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Faust

Faust

 

  

 

Esta é a música que a raça futura ouvirá quando pisar as botas de vinil nos campos de flores de um balbuciante planeta. Convocados na máquina trituradora os Beatles e os Rolling Stones, todo o passado musical vai embrulhado na toalha de limpar o suor. Guinchos diabólicos na soleira da porta, um dragão ressona, duas vozes conversam em alemão sob um vento estratosférico, outros sons de assombração eclodem, Chopin distraído na sala ao lado ensaia a próxima peça, de novo a máquina trituradora, o mesmo som funesto e desconfortável.

Estes pensamentos, obedecendo a uma lógica comum, buscam a descrição dos primeiros e claustrofóbicos minutos deste álbum singular. Os Faust desencadearam em 1971 uma revolução que ainda hoje se conserva intacta dentro de um cristal protegido das variações climáticas. Quem teve ousadia para surripiar um pedacinho deste código, fraquejou amaldiçoado pelas próprias armas. Só os Faust conheciam a poção, o milimétrico condimento, o aroma cruel e a desafinação ajustada.

Em “Miss Fortune”, os cânticos napolitanos atulhados de álcool e aos tropeções são veementemente trucidados pela electricidade, mas ressuscitam alguns minutos depois, improvisação total ou loucura escrita na pauta, meticulosamente estudada para surtir efeitos de terror e humor no ouvinte? Colagens de momentos Monthy Phyton, desenhos animados para adultos?

Ouvir “Faust” é experiência que pode dar para o torto, estes senhores tocavam de costas para a plateia no outro lado de uma cortina nada diáfana, mas uma vez escutada toda a progressão aviltante do álbum de estreia, ficamos vacinados contra todas as maleitas da música mercantil e queremos mais, mais, mais...isto soa obsessivo?

Obsessivas são as melodias insistentes de “Why Don’t You Eat Carrots”, género de conto-de-fadas grotesco, procurem todos os sinónimos de grotesco, enfim, isto só nas terras da ficção ou em dimensão indesejada, todos os meninos molhariam a cama, oh, pais liberais, se tal monstruosidade ouvissem.

Em “Meadow Meal” uma conjugação de sons discrepantes e brutais parece criar inusitada coerência; pianos, guitarras, sopros e vozes aplainados pela distorção; um refrão tenta brilhar, uma avassaladora cascata psicadélica diz que não, o refrão volta outra vez, já é refrão então... Quem escreveu tal sonata na máquina do tempo? Os Eloi espreitam na curva da ruína. A coda final é a levitação do órgão mais o eco cavernoso.

Faust é juventude e chicote, antipatia e diversão. Pegaram no som para o efeito sensação, como os pintores expressionistas, o estúdio era o templo preparado; estudaram o silêncio, a condensação dos contrastes e o som infinitesimal ardiloso, herdado no nosso subconsciente, o som que mete medo.

Nos derradeiros minutos de “Miss Fortune”, história acústica dedilhada e nonsense palavroso, “…and at the end realise that nobody knows if it really happened.”, ténue explicação do que ficou gravado nas espiras do disco ou ainda mais achas para a fogueira? Na capa, como testemunha, a radiografia da mão do homem erecto, em acto desesperado.

 

© 2006 António Jorge Quadros

 

 

 

 

 

Referências:

 

LP - Polydor Records, POCP-2404 (1971)

LP - Recommended, 1 (1979)

CD - Polygram International, 2404 (2001)

 

Faixas:

 

1. Why Don't You Eat Carrots? [9:35]

2. Meadow Meal [8:05]

3. Miss Fortune [16:36]

 

Músicos:

 

Werner Dermeier bateria

Hans-Joachim Irmler - órgão

Arnulf Meifert - bateria

Gunther Wusthoff - sintetizador

Rudolf Sosna - guitarra

Jean-Hevré Peron – guitarra-baixo

 

Outros créditos:

      

Engenharia de som: Andy Hertel

© 1971 Polydor

 

 

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