

Braga. Ouvem-se diferentes sonâncias por toda a cidade: o ruído sólido da porta do táxi, o chiar abafado da porta do edifício antigo, a vibração aguda da campainha, a cedência regular dos nossos passos sobre os degraus, e depois, o arrastar de uma porta que se abre para a verdadeira música que vem lá de dentro: uma música moída por um velho computador, uma caixa de ritmos a condizer, uma guitarra e um sintetizador.
É este o mundo de Luís Fernandes. É ali, no centro dos três Sacro-Montes, que o artesão vai dando corpo a vários trabalhos de pura filigrana sonora, qual Doutor Pesavento que se fecha ao mundo exterior, para lentamente poder construir a sua ausência.
Os resultados aparecem agora de uma forma mais esporádica; o passado fez-se a partir de experiências, actos mais ou menos reflectidos que fomentaram a edificação a solo, de um monumento musical graniticamente sólido. Para trás ficaram muitas tardes de sábado e outras tantas queixas dos vizinhos: “Passei a minha adolescência a tocar em bandas. Destas, o único projecto com alguma projecção foram os Frequency, que lançaram um EP, e tiveram algum destaque na imprensa devido a terem ganho concursos e serem finalistas do Termómetro Unplugged. Tive oportunidade de tocar muitas vezes ao vivo, conhecer muitas pessoas e ter experiências variadas enquanto membro dessas bandas, o que em muito contribuiu para a minha evolução enquanto músico. No entanto devo dizer que, felizmente, nunca me identifiquei totalmente com os projectos nos quais tocava, e que sempre quis fazer algo melhor e mais adequado aos meus gostos pessoais”.
Surge então o pseudónimo The Astroboy. O mundo em redor parecia em tudo igual ao que era dantes. No entanto, naquele último andar, algo mudava. Achavam-se agora pelo chão, objectos que indiciavam uma grande actividade: cabos, restos de refeições, discos avulsos e outras páginas meias lidas. Todos eles pareciam confluir em redor de um velho computador. No écran, não existiam muitas cores; apenas caracteres verdes sob um fundo negro – os mesmos que espreitávamos no Banco quando éramos miúdos (e que agora são amarelos e cinzentos, sob um fundo azul).
Existiam sons presos naquela sala; ouviam-se os minutos a passar enquanto Astroboy tentava novas abordagens, outros efeitos, diferentes cronometragens… “O projecto The Astroboy é apenas uma faceta da minha identidade enquanto músico, pois há outros percursos e áreas que quero explorar. Para mim o mais importante deste projecto foi ter-me dado a entender que eu sou capaz de fazer algo sozinho e nesse sentido, desbravou um caminho que agora quero percorrer. Para este álbum, o método utilizado para compor foi muito similar em todos os temas. Em primeiro lugar ia construindo os drones a partir de várias camadas de sintetizadores, que depois funcionavam como base para as construções seguintes. Mais tarde elaborei a parte rítmica – quis que esta fosse sonoramente degradada e repetitiva. As guitarras vieram por último lugar e foram a componente mais natural de todo o processo, já que foram praticamente todas compostas directamente nas sessões de gravação (limitei-me a eliminar algumas e editar ligeiramente a duração das mesmas).”

O conceptualismo por detrás d’A Derrota da Engrenagem é evidente. Explora-se o fantasma dos tempos futuros; se os Kraftwerk eram a união entre o Homem e a Máquina (David Bowman de “2010 – Segunda Odisseia”, enquanto futuro arquétipo do Homem digital), The Astroboy é a ruptura, o conflito e a paranóia que assolam a espécie desde a invenção da máquina a vapor. Está portanto bem mais perto de “Eu, Robot”, naquilo que poderia ser uma nova banda sonora pós-Alan Parsons Project, do clássico de Isaac Asimov.
De resto, o conceptualismo d’A Derrota da Engrenagem surge exactamente da mesma forma que surgia no Alan Parsons Project: depois da obra terminada, procuravam-se pontos de contacto entre os vários temas; atribuíam-se designações a condizer (nem de propósito, diriam alguns), tiravam-se umas fotos alusivas e, não fossem os tiros ao lado, o objecto lá passava como um todo indivisível e extremamente cerebral.
Mas eis que Luís Fernandes desmistifica todo o processo: “O facto de ser o primeiro trabalho a ser desenvolvido unicamente por mim, fazia-me sentir que este projecto tinha de ser algo conceptual, no qual a fórmula estaria previamente determinada. A conceptualização foi essencialmente ao nível dos elementos que queria usar para a construção dos temas. Queria explorar drones, coisa que nunca tinha feito, e aprender um pouco sobre esta matéria. O resultado foi uma sonoridade muito densa e sci-fi, o que motivou a adopção da temática dos nomes dos temas e álbum. O universo a que os títulos remetem apenas chegou depois dos temas terem sido gravados. Acho que a partir de agora vou ter muita mais dificuldade em criar música sem ser de uma forma previamente pensada. Nesse aspecto foi um passo em frente para a minha maturidade enquanto músico.”
O conceptualismo é então uma feliz “coincidência” que se faz valer das imagens induzidas no ouvinte pelo músico. Cria-se um estado de fantasia (sem propósito) no qual se relaciona tudo aquilo que se conhece para depois ser trabalhado pela imaginação (já com um propósito). Diria Camille Saint Saens que “onde um artista vê uma bela forma, as pessoas grosseiras só vêem nudez”. Fernandes interpela o ouvinte com a ética de que este necessita, para que possa apreciar a obra de uma forma premeditada. A Derrota da Engrenagem é sobretudo experimental a este nível: será possível a uma obra sair do conceito a que está associada, ou, pelo contrário, estará esta presa a uma ideia que, em última instância, a limita? Luís Fernandes explica: “Sinceramente não me preocupei muito com possíveis falhas, já que inicialmente nem pensava em editar este trabalho. Eram apenas experiências que desenvolvi no sentido de aprender um pouco mais”. A “coincidência” desaparece. Um álbum de estreia capaz de gerar uma pergunta tão importante, não pode ter sido gerado ao acaso. Junte-se a pertinência da questão ao perfeito doseamento de timbres e dinâmicas, e não estaremos muito longe da verdade quando afirmamos que estamos perante um dos mais interessantes projectos da música electrónica portuguesa.
O “acaso” é agora uma ideia remota: “Ainda não pensei se este projecto é para continuar. A minha intenção era gravar o álbum e fazer alguns concertos por isso os objectivos foram atingidos. Só lançarei outro álbum de The Astroboy se conseguir acrescentar alguma coisa ao que já fiz... Neste momento planeio fazer mais alguns concertos durante este ano e depois dedicar-me a outros projectos. Tenho uma série de ideias em mente para outro projecto a solo e também sinto saudades de tocar em banda. Para além disso ainda tenho de ocupar tempo com os Jazz Iguanas [projecto que Luís Fernandes mantém juntamente com Miguel Pedro dos Mão Morta] e gostava de começar a gravar/produzir algumas coisas de outras pessoas.”
© 2007 SP