

GABRIEL, PETER
I (Car) (1977)
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Depois do angustiante abandono dos Genesis em 1975 e de dois solitários anos em hibernação, Peter Gabriel convocou forças para a sua estreia a solo, num desfile alargado de estilos e temperamentos - a sequência lógica do “magnum-opus” de “The Lamb Lies Down On Broadway”.
O antigo infante do rock progressivo era a alegoria (quasi-religiosa) da paixão desalentada, sentado na dianteira de um automóvel, procurando refúgio das grossas e melancólicas gotas de chuva sedimentadas na fotografia da capa; só o automóvel apresentava cor como se fosse um espelho azulado e artificial do céu, o resto enaltecia o triste cinzento entre branco e preto. Esta economia de tons reflectir-se-á em quase todos os álbuns futuros – o último (“Up”, 2002) tem a magnífica imagem do seu rosto reflectido como uma célula viva em... gotas de água.
O espantoso tema da abertura, “Moribund, the Burgermeister”, é eloquente e intenso, da mesma ninhada dos “freaks” de “The Lamb Lies Down On Broadway” e intacta está a teatralização herdada dos Genesis bem como a vivência simbólica dos seres abandonados e excêntricos, disfarçados (e assumidos) como alter-egos do autor. No arranjo bizarro, povoado de erupções cutâneas de sintetizadores, um tambor lúgubre matraqueia o ritmo trapalhão no impressionante discurso de medo, paranóia e vingança do doentio Moribund perdido nos labirintos imundos do desespero humano. Mais uma vez reflexos freudianos da protecção matriarcal (“Mother, you know your son, and I say I will find out”), o desconforto da reclusão e de dor psicológica (“Oh, Mother! it’s eating out my soul”), aspectos comuns na temática de Gabriel, comprovando a sua individualidade complexa e insatisfeita. E se em “Solsbury Hill” ele reconverte o sucesso pessoal ao mercado “mainstream”, fá-lo com espantosa habilidade musical (o jogo da guitarra acústica na cadência rítmica, o teclado ambiental no pano de fundo) deixando um testemunho de pistas apaixonadas para a sua demissão intempestiva dos Genesis.
Gabriel está mais torcido e desacreditado, em “Modern Love” (antecipando David Bowie) num exercício de puro e duro rock, sulca veementemente as frustrações sexuais na confusão das relações pessoais (o sexo como único catalisador no vazio da vida contemporânea), invocando humildemente as quebras de autoconfiança (“hey, I’m feeling so dirty, you’re looking so clean”) ele que já fora uma estrela “arty”. Mas Gabriel também está entusiasmado com novas concepções artísticas (ainda que embebidas de dramatismo) contemporâneas das vanguardas de tom escuro do “post-punk”, assimilando-as de vez e categoricamente no terceiro álbum, com a ajuda de emergentes tecnologias do estúdio; é a maturidade que se esperava depois da desilusão dos Genesis. Tem agora liberdade para brincar com o exercício diletante de “Excuse Me”, um “doo-wop” no território da Alice no País das Maravilhas escoltado por Randy Newman e o Muppet Show, com o banjo gingão de Robert Fripp. Como sempre, a suposta leviandade estilística esconde algo amoral: a fuga de um homem adulto das suas obsessões procurando um quarto de cores alegres.
“Humdrum” é uma obra-prima, o piano eléctrico celestial envolve-nos em bem estar cirúrgico, o acordeão inesperadamente alegre puxa um ritmo pseudo latino que logo é calado pela guitarra acústica de límpida entoação; o texto reflexivo embarca pelas viagens místicas do quotidiano de Gabriel e ele está tão bem aqui, é um território muito seu, colorido por instantâneos admiráveis (“watching the sound forming shapes from the air, from the white star came the bright scar”), assumindo as palavras como veículos poéticos de extática beleza. Em “Slowburn”, com outro poderoso texto, o contraste entre cristalina beleza (“see birds breaking surface on a silent lake”) e bravura épica (“I’ll be strong when the slow burn sunset come along“) é maravilhosamente transportado para um arranjo inspirado, acima de tudo há um piano que sustenta o acorde entre o refrão e que nos leva para a morada de hostes angélicas, na coda final proporcionando um solo espantoso ao largo de deliciosos toques de percussão. De novo um apocalipse interior (“we’re shotting down our skies”) perpassa para a manifestação do mundo, o microcosmos projecta-se no macrocosmos e vice-versa.
E depois passeando nas ruas da cidade, decadente e ébrio, desamparado, seguindo os passos “jazzy” do piano, carpindo o “blues” da guitarra em “Waiting For the Big One”, sete minutos de abrigo instrumental em transe majestoso, condecorado pelo coro heróico e sublime que arremata a canção, devolvendo a quimera do sonho que dá nome ao título a um moderno “Messiah”. Gabriel apresenta-se lamentavelmente místico na demanda de uma qualquer redenção pelo prazer fácil. Quando “Down The Dolce Vita” convida furtivamente a “wagneriana” London Symphony Orchestra é um estremecimento que nos percorre a espinha dorsal, este aglomerado sinfónico não nos inspira bonança, é antes um redemoinho destruidor que varre a última parte do álbum e mantém a escala emocional sem esperança de “Here Comes the Flood”. O Gabriel maníaco em “Down the Dolce Vita” grita com toda a massa dos pulmões, vociferando atentados líricos à frivolidade da sociedade de consumo, comparando-se ao vate eremita Captain Beefheart (idêntico profeta do rock, são e salvo entre as suas pinturas na “roulote” do deserto). E a orquestra vai ribombando de vez em vez, escarnecendo e atemorizando na companhia desregrada dos “riffs” da guitarra eléctrica; uma paisagem cintilante despontará brevemente num belo efeito de percussão descarnada, antes de Gabriel voltar à carga e ternamente comandar a flauta doce para o gradual avanço das águas, num compasso sentimental de surda dor. “Here Comes the Flood” pediria mais tarde com uma certa razão a sóbria versão para piano; contudo aqui ainda são os ecos da London Symphony Orchestra que instigam a tragédia e os restantes músicos edificam imponente arquitectura rock, na proporção do carácter apocalíptico que o tema sugere, com resultados não totalmente convincentes. Este avanço das marés furiosas é uma das aterradoras metáforas que irrompem dos nossos arcaicos pesadelos, é símbolo da redenção humana e exequível certeza científica; já nos Genesis, Peter declarava “this is the end of Man’s long union with Earth”, não o desdenhemos pois como profeta.
© 2007 AJQ