

FAUN FABLES
Family Album (2004)
______________________________________________________________
Vai-se à loja e bocejando com a vulgaridade, compra-se embasbacado este disco pela capa e, depois, por tudo o que está dentro do prateado digital. Grande abanão! Bendita editora (Drag City, já com o nosso apreço anterior) que agenciou este par (Dawn McCarthy e Nils Frykdahl) e fez deles um projecto em crescendo, aqui no terceiro capítulo generosamente intitulado “Family Album”, uma assembleia de criatividade rara nos tempos que correm, canções escavadas na madeira por lenhadores e timidamente embelezadas pelo verniz cheiroso. Um daqueles discos que se impõe, não pela quebra de mil pratos no escritório de um magnata da indústria musical, mas pelo voo em alvoroço de pássaros aos milhares no bosque ao cair da tarde.
Dawn e Nils têm as vozes enfeitiçadas, arrebentam com as goelas, respiram directamente para o microfone e agradecem-se mutua e comovedoramente no limite do esgotamento.
Tudo o que tangem, desde a guitarra mais brutal até ao xilofone, é pesado em ouro, um de quilate encontrado no pote arqueológico do gnomo. Parecem seguros do que fazem, do que querem vestir em cada cantiga, e arquitectam ameaças à raça humana, pois então.
“Eyes of a Bird” é o prefácio da fábula, sons difusos de crianças, e vem uma proposta: “Hey you, wanna walk beside me? Didn’t I meet you on one of these interstates?” Mau, isto começa a ficar supra sensível, “You’re like me, you know the occult.”
Já sabemos onde estamos, mas não o que nos espera. Um fragilíssimo estado entre o cá e o lá, pendendo para o degrau de lá. Um passo, e sabemos a língua das aves e o latir alterado de cada cão. Os fantasmas passeiam em limbos simpáticos - só vêm dar uma palavrinha aos sonhos. Os arranjos atribulados de guitarras que à audição descuidada parecem elementares, o baixo descarnado e a flauta que viaja dos Kolinda (brilhante grupo húngaro dos anos 70) fazem ruir toda a nossa resistência ao sonho, tão encantatória paisagem nos é anunciada. Mas o final de “Eyes of a Bird” é uma precipitação de dolorosos berros sanguinários, a canção é atacada por todos os lados, com os Faun Fables é o inesperado.
Acreditem ou não, o texto de “Poem 2” foi ditado pelo fantasma de uma velha senhora e pacientemente transmitido durante dias à médium de serviço, Leah Cotler. Ainda não estão arrepiados? Esperem pela atmosfera de “Mother and a Piano”, uma avassaladora balada nervosa com as vozes ruidosamente engrandecidas, a nostalgia magoada invocando uma infância e o doentio isolamento de uma mãe presa às melodias impressionistas do piano.
“Family Album” é intermitentemente aterrador e quando Nils Frykdahl decide dar voz aos seus textos (em “Lucy Belle”), até Nick Cave terá feições de anjo quando comparado com o tom gutural de nervos em franja de Nils, desterrando como um vate a raça humana.
Pousam uns corvos e a guitarra dança em espirais bondosas antes de Nils chegar ao refrão. Aí, em sufoco, assiste-se à vingança dos animais de estimação: “To ride a lonely dog over the bones of the lords of this world, ride an animal down to the kingdom of stone, build a wall around mankind, brick him in.” E repete com os pássaros da cidade a mesma vingança dirigida aos senhores deste mundo, um anátema de voz arreganhada - a bateria e a guitarra às cambalhotas na avalanche. Nils transporta para os Faun Fables a sua profissão de anacoreta solitário (como nos Sleepytime Gorilla Museum, outro projecto seu com outra cantora), convidando ao desmoronamento do mundo.
Em “Joshua”, Dawn explora musicalmente o poema escrito para a pira funerária do filho (inesperadamente morto) da empregada favorita do talho local. O violoncelo traz a elegia debaixo do braço, para que o menino agora transformado em anjo-da-guarda dos vivos, suba em três tempos na carruagem para o céu, e sim, o puto já vai a rir. “Nop of Time” é interregno campestre, Cassie, de sete anos e ex-aluna de Dawn, entoa um texto em estilo “lullaby” (escola Virginia Astley, sem o tom pueril e melancólico), uma verdadeira aparição ao cair da tarde.
“Still Here” é um ajuste de contas com o passado, um qualquer ressentimento (pressente-se na guitarra, no tambor insistente) sulca a canção directa ao coração - a prestação de Nils e Dawn é assombrosa; o homem excede-se, dá murros na mesa e Dawn olha-o com espanto: “But, I’m here, you’re here, we’re still here.” Repete num quase-choro compulsivo, o dissabor; estamos aqui e isso é o que importa. Não mais façamos da nossa vida o que não queremos - sinceridade e pulmões cheios.
“Preview” é outra translúcida balada entre a zona das ninfas e dos tritões, num esforço teimoso para sair da inóspita existência; de seguida em “Higher” os Faun Fables decalcam os Incredible String Band, neste hino “low-file” - órgão que ameaça avariar, vozes esganiçadas sentadas à volta da mesa, o vira pautas que faz um barulho com as páginas, o “take-one” que ficou.
Com “Carousel with Madonnas” o álbum atinge um pico altíssimo: irresistível cadência giratória do flautista de Hamelin; as palavras na montanha russa: vamos no comboio com Paul Delvaux e as suas sonâmbulas donzelas ou é um sonho pré-rafaelita de candura erótica recalcada?
Uma carga de tensa sinceridade espelha-se em “Rising Din”. Nils Frykdahl tem de facto algo a ajustar com a família: os ruídos que se incendeiam na canção são como pensamentos, eis porque o disco nos abana as entranhas, a rara boa-fé que falta nos 90% da música popular.
Quando a canção termina, ambos de rastos e com as veias do pescoço salientes, agradecem um ao outro. É um momento de despretensiosa antologia musical.
Em “Fear March” - os meninos andaram a ouvir Art Bears e a martelar altercações sonantes -, uma batida de ferro-velho e um rufar de tambores, remetem-nos para ambiente subversivo e “avant-garde” presente na espantosa versão de “Etternelle” (1968), da francesa Brigitte Fontaine: “I want to be loved for myself, forget the other ornaments” - descubram os antigos discos de Fontaine que são óptimos.
“Mouse Song” adapta uma cantiga tradicional suíça, com as usuais cantorias tirolesas da terra da Heidi. O início lembra o extraordinário álbum de Anna Homler (“Macaronic Sines”), mas o grupo depressa volta para o agasalho da fogueira para cantar sobre ratinhos.
A encerrar o álbum, entre diálogos subtraídos a “Piquenique em Hanging Rock” (estavam à espera disto, não?), os Faun Fables trazem um luminoso cântico, mais translúcido que os três pastorinhos de Fátima, que Dawn dedica às irmãs e a toda a antiga vizinhança.
Se porventura andaram estes anos a coleccionar discos perdidos de uma certa folk mais obscura e idiossincrática, então desfaçam-se deles para ouvir esta experiência “out-of-the-body”, e como diz o outro, “acompanhem até ao fim um sonho”.
© 2006 AJQ