ENO, BRIAN
Taking Tiger Mountain (By Strategy) (1974)
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“Quase sempre trabalho a partir de ideias em vez de sons. Títulos. Foi aquele título que me fascinou. É fabuloso. Quero dizer, estou interessado em estratégia e na ideia que representa. Não sou Maoísta ou qualquer coisa do género, se calhar até sou anti Maoísta. A estratégia interessa-me porque lida com a interacção de sistemas, que é o que me interessa na música, mais do que a interacção de sons.” - Brian Eno sobre o significado do título “Taking Tiger Mountain”, nome de uma ópera chinesa em estilo revolucionário.

Diz a lenda que o segundo álbum a solo de Brian Eno nasceu do fascínio que o ex-Roxy Music sentia pelo rock progressivo e pela sua complexidade instrumental, lírica e vocal. E assim no seguimento de uma estreia não totalmente convincente com “Here Comes the Warm Jets”, Eno condensou essa admiração estilística num dos mais inteligentes conjuntos de canções da música popular, de árdua assimilação mas depressa idolatrado pela pandilha do glam-rock e pela gente de ecléctico gosto musical. Subvertendo o carácter conceptual do rock progressivo, pois que, apesar de existir uma relação intrínseca entre as dez partituras, o álbum não conta uma história, nem é veículo de demonstração para as eminentes capacidades técnicas (indesmentíveis, sem dúvida) de Brian Eno, ao estilo “cannon-rock” dos Emerson, Lake & Palmer, trio envenenado pelo EGO dos seus autores.
Eno pegou em texturas sonoras como um titã que constrói o cosmos; tratou os instrumentos (baptizou alguns) e a voz com efeitos, muitos deles consequência dos minuciosos meses de ensaio no seu estúdio, por isso não adianta desprezar a categoria deste homem na estética musical desde há trinta e tal anos, como autor, músico, cantor, produtor, impulsionador e padrinho.
Todos os riffs de guitarra são metodicamente calculados, é assim em “Burning Airlines Give You So Much More”, há um riff que fica no ouvido e certamente vai passar durante gerações, facilmente cantarolável para o bebé de berço. O de “Third Uncle” é mais mortífero, graças à ajuda do seu companheiro dos Roxy Music, Phil Manzanera, na guitarra ritmo. Mas “Burning Airlines...” abre com um catálogo colorido de boas vibrações, audaciosa canção que só não é de clássica devoção porque a maioria das pessoas não tem ouvidos oblíquos. Um arranjo extravagante marca pontos em favor da complexidade desejada pelo autor, retirando-lhe o lucro no mercado discográfico.
Eno é um desses visionários livres que todos devíamos estimar e abençoar para bem da investigação e criação sonora, ao mesmo tempo é mago e cientista, todo o ruído o trata por Senhor Doutor.
E continuando com “Back In Judy’s Jungle”, bizarra réplica ao filme “A Ponte Sobre o Rio Kwai”, assobios militares marchando na cadência de percussões tribais, uma canção cabaré com a selva como palco, Eno fabulando romances de guerra e espionagem e uma “nursery-rhyme” irresistível aos pinotes de boca em boca. “The Fat Lady Of Limbourg” convida as primeiras caixas de ritmo do mercado (os CAN e Stevie Wonder já andavam interessados) para o efeito “pingo de torneira”, pelo meio o baixo recheado e um saxofone de caixa de bombons abrem a canção, que é uma mensagem em código, Eno armando-se em Sherlock Holmes. Há uma porção de sons atrás da cortina que obrigam a um alerta auditivo, pinceladas que poderão ajudar a compreender todo o esfíngico processo de criação do álbum, a nível formal e lírico.
Pois o problema da compreensão dos textos de “Taking Tiger Mountain” é a sua acumulação de estados; uns alterados ao nível da percepção, talvez por decorrerem de situações de pré sono ou até sonho vigilante; outros perto das fronteiras alucinatórias; ressalta disto tudo a sua expressividade sintética, obra de um observador nato. Por outro lado, as dez canções (diria prosa poética) estão carregadas de metáforas, eufemismos, sugestões “nonsense” e segundas leituras; associações de imagens em escrita automática, influências de Ezra Pound, não só na obsessão pela China, mas também na exposição minuciosa de estados intelectuais e sensoriais. E para além de mil referências culturais, há associações libidinosas, por exemplo “Mother Whale Eyeless” é a mais poética descrição de um espermatozóide, e até por ali escondidas algumas referências onanistas, enfim, os génios também têm de se entreter.
Este rock analítico nunca fez as delícias dos fãs de Slade, mas será uma boa especialização para os incondicionais dos Sparks e os amantes do krautrock mais cerebral; os cientistas loucos incomodar-se-ão com um certo apelo à dança (acaso epiléptica), mas lerão de bom grado o conteúdo literário. Pouco tempo depois, toda a new-wave e o post-punk apadrinharão Eno como um guru.
Em “The Great Pretender”, a escura caixa de ritmos gesticulando mecanicamente com outros tambores, acentua o indício no texto que aponta para a arrebatada relação entre dois seres (um deles de feições mecânicas), o tom subtilmente sombrio, lânguidos fios canoros desenhando texturas, uma guitarra parece uma serra, no fecho um som incómodo e persistente a clamar por emergência, algo entrou em parafuso!
“Third Uncle” abre com linha de baixo reptilínea e áspera que escava o silêncio. Os Bauhaus, na versão de 1982, transformariam esta avalanche controlada num avassalador pesadelo nuclear, contudo o original transborda de carácter subversivo, texto cerrado e telegráfico, sensações ao rubro, raiva e vingança, sexo e castigo, enfim, uma violência calculista que faz desta canção instrumento de tortura, a ferocidade da guitarra eléctrica em disparos impiedosos, onde o rock foi esquadrinhar a vanguarda.
E o descanso na adrenalina, “Put A Straw Under Baby” é um delicioso e beatífico hino orquestral, vestido por violinos enlevados e um senhor xilofone, não sabemos se descreve um ritual tradicional ou um infanticídio num convento, apesar de Eno dar mais relevo ao som das palavras do que ao seu significado, o enigma adensa-se com as pistas incompletas e metáforas religiosas, as vozes de Brian Eno e Robert Wyatt, alindando o refrão.
Os dois temas imediatos são exemplos de um rock estruturado e cerebral que não deixa de convocar emoção e excitação no ouvinte, há intrusos dissonantes e espertos (as máquinas de escrever em “China My China” lembram irresistivelmente Erik Satie e ainda “The Naked Lunch” de Burroughs), há onomatopeias em coros de ninfetas (“The True Wheel”), e mais uma vez camadas de linhas impenetráveis como diamante.
“The True Wheel” escapou de um sonho girando à volta do número 801, fascinando (e confundindo) a análise dos intelectuais, que adoram especular sobre os textos das canções rock. Cabala e Tarot na mesa dos culpados, a 801ª geração do Homo Sapiens (Alvin Toffler dixit) que é a nossa... Enfim, uma série de pistas carregando ainda mais o carácter mítico do álbum e a complexa arquitectura sonora.
Em “China My China”, as guitarras “jangling” não distraem a descrição de uma China de traços exóticos, de afazeres demorados e ritos ancestrais, imagem ultra poética que não está longe da realidade, apesar dos 60 anos de Maoísmo uniformizante. A própria entoação de Eno, propositada ou não (dependendo das intenções de esconder e/ou salientar) particularizando o som de diversas palavras e consequentemente o significado literal, coisa a que a língua inglesa já se habituou com mestres como Swift, Sterne, Carroll ou Joyce.
“Taking Tiger Mountain”, a canção-álbum, é uma introspectiva ascensão, fixando a candura da neve, desafiando ventos glaciais; é Brian Eno afrontando todas as convenções musicais, convertendo este enorme disco (não menosprezando a raiz de “Here Come The Warm Jets”) no laboratório de grande parte da futura música popular.

© 2006 AJQ