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Funkadelic America
Eats Its Young
Nomear um álbum na discografia dos Funkadelic,
esse esplêndido bando de desobedientes da fusão funk-rock-psicadélico-jazzística
é tarefa incerta, a uns parecerá mais excitante o lado experimentalista
e repleto de solos catárticos de guitarra
eléctrica; a outros o
êxtase da harmonia soul-groove-motown e ainda a
outros agradará a temática libidinosa e aos restantes a inquietação
sócio-política de Clinton e companhia. “America Eats Its Young”
conjugando tudo isso num “melting pot” de aperitivos, ao lado de “There’s
a Riot Going On” dos Sly & Family Stone e da
obra-prima de Shuggie Otis,
“Inspiration Information”
(descoberta na década passada) elevou o funk
psicadélico, e apesar de não ser um disco perfeito (talvez “Maggot Brain” o seja no seu grau estético), é uma escolha
pela diversidade. O álbum dos Sly & Family Stone é uma viagem agitada a
um passo do precipício contemplando a América desmembrada, os Funkadelic preferiram as boas vibrações, aproveitando a
camuflagem para denunciarem o que estava (está?) a saque
na pátria da estátua do facho: direitos humanos (e dos animais? Obrigado Moondog!), segregação racial, libelos pacifistas, justiça
social, liberdade sexual e de expressão...O tempo era de mudança, e ainda
é...uma corja de avantesmas parece querer fazer
regressar o passado. Logo a
abrir, os sete desvairados minutos de “You Hit the Nail on the Head” com órgão-hammond
da escola Jimmy Smith, dialogando com o wah-wah da guitarra, chamam um espaço para a dança, não a
do fato & gravata dos dias de hoje, pensem antes no apelo curativo da
sensação muscular ao ritmo funk. “If
You Don’t Like the Effects,
Don’t Produce the Cause”
é o primeiro alerta social e a partir daqui o álbum torna-se a justificação
musical do texto inscrito no interior, justamente intitulado “America”. Um groove enérgico
que lembra irresistivelmente os Sly & Family Stone, porém mais
sofisticado, consegue transportar para a celebração funk
a consciência social e fazer um refrão admirável. A
seguir o gospel deslumbrante de “Everybody Is Going
To Make It This Time”, ponham os ouvidos nos detalhes desta eucaristia
genial, uma steel guitar a louvar ter nascido com
aquele som, centenas de violinos e violoncelos conscienciosos da escala
celestial, se não é o mais perfeito exemplo de canção exaltando a união,
então estava tudo alterado, e o pior é que quando as vozes se tornam
desesperadas, mais poderoso se torna, “the only way
is to love our enemies!”,
isto é inteligente e não é só letra, é experiência pura, longe da apatia e da
vingança vã. Aos arrufos histriónicos na escala da aflição, respondem o coro
e as cordas altivas, o hammond dá uma luz, a
guitarra é uma choradeira, o baixo rebola pela montanha dos salmos. Suspensão
dos sentidos. Há um
tapete voador com secção de cordas transportando clavicórdios sensuais,
baterias jazzy e guitarras wah-waheiras
na diversão instrumental de “A Joyful Process”.
Climas opostos em “We Hurt
Too” e “Loose Booty”, o primeiro adornado de balada doce e lacrimosa
(Requiem funk?) ao cuidado do livro-motown;
o segundo uma “sexymotherf-----”
de uma cançoneta, a transbordar de sexo nas guimbardas
e nos órgãos eléctricos. Os Funkadelic abrindo o kama-sutra à música popular, aqui colegas estéticos de
outro bando malfeitor, os Gong. “Philmore” é funk-soul coberto de metais, cada um a replicar para o
seu lado e lá voltamos à cama, com lençóis lavados, esta rapaziada não quer
outra coisa, em “I Call My Baby
Pussycat”, bem...o título diz tudo, não? A par dos
irmãos Parliament (o chefe é obviamente George
Clinton), poucos trataram de uma forma desmedida o erotismo na canção, cada
disco propunha um capítulo, por vezes prolongando-se em repetitivas litanias.
Vejam se nos compreendem, é fácil de conjecturar que as vozes no título-tema estão num pranto sem fim, mas desconfiamos
veementemente que os suspiros e as vozes (em lúgubres recitações) são de
outra origem, estão a ver o “Êxtase de Santa Clara” de Bernini?
Há um propósito de crítica social nítido no cabeçalho (ainda diziam que os
russos comiam criancinhas ao pequeno almoço) e também no tema seguinte “Biological Speculation” onde os
ritmos arrastados da percussão e do vozerio põem em
causa séculos e séculos de verdades científicas acentuadas pelo pragmatismo
da raça humana. “I believe in God”, entoa-se lá pelo meio, mas o tom é de
descrédito pelo filho feito à Sua imagem. “That Was My Girl” é outra aula de motown (naquele tempo só Stevie Wonder era superior),
sabiamente subvertida pelos arranjos, em catadupa de sóbria electricidade. E
todo o rock devia beber a convulsão de “Balance”, cinzas psicadélicas, musgo
escorregadio, as guitarras e o baixo rasgando finalmente o álbum da
bem-aventurança místico-sexual precedente (para não
empregar o termo preliminar, com conotações óbvias). Desde
o berço que os Funkadelic foram amamentados por uma
mãe demolidora e cosmopolita, brincando com toda a raça de estilos e
combinações, de uma jam-session passavam para a
canção folk e logo para uma “hard-rocking guitar”,
sem justificações de qualquer ordem, pois nunca preencheram requerimentos
para o top-ten. Assim, não é de estranhar que em “Miss Lucifer’s Love”, haja uma
espantosa contemporaneidade na snake-guitar (o
Brian Eno baptizou-a) arreganhando os dentes à romântica secção de cordas e o
piano bluesy, maldoso e angustiante tema, perto da portas da dor e do prazer. E
então há “Wake Up”, um testamento ainda mais funky
que o próprio funk, apelando à libertação das
consciências “na presença do futuro” (sic, grande
frase!). Até no plano social os Funkadelic estão
milhas na dianteira acenando à comunidade hip-hop/rap, na sua mente fechada
de conservadorismo estilístico, inexplicavelmente homofóbica e machista. |
Referências: LP - Westbound
Records, 2020 (1972) CD - Westbound
Records, 2020 (1991) K7 - Westbound
Records, 2020 (1991) LP - Westbound
Records, 29 (1991) CD - Ace
Records (2005) Faixas: 1. You Hit the Nail On the Head [7:10] (G Clinton,
B Worrell, Clarence Haskins) 2. If You Don't Like the Effects, Don't
Produce the Cause [3:43] (G
Clinton, Garry Shider) 3. Everybody Is Going To Make It This Time
[5:50] (G
Clinton, B Worrell) 4. A Joyful Process [6.10] (G
Clinton, B Worrell) 5. We Hurt Too [3:47] (G
Clinton) 6. Loose Booty [4:45] (G
Clinton, Harold Beane) 7. Philmore [2:40] (W
Collins) 8. I Call My Baby Pussycat [5:00] (G Clinton,
Billy Nelson, Eddie Hazel) 9. America Eats Its Young [5:45] (G
Clinton, B Worrell, H Beane) 10. Biological Speculation [3:00] (G
Clinton, Ernie Harris) 11. That Was My Girl [3:41] (G
Clinton, Sidney Barnes) 12. Balance [5:25] (G
Clinton, B Worrell) 13. Miss Lucifer's Love [5:50] (C
Haskins, G Clinton) 14. Wake Up [6:20] (G Clinton,
B Worrell, James Wesley Jackson) Músicos: Bernie Worrell – teclados, melodica Ty Lampkin -
percussão Zachary Frazier -
percussão Tiki Fulwood -
percussão Frank Waddy – percussão Harold Beane – guitarra, voz Phelps Collins – guitarra, voz Ed Hazel – guitarra, voz Garry Shider – guitarra William Collins – guitarra-baixo Prakash John – guitarra-baixo Cordell "Boogie" Mosson – guitarra-baixo Bruce Cassidy - trompete Arnie Chycoski -
trompete Ronnie Greenway -
trompete Clayton "Chicken" Gunnels
- trompete Al Stanwyck
- trompete Randy Wallace – saxofone alto, voz Robert McCullough – saxofone tenor Ollie Strong – steel guitar James Wesley Jackson – juice harp Albert Pratz
- violino Bill Richards - violino Victoria Polley - violino Joe Sera – violino Stanley Solomon - violoncelo Walter Babiuk - violoncelo Diane Brooks -
voz William Collins - voz Clayton Gunnels -
voz Ronnie Greenway -
voz Prakash John
- voz Steve Kennedy - voz Garry Shider
- voz Frank Waddy
- voz Bernie Worrell - voz George Clinton - voz Ray Davis - voz Fuzzy Haskins - voz Calvin Simon -
voz Grady Thomas - voz Outros
créditos: Arranjos
para cordas e steel
guitar em "If You Don't Like the
Effects...", "America Eats Its Young", "Biological
Speculation", "Everybody is Going to Make It This Time",
"We Hurt Too": David Van De Pitte. Arranjos para cordas e sopros em "A Joyful Process", "Wake Up" e "Miss Lucifer's Love": Bernie Worrell © 1972 Westbound Records |