

DR. Z
Three Parts to my Soul (1971)
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Durante séculos, a obra de Hieronymus Bosch foi rotulada como subversiva e satânica e o seu autor visto como um devasso iconoclasta. Porém, as últimas e minuciosas investigações trataram de afastar essa ideia formada à custa de superstições, preconceitos e estudos descontextualizados. Afinal, toda a sua pintura assemelha-se à visão moralista de um homem profundamente religioso, tendo decepcionado todos aqueles que prefeririam acreditar na sua excentricidade. Isto parece repetir-se com o único disco lançado pelo obscuro trio inglês Dr.Z, no ano de 1971 rodeado em mítica aura malévola.
Obra conceptual baseada na viagem dos três estados da alma humana (Espírito, Manes e Sombra) após a morte. Com esta matéria percebe-se que o disco, saído em pequena tiragem (na mais progressiva editora da altura, a Vertigo), tenha criado essa auréola de “missa negra com a ajuda do próprio Lúcifer e alguns amigos, num templo maçónico profanado”. Tretas de quem possivelmente nunca terá ouvido o disco em questão.
De facto, o cuidado estético é mais do tipo de vitral colorido, com símbolos representativos e figuras estilizadas, a capa da edição original em vinilo abria como um opúsculo encadernado, a forma recortada do coração mostrava o nome do grupo. Contudo, a voz de Keith Keyes retém algum potencial maquiavélico, é propositadamente infame para o efeito, resultando na maioria do contexto. E toda a instrumentação é uma dualidade; de um lado a expressividade do cravo (no fundo, o som Dr.Z), do piano e do órgão; depois o baixo e as percussões ancorados em ritmos marciais de categoria. Quando o cravo e a bateria se juntam em uníssono o efeito é épico e sugestivo, demónios dançam agitando as fagulhas da lareira e os Dr.Z ganham pontos.
O álbum abre com “Evil Woman’s Manly Child” que terá feito debandar a maior parte dos adolescentes hippies de pés descalços pelo tom desabrido da vocalização de Keith Keyes e pela falta de electricidade que não ajudava para o efeito do ácido; desde os primeiros compassos, o álbum é uma valente teatralização de temáticas esotéricas. Em “Evil Woman’s Manly Child” a voz sussurrada debaixo da voz principal representa a consciência falando ao homem e a voz cantada a expressão malévola do mesmo, que pelos vistos não tem nenhuma esperança neste mundinho; poderia soar a algo de profundamente Richard Thompsoniano, se não fosse o tremendo lugar-comum de índole religioso, propulsor do fanatismo e inimigo do saudável hedonismo. Musicalmente, o uso dos bongós dá um efeito freak e momentaneamente dançável e a partir daqui, os Dr.Z convencem-nos. É uma “Semente do Diabo” em fraldas pop.
O segundo tema, “Spiritus, Manes et Umbra” (no original em latim) é uma demorada suite em que o trio dá valor à sua limitação acústica, a voz querendo ser bizarra, num estilo “underground” típico dos anos 70, um Captain Beefheart sem a aguardente ou o Edgar Broughton sem o estatuto político-social. Nestes doze minutos de orgias rítmicas bem sucedidas, o ser humano aparece-nos como os trípticos do Museu Nacional de Arte Antiga, o Espírito destinado a subir aos céus, o Manes a descer aos infernos e finalmente a Sombra, escolhida para assombrar eternamente as regiões terrenas. Vá, nada de risos, isto parece fazer sentido na escola do rock progressivo, filosofia condensada para fazer pensar a juventude, rock querendo ser “adult”...
Que dizer de “Summer For the Rose” que afinal é bem pop, vejam lá, os rapazes conseguiram arrebatar uma melodia orelhuda (como se diz agora por tudo ou por nada), mas diríamos mais cheirosa, entre a rosa (pois então!) e o enxofre (pois então, então). Ora e porquê? Porque, apesar da canção expressar o amor pelas coisas belas, pelo Criador e pelo irmão humano, há uma contínua desconfiança do potencial que o homem tem para o mal, que o faz necessitar da redenção (Kyrie Eleison, “Senhor tem piedade de mim” – diz o refrão); os ritmos saltitantes do cravo e da bateria criam jogos invulgares e a voz de Keyes é uma especiaria num sermão negro. “Burn In Anger” enceta um tom melancólico para uma flauta convidada, mas não tarda a precipitar-se num outro salmo jocoso, o “cravo” a criar riquezas sonoras de “horror-movies”, o cantor celebrando os desejos mundanos, a fraqueza da carne (oh senhores, não é tragédia para os Epicuristas), um choro e a flauta prolongando o final da canção, agora nas regiões do submundo infernal.
Assim, “Too Well Satisfied” é a reflexão desiludida pela vida de insatisfação terrena, o orgulho que é a grande causa da queda para o mal, uma dança vampírica que obsessivamente toma conta do tema, os dedos fustigando o cravo com uma loucura doentia, em procissão expressionista. Em “In a Token of Despair” são os “fake-gregorian-chants” que embelezam por instantes, personificando a Sombra deambulando pelas órbitas, repleta de remorsos; a segunda parte do tema é um excitante exercício jazz-rock em que guitarra baixo, piano e bateria finalmente levitam em ritmos elegantes; Keyes deixou de cantar (felizmente), é um “Dies Irae” instrumental, o juízo final que lentamente desvanece, deixando água na boca - estes tipos podiam ter ido mais longe se houvesse mais música e menos moralismo.
A questão nem é a parte filosófica, já que entre ética e moral há uma grata distância...
Felizmente o bónus (o single anterior “Lady Ladybird / People in The Street”) da edição da Akarma vem realçar o passado dos Dr.Z em dois “psych-acustic-pop” de primeira água como só os ingleses sabiam confeccionar, e que poderiam ter direccionado o futuro dos Dr.Z, não fosse o desejo seminarista. Pop mais obscuro que este existe?
Aceitam-se inscrições no misterioso mundo de Arthur C. Clarke.
© 2006 AJQ