ESPERS
Espers II (2006)
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Benvindos a um fantasmagórico cenário: os Espers colheram o seu nome do termo ESP - “extra-sensory perception”, percepção extrasensorial - a capacidade que algumas pessoas possuem para o uso da telepatia e outras inteligências paranormais. E se tiverem tempo a perder com a música deste sexteto de Philadelphia, acreditem que não poderia haver mais feliz analogia entre o nome do grupo e a sonoridade que praticam. Conviria alcunhar isto de folk psicadélica, mas nada faz pressupor o uso de substâncias psicotrópicas, a magia parece vir-lhes das deambulações entre o musgo das florestas, da audição de folk extravagante (Incredible String Band, Bread Love & Dreams, Karen Dalton, Mellow Candle, Linda Perhacs, Pentangle e Malicorne) e da embriaguez dos My Blood Valentine e Cocteau Twins.
Porém, os Espers têm o seu buraquinho de gnomo decorado com certa originalidade e uma caligrafia vaidosa e elegante; imaginem um par de espectros bondosos telefonando-nos e participando das maravilhas do além. Têm uma farta colecção de instrumentos acústicos, mas também são maquinistas electrónicos. Apontam antenas com ecos espaciais ao mesmo tempo que bordam histórias sanguinárias em teares e lençóis.
No ano de 2004, com o homónimo disco de estreia, eram ainda um trio arrebatado por fantasmagorias minimalistas onde a inexistência de uma secção rítmica lhes conferia peculiaridade e era o veículo para uma experimentação baseada em “drones” que acentuavam o som “paranormal” do grupo. No ano seguinte foi a vez de “Weed Tree”, curto álbum de versões (entre Blue Öyster Cult (!) e Durutti Column, apenas um original) e em 2006 desdobrando a formação para seis elementos, continuaram a saga com “Espers II”.
Ora, abrindo com “Dead Queen”, descerra-se uma lápide sonora: há lânguida magia para uma guitarra acústica debitando acordes preciosos, antes da marcha com a percussão e antes da voz (instantaneamente é Judy Collins, Vashti Bunyan e Elisabeth Fraser) cristalina de contornos pré-rafaelitas, sem que no entanto nada deva à castidade.
Segue-se uma parafernália de electricidade estática e pulsações metálicas, como se a voz tivesse aliviado uma espécie de caixa de Pandora e o mundo se quedasse passivamente aterrorizado. É aí que se encontra o gélido sopro de “Widow’s Weed” e, por detrás da nuca, uma guitarra eléctrica contorce-se em espasmos contínuos simbolizando alguma dor aflitiva; cuidado que os Espers são magos do musgo, escorrega-se amiudadamente por aqui; em três tempos vêm ritmos complexos, violoncelos e pratos de bateria escondem-se em temíveis “drones” de guitarra – ventos ciclónicos varrem toda a compostura da canção e saem porta fora, imbuídos de traição, expurgados. Em consequência, “Cruel Storm”, é, apesar do título, uma ternurenta e magnífica prestação de Meg Baird (a vocalista de serviço). Se apurarem o ouvido, notarão um órgão muito raro inspeccionando os cantos da casa como um aspirador, fugindo ao violino quase dissonante e ligeiramente “bluegrass”.
“Children of Stone” e “Mansfield and Cyclops”, só por si, valeriam a aquisição deste álbum – há por aí tanto grupo espantalho que arrogantemente contaminam a beleza que os Espers mostram no regaço; “Children of Stone” convocam uma reunião de grupos da folk britânica dos anos 70 (Mellow Candle à cabeça) cuja ordem de trabalhos deve ser o dançar à volta de um laranjal, nos últimos momentos crepusculares da tarde; há duelos de brancos e sorridentes feiticeiros cavalgando na cadência rítmica, espalhando pós da fada Sininho (para nomear a mais sexy de todas) na flutuação dos instrumentos, entorpecendo-os e num estalar de dedos, tornando-os mais leves do que o ar. É assim o compartimento dos Espers: ora ensaiam na floresta de Merlin, ora vão às estrelas. “Mansfield and Cyclops” é de uma intensidade tal que a pele-de-galinha é um prazer proibido que ansiamos repetir. É este o serviço da música: proporcionar um kit completo de êxtase sempre à disposição; o acorde da guitarra é preciosidade pura, quatro ou cinco notas roubadas no período da sesta dos Deuses. E nada há de malévolo neste acto. É um bocadinho de beleza celestial que se traz para o comum dos mortais. Rapidamente os Espers encetam perigosos trilhos de fusão, não porque a preponderante ácida guitarra eléctrica se desfaça em fastidiosos solos, mas porque o inesperado pode ser perigoso, pois se esta música não é deste mundo.
“Dead King” faz um óbvio par com “Dead Queen”, em que uma procissão de bongós e “sleigh bells” (ao estilo dos Pentangle) percorre comarcas de assombrações translúcidas espiando sem ressentimento; mas algo mais há que os acústicos “folkies” de setenta não experimentaram, desta vez um teclado “omnichord” enfeitiçado acorda o sobressaltado quarteto de cordas dos lençóis do refúgio construído nas árvores. Arre, é passe mágico atrás de passe mágico, pelo que mais valia terem publicado um manual de magia branca & branco ruído; é uma nova dimensão para a folk, os Beatles foram a “british invasion”, os Espers invadem a secular alma britânica, refrescando-a de novidades.
Greg Weeks (o guitarrista e provável líder) assegura com a mesma subtileza de Meg Baird, a vocalização de “Moon Occults the Sun”, de braço dado com um violoncelo emocionado. É o capítulo final deste maravilhoso caderno de gravuras Arte Nova embrulhadas em Parapsicologia, um bonito desfecho para os Espers que assimilando o “drum kit” à sua sonoridade, não desfizeram o encantamento, tornando-o até mais acessível (o que não é de todo mau), colorido por contrastes. Toda a panóplia de adereços electrónicos e a predisposição para a meditação embasbacada dos “drones” de guitarra só vieram enriquecer o território da folk, que ora é demasiado indulgente e modorrento, ora é espaventoso e ornado de caducas danças celtas.
Alguém, referindo-se ao álbum, satirizou: “welcome to the terror drone”, o que não é de todo verdadeiro. Há sem dúvida laivos de negrume gótico nas histórias que aqui se contam, mas tal já se passava na corte dos Malicorne, na França de setenta, cantando a morte em gentis tapeçarias sonoras.
Por cá, a célebre Rainha que só o foi depois de morta, Dona Inês, posta em sossego, poderia valer como inspiração para esta geração que teima em fazer das árvores o palco. Para os que amam a música que se faz do outro lado da realidade.

© 2007 AJQ