

GENESIS
Foxtrot (1972)
“Foxtrot” é o salto determinante no percurso dos Genesis. Peter Gabriel dá três passos à frente dos seus camaradas, envergando o “show” de máscaras, aperfeiçoando com sabor meticuloso, o labirinto dos textos e o desenho do seu realismo fantástico. “Foxtrot” aprofunda o empenho social que os Genesis já tinham aqui e ali aflorado (em “The Knife” de “Trespass”), e revolve algumas estacas consideradas inabaláveis na tecnocracia ocidental, deixando no palco três ou quatro advertências justas, disfarçadas poeticamente sob a forma de fábulas, metáforas ou contra-utopias.
É um álbum musicalmente sublime, rivalizando com os titãs “Dark Side Of The Moon” (Pink Floyd), “Close To The Edge” (Yes) ou com os capítulos posteriores da saga: “Selling England By The Pound” e “The Lamb Lies Down On Broadway”. Mas se “Selling…” peca pela irregularidade com alguma música para encher e “Lamb…” pela sua colossal arquitectura - ainda que sendo uma obra-prima não totalmente compreendida. .
“Foxtrot” é um sagaz ponto de equilíbrio que une seis estados complementares de beleza épica e compromisso sócio-político. O jogo de órgão e “mellotron” que abre “Watcher of the Skies”, nostálgico e drasticamente ameaçador, é um par de cortinas que se abre teatralmente para facultar a contemplação amargurada do mundo: o “mellotron” na fatalidade e o órgão na expectativa, depois sorrateiramente a base rítmica ajusta o compasso grandiloquente de marcha (umas notas de “Mars” de Gustav Holst) e um valente arrepio faz subir a adrenalina; de súbito uma figura se desvela no passo maníaco do baixo e da guitarra cruel. Gabriel assoma como visitante de céus longínquos, observando os homens nos seus domínios, bailando com insidiosa cabeça néon de feições reptílineas e manto negro, em majestosa e sóbria encenação, baralhando frases visionárias (“This is the end of man’s long union with Earth”); Gabriel, o mestre das 1001 dicções superlativas em esgares e pandeiretas, envergonhando a raça humana (“sadly now your thoughts turn to the stars”), acirrando o frenesim magistral da bateria de Collins e o delicado manancial pianístico de Banks (ouça-se no trecho situado entre os 6m20s e aos 7m, o excitante diálogo rítmico) projectando o cume de resignação filosófica (“this is your fate alone, this fate is your own”) no lamento instrumental, no trágico e derradeiro bombo que definha exausto. “Watcher Of The Skies”, o ávido esquadrinhador do espaço circundante, é para todos os efeitos, o próprio Homem.
Quando se passa desta imponência para a balada de “Time Table”, é natural que se torça o nariz perante tal linearidade, que, diga-se de passagem, bem analisada é apenas aparente. Dos dois meditativos versos inspirados pela observação de uma mesa de carvalho medieval, resta a melancólica sentença (“why do we suffer each race to believe that no race has been grander”) e sob tais considerações um piano primeiramente simples realça alargando o timbre às suas cordas percutidas, a dupla guitarra/baixo docemente tímidas e uma bateria inesperadamente lírica (cuidados acentos metálicos segundo o génio de Collins) conseguem fazer-nos demover suficiente atenção para o arranjo. Poderá parecer redundante “why” rimar com “die”, e todo o refrão destacar um existencialismo desalentado da raça humana, contudo o lugar comum é discretamente evitado, provando que a mais menosprezada canção dos Genesis pode camuflar afectuosos segredos e suscitar uma análise mais justa. .
Excelência na iconografia Genesisiana é “Get ’em Out By Friday”, abrindo um rol de possibilidades expressivas com a entrada de complexas e tão diferentes personagens, incluindo a voz computorizada (ao estilo de “Hal 9000” do filme “2001 Odisseia no Espaço”) do Controlo Genético. Baseando-se numa querela verídica com o avarento senhorio da altura, Gabriel enleva o tema para larga escala superando o aspecto social, chegando-se à grotesca descoberta da restrição genética ordenada para 2012: “It is said now that people will be shorter in height, they can fit twice as many in the same building site” e “they say it’s alright”. “They”? E eles quem são? Claro está, os directores do Controlo Genético, poderemos conhecê-los num porvir próximo e incerto, nesta parábola totalitarista (“1984” - nada de novo debaixo do sol). Contudo, a crispação começa em tempo presente, entram em cena os tecnocratas fuinhas John Peeble (“cash, cash, cash, can do anything well”) e Mark Hall da Styx Enterprises cheirando o lucro como o rato cheira o queijo, decidindo a todo o custo expulsar ou vigarizar os moradores de um aprazível e bem situado bairro social. Um teclado insistente agarra-se às vozes burlescas e manhosas dos engravatados e um “moog” doloroso (quase submisso) expressa a preocupação da amável velhinha Mrs. Barrow, moradora de uma das casas; vem a (passage of time) docemente enredada na flauta de Gabriel e no impulso somos tele-transportados para 2012 (genial, isto é novo “in rock history”), testemunhando pelas vozes ensarilhadas no escritório do Controlo Genético, a medonha decisão. Ilustrado com meticulosa destreza, este exercício de “jazz-rock” dá caminhos luxuriantes aos Genesis, agora definitivamente audazes, aquecidos pela crítica e pelo público boquiaberto com a concepção trazida para os palcos ingleses.
“Can-Utility And The Coastliners” é a mais enigmática obra-prima dos Genesis: tudo indica ser uma referência ao Rei cristão Canute da Dinamarca, que farto de ser comparado a Deus, levou o trono e os seus súbditos para uma praia e esperou em vão que a maré parasse de subir – mas com música magistral. A inspirada guitarra dedilhada abre um espaço mágico e as imagens enunciadas no preâmbulo por um Gabriel fantasmagórico (“the scattered pages of a book by the sea”) soam tão magnificamente poderosas (aquela dicção), emolduradas pela nostalgia dos instrumentos. Porém, quando o tema desenvolve é tudo mais estimulante: cinco músicos num pico de auge criativo levitando em perfeita fusão equilibrista, bateria e guitarra acústica irmanadas, um mellotron aflito acompanhando trágicas palavras deixando entrar o órgão mais alpinista de que há memória (3m45s, ouçam este Evereste) e um baixo portentoso (logo aos 4 m) em escala “groove”; a intenção é preparar o clímax em que a voz e o texto lutam por invocações quasi-proféticas, onde um Gabriel em pânico vê “a little man with his face turning red” e a guitarra, agora possuída por uma brusca electricidade, o desampara, puxando-lhe o tapete, ajudada pelo séquito instrumental. .
“Horizons”, o delicado solo de guitarra (irmão acabrunhado de “Mood For A Day” nos Yes de “Fragile”), dá a merecida atenção ao trabalho do sóbrio e incompreendido guitarrista dos Genesis, e é o prelúdio que vai predispor o épico mais conhecido da história do rock progressivo, “Supper’s Ready”. “Horizons” é justamente a descrição de um deslumbrante horizonte com sol poente, perfeito para as cordas da guitarra.
E depois, “Supper’s Ready” (breve coriza). Comparado já pela sua importância a grandes poemas anglo-saxónicos (“Wasteland” de T.S. Eliot ou os “Cantos” de Ezra Pound), é provavelmente o tema dos Genesis mais bisbilhotado por intelectuais, musicólogos e estudiosos (charlatães também) de profecias esotéricas reais ou fictícias. A aventura principia na insólita (e verídica) possessão experimentada por Jill (na altura, a esposa de Peter Gabriel), terminando com a consumação do Apocalipse à escala universal. Uma aplicação da Escatologia ao rock, rara no seu ensejo cultural contudo aqui tão assertivamente convincente, num relato ao mesmo tempo circunspecto e irónico, em 7 episódios musicalmente encadeados. Desde a estreia dos Magma com “Kobaïa”, passando pelas obsessões de Peter Hammill (“Gog/Magog” de “In Camera”) e terminando nos Aphrodite’s Child (“666”) ou nos Yes (vá, também o José Cid de “10000 Anos Luz Entre Terra e Vénus”), o fim do mundo e toda a sua doutrina inerente foi tratamento assíduo nas longas suites do rock progressivo. .
Em “Lover’s Leap”, Gabriel entra bruscamente em eco de terror controlado, clamando pela face do amor, desligando máquinas eléctricas, desculpando-se pelo tempo ausente; enquanto a guitarra molda pautas de serenata interior, sete homens passeiam em transe na relva do jardim, na noite enluarada, um deles ostentando uma cruz na mão; Gabriel respira as palavras (“it’s been a long long time. Hasn’t it?”) e pressente “aquele que põe tudo ao contrário” (>“yes, he’s here again, can’t you see he’s fooled you all”), tenta o combate com o amor “que tudo cura”, em vão; o “sing-along” acresce e os músicos pactuam com a atmosfera de revelação, o órgão extasia-se em piruetas até se estatelar em suspensão e um coro espectral de crianças entoar uma canção de embalar, adormecendo momentaneamente a terrível “serpente”. .
Pulando sobre a cerca, Gabriel arrebata os sentidos e já com “Ikhnaton and Itsacon and Their Band of Merry Men”, convoca o clangor da batalha; num voo planante sobre o acampamento a dupla bateria & guitarra, joga uma Pompa & Circunstância; amálgamas de criaturas aos trambolhões (“bang, bang, bang...”) nos desertos escaldados de sangue; Gabriel urra chocado com a sua frieza e passividade, e distribui frases magníficas ao desbarato (“something tells me, I’d better activate my prayer capsule”), enquanto esta dança macabra de magnética beleza (aos 8m20s é irresistível) leva os músicos ao cume da montanha de carne humana. .
Pois é um Gabriel prostrado, aos ziguezagues através dos corpos e do calor da chacina, que em “How Dare I Be So Beautiful?” descobre o rapazinho sobrevivente, qual moderno Narciso apartado pela guerra dos poderosos, admirando a sua figura nas águas turvas de um lago. E não tarda a EXCLAMAÇÃO mais famosa da história do rock, quando Peter, para regozijo dos nossos ouvidos, se curva e atira “a flower?” vestido de...flor. .
Depois é um bruto e repentino buraco negro de “nonsense” que o leva pelos cabelos para a expiação, onde imagens nascem de imagens e se perpassam insidiosidades tal como nunca antes vistas num filme autobiográfico - o subconsciente é cozinhado e os sentidos desagregados; é uma porção de pura astúcia musical: caixas de melodias agitam-se num ritmo marcial, entremeado por um vaudevilliesco ALL CHANGE! e sedutoras, endiabradas, caricatas, (aqui ou ali distorcidas) as vozes (de Gabriel). Testemunha horrorizada de inúmeras mutações num contínuo plasma universal, o que ele vê não sabemos, mas vai gritando pela mãe, e isso, vindo de de um homem crescido, não nos agrada. Sentindo-se um bobo na produção em série (“so we’ll end with a whistle and end with a bang and all of us fit in our places”), o nosso herói na sua tarefa hercúlea e separado do ser que ama, contempla agastado a acalmia benfazeja de uma música enternecedora (flauta & guitarra de doze cordas) que lentamente tenta seduzi-lo. .
Mas eis que é despertado para o “Apocalypse in 9/8 (Co-starring the Delicious Talents of Gabble Ratchet)”, conduzido pela cadência opressiva da guitarra eléctrica, percussão e baixo - e vai tudo em debandada - é a habitual imagética catastrófica, a campanha desencadeada pelo mal na apologia do caos, “better not compromise, it won’t be easy”, Collins ampliando majestosamente a ameaça agora ao redor do demente órgão de Banks (num frenético abraço de morte, os dois têm aos 17m50s, um pico de genialidade) e logo Gabriel traduz o demoníaco (“666 is no longer alone”) crescendo como um corpo estranho na nossa coluna vertebral, dá que pensar, um valente calafrio é o que é na dita cuja; os trompetes eclodem em ouvidos ensanguentados com “delicioso” rock and roll – ora que ironia! Salve-se quem puder! .
Gabriel estremece no arrojo do seu canto visceral e como dirá mais tarde em entrevista, “I felt as if I was really singing from my soul - almost like singing for my life”, e verdade ou não, antes de “As Sure As Eggs Are Eggs (Aching Men’s Feet)” instalar o desfecho, já a longa suite mordeu a cauda regressando ao mote inicial, agora redobrado pela intempérie musical; repicam os sinos, e de novo frente a frente, olhando o ser amado, (depois da viagem infernal) tudo se torna translúcido (“can’t you feel our souls ignite”) e Gabriel consegue redimir pelo amor, servindo imagens simbólicas (“This is the supper of the mighty one”), ele próprio como um peão entre o Bem e o Mal, arrepanhando definitivamente a voz no verso final. .
E os músicos como se não quisessem outra coisa, febris com tal pico alcançado, poderiam ir por aí fora, tanto que foi preciso cortar a “master” não havendo tempo para mais, apesar de (continued) constar no livrete. Uma palavrinha para a ilustração da capa (ainda de Paul Whitehead): estranhos seres ludibriados pela senhora raposa, teremos sido nós também nesta dança? .
© 2007 AJQ