nos oferecer orgulhosamente uma cornucópia de sensações e um bilhete na máquina do tempo. Pela qual viajamos em "The Return of the Giant Hogweed", depois da balada de observação intimista "For Absent Friends", de certa forma catalisadora da violência rítmica das duas longas peças. Mas "...Giant Hogweed" é implacável na sua ameaça à raça humana com o poder de "foto sensibilizar o seu veneno através da luz solar". Esta espécie de monstro vegetal arrancado aos esconderijos siberianos é mais uma parábola apocalíptica (vagamente influenciada pelos filmes de ficção científica das décadas de 50 e 60), um devaneio simbólico criado pelo medo humano. O monstro vencerá e os Genesis dançarão com ele, no fim, uma dança macabra. Gabriel, por vezes recorda David Bowie com o seu tom gutural agressivo, conseguindo com isso a verosimilhança da história que criou e da qual é, digamos assim, o mensageiro.
É fascinante como passamos de um espaço-tempo para outro ao som de um mellotron, esse antigo órgão de cassetes que podia imitar o uníssono de uma orquestra. "Seven Stones" talvez possua o texto mais enigmático mas musicalmente é gongórico, a espaços belo e melancólico, como se fosse necessário que toda a carga instrumental descrevesse a condição de angústia humana. Gabriel joga com símbolos e personagens de uma forma pungente e inesquecível: o agricultor, o marinheiro e o velho sábio são compreendidos através das suas acções e há um ambiente existencial de perda e desilusão, reforçado pelos teclados excessivamente dramáticos.
“Harold The Barrel” é a perfeita antítese do tema anterior: três irresistíveis minutos de galopante energia, texto e música, que segue a história do pobre Harold, o desgraçado dono do restaurante que desistiu da sua vida regrada e boçal, preparando o seu suicídio. No primeiro minuto da canção já espreitaram tantas personagens, cada qual com o seu trejeito (também é genial como a guitarra eléctrica de Hackett imita o riso sarcástico do famigerado “british public”) dado por Gabriel, que nos perdemos por completo e precisamos de ir ler o texto para tentarmos estar em cima do acontecimento, qual repórter da BBC. De facto, sendo mais uma parábola ao jeito dos contos-de-fada, é essencialmente uma crítica social, a fuga enquanto atitude romântica perante a sociedade tecnocrata... Ternamente esperamos que no final Harold não acabe esborrachado na “british public street”, mas que voe no infinito do último (e magistral) pianíssimo de Banks, impulsionado pelo solo derradeiro da bateria... “Harold The Barrel” conjuga todos as qualidades do grupo, agora motivado pela união dos cinco.
Sendo “Harlequin” a preparação inevitável para a última peça (programática) do álbum, não é contudo uma simples folk song. Há um clima de crepúsculo que vem da afinação das guitarras, de um solitário vibrafone e das vozes que acentuam o quadro simbolista novecentista. A passagem para “Fountain of Salmacis” mostra a frescura dos Genesis no início do seu período de ouro; a música é um metal precioso; Gabriel está extasiado com as palavras e a acção da história. Numa espécie de variação temática da “Sagração da Primavera”, os mellotrons arrancam espíritos da floresta, enquanto o resto da instrumentação converge para a junção metafísica de dois corpos ansiosos, numa genial sofreguidão, fechando assim a primeira obra-prima dos Genesis.
© 2006 AJQ